“Como vais minha querida?”
Leio a mensagem e esboço um ligeiro sorriso, sei o que vem a seguir. Conhecemo-nos bem, mas é sempre uma descoberta, um desafio, um pedaço de loucura, um prazer… tudo se iniciou há tanto tempo que bem podia ter começado com o clássico era uma vez.
Não sei precisar o ano, mas posso garantir-vos que é algo do século passado, se bem que na altura, segundo ele, ainda fazíamos parte do escalão dos infantis e não sabíamos que íamos chegar a prós no jogo. Já eu, considero que éramos juvenis, ignorantes é certo, mas não completamente ingénuos. O curioso, ou talvez não, visto que estivemos sempre fora de tempo, é que em tantos anos nunca tivemos uma relação e nunca o tentámos sequer, se o tivéssemos feito teríamos certamente estragado tudo. O nosso segredo tem sido a moderação com que nos degustamos, estamos um perante o outro como uma iguaria rara, algo a que podemos aspirar apenas algumas vezes, poucas, sem nunca sabermos qual delas será a derradeira.
O bom em nós, se há um “nós”, é vivermos os dias em que os nossos caminhos distantes se cruzam, absorvermos essas horas como se simplesmente fosse acabar o mundo, é partilhamos os corpos, recordando-lhes os traços, os sabores… é podermos somente beber um vinho sentados no chão, enredados, e fazermos dessa uma experiência arrojada, sensual… é no dia seguinte sem promessas nem dramas seguirmos os caminhos distintos que sempre percorremos, porque o mundo não acabou.
O bom em nós, porque sim, há um “nós”, é o fantasiarmos que em qualquer momento poderemos cruzar-nos novamente e inventar um novo fim de mundo só nosso.
O bom em nós, disse-lhe em tempos, é a…
“… vontade.”
“… muita… incontrolável.”
“… não… incontornável!”
O bom em nós, é adivinhar lá pela sexagésima mensagem, o momento em que nenhum dos dois pode esperar por muito mais tempo.
“Diz-me. Estás sozinha, esta noite?”
“Não… espero que não…”
vontade
ainda sem titulo II
“Não… mas perdia-me…” Pensei para mim, mal os meus olhos a viram. Tinha o cabelo negro desgrenhado e os olhos que não consegui perceber a cor pareciam ter restos de maquilhagem de alguns dias. Descuidada e sensual. Uma selvagem no seu sobretudo de bom corte, talvez uma feiticeira. Já me tinham falado desta estranha mulher que comprara a casa do velho Faria. Havia quem dissesse que andava em fuga, talvez de algum marido violento, outros adivinhavam-lhe um grande desgosto que justificava a reclusão. Não se conheciam amigos nem romances, e as perguntas que o Chico da mercearia lhe ia conseguindo fazer tinham respostas evasivas acompanhadas de uma secura de voz que o desencorajava por mais uma ou duas idas às compras. Misteriosa e, sabia agora eu, capaz de me fazer perder o juízo.
Ao meu silêncio deu mais uns passos firmes na minha direcção, como se ignorasse a chuva e o vento. E usando um tom que eu diria quase ameaçador insistiu. “Perguntei se estava perdido.”
“Desculpe, eu…” Comecei a explicar-me.
ainda sem titulo
A chuva açoitava a porta de vidro da cozinha. Mais um dia frio. Não eram assim os dias que tinha imaginado quando comprara o terreno e me instalara na pequena casa. O rio que sabia ao fundo do vale não o conseguia avistar e do sol que devia estar a pique no céu, nem rasto, havia apenas uma claridade desfocada em tons cinza.
Fiz o segundo café do dia e encostei-me na aduela da porta, espreitando para fora do meu refugio com cheiro a fumeiro. Tinha o café quase bebido quando vi o carro a subir a ladeira lamacenta que dava para a minha casa. Quem se teria atrevido a desafiar o temporal e a lama, perguntava-me, eu própria não descia à aldeia há mais de três dias e não tinha qualquer intenção de o fazer antes que o tempo melhorasse.
A estrada terminava ali, bem na frente do meu alpendre e nos meses que decorreram entre a minha chegada e aquele dia, apenas dois carros além do meu a tinham percorrido, o primeiro fora a carrinha das mudanças e o outro, o de um casal de jovens que em busca de um local isolado ignorou o aviso de propriedade privada.
O ronco esforçado do motor parou e um homem alto na casa dos quarentas saiu lá de dentro envergando um impermeável.
Vesti o sobretudo, coloquei a mão direita dentro da algibeira e saí para o frio do alpendre ao seu encontro.
“Está perdido?”
sem contos
Não, não parti, mas tenho as mãos cheias de nada. Estou sem contos, mas com um sem fim de confissões. Será provavelmente por lá, na minha primeira casa que poderão saber de mim, se assim o desejarem. No contudo, continuarei a debitar a minha estupidez natural de vez em quando, com a irregularidade característica que aquele espaço sempre teve e por aqui… certamente regressarão os contos, quando os houver, amanhã, na próxima semana, no próximo mês ou no próximo ano… não sei, nem acho importante sabê-lo.
Deixo-vos uma musica, um obrigada e um até já…
Beijos.
Marta
vou contigo
Hoje roubo-te estas palavras…
“Hoje vou… parto.
Vou para lá…
Não sei bem para onde…
Mas vou… quero ir…
Vou andando… Caminhando.
Vou tranquilamente,
Não existem pressas…
Mas vou… quero ir…
Olho para o lado…
Não vou sozinha…. Sorrio.
Sigo contigo….
E vou… quero ir…
A estrada é longa…
É sinuosa…
Mas não me assusta… vou.
Vou… porque quero ir…”
Cátia Azenha
…e repito as mesmas que te disse na altura, iguais, mas agora com uma voz mais firme, com a certeza de que será como te disse e ainda um pouco mais.
Vejo-te ir… apresso o passo para te alcançar, para te acompanhar, mas detenho-me antes que me vejas… vou contigo, mas não te influenciarei no caminho, vou simplesmente aqui… a dois passos, pronta a socorrer-te na tua viagem…
Vai… caminha, escolhe caminhos, descobre atalhos, percebe que por vezes a recta é tua inimiga, aprende a voltar atrás a mudar de rumo… torna-te grande… maior!
Na verdade estás a ir rumo ao futuro, maior que tu mesma, acertando o passo, tornando-o firme e confiante… e eu vou aqui, um pouco mais atrás cheia de orgulho. É a minha menina, aquela que ficou família.
De vez em quando acelero o passo, pavoneio-me e ultrapasso-te enquanto te mostro a língua. Um pequeno carinho. Mas logo perco o folgo, desacelero, trocamos dois dedos de conversa lado a lado, partilhamos uma gargalhada e fico para trás. Preciso também do silêncio. E continuo aqui, apenas dois passos atrás, porque sempre que me sentes a ficar sem fôlego alivias a tua marcha, esperas por mim, sem parares, porque sabes que é assim que prefiro. E eu sinto-me segura, ganho ânimo, pernas e pulmão e estou pronta a correr mais e melhor.
Tu já sabes este meu jeito de te acompanhar e este ano faremos uma maratona, juntas!
Se ela fizesse anos hoje, eu dava-lhe os parabéns, mas dizem-me que não é dia 24…
desafio aos sonhos
A Orquídea , do blogue Nascidos do Mar lançou o desafio, e como o tema são sonhos e eu sou uma sonhadora aceitei.
As regras são:
1. Escrever uma lista com 8 coisas que sonho fazer ou com as quais sonhe;
2. Convidar 8 bloguistas a responder ao mesmo;
3. Comentar no blog de quem partiu o desafio;
4. Comentar no blog de quem desafiamos;
5. Mencionar as regras.
8 coisas que sonho fazer em 2009, acrescentei o 2009 às regras e fico-me pelo que posso ao menos tentar fazer, porque me parece que dado que estamos no inicio do ano…
1. Comprar aquela casa;
2. Vender a minha casa e ganhar dinheiro com o negócio;
3. Conseguir encontrar uma solução para a minha estabilidade financeira e profissional;
4. Manter acesa a chama, aquela que aquece o inverno frio e até reavivá-la;
5. Viajar;
6. Morder a língua de cada vez que destilar um bocadinho de veneno… não é pela esperança de ser boazinha depois dos 30 é apenas porque me dava jeito a imunidade;
7. Escrever. Mais e acima de tudo melhor que em 2008 que foi um ano medíocre;
8. Arriscar!
E esta seria a fase em que convidaria 8 bloguistas a fazerem a sua lista, seria… se o fosse fazer, mas não vou, desculpe Orquídea, é apenas a minha dificuldade em seguir regras…
E… pronto, podem dizer que eu fui materialista e até podem ter razão, mas eu posso é não querer saber disso, este ano quero continuar a não ser hipócrita!
… a você
É trapalhão, é baralhado e tem a capacidade de me tirar do sério com as suas tretas, porque sim, a esmagadora maioria são tretas, ele sabe, ele sabe que eu sei, ele sabe que nós sabemos. Mas ele também sabe, ou pelo menos eu espero que ele saiba que além dos exageros, que também me diverte e que é um amigo. Foi o meu primeiro visitante nestas lides da blogosfera já vai para mais de dois anos e não só continua por cá, como já cozinhei para ele e isso diz muito. Se não é mentira que por vezes tenho vontade de lhe dar uns estalos a ver se cresce sem ser em tamanho, não é menos verdade que por vezes é um querido. Para mim, ser amigo de alguém é também isto, dar-lhe nas orelhas porque ele merece, e neste caso se merece, não é verdade? Mas dizer-lhe que estou cá, que me lembrei deste dia e que lhe desejo as maiores felicidades. Mesmo!!!
Fontez, deixo-te uma musica, é velhinha, não é a mais apropriada ao momento, mas… é diferente. Este meu post também é diferente, uma forma diferente de te dizer parabéns!
tempo de mudar
Acho que estou apaixonada. Desde que a vi não penso noutra coisa. Não porque seja perfeita, mas porque a senti especial, apelativa. Tenho vontade de a chamar de minha e de me trancar nela.
Não é o meu primeiro amor é certo. Nem me fará nunca esquecer a que o foi. Essa terá sempre o seu lugar especial em mim, mas sinto que é hora de nos separarmos e de eu seguir em frente. É tempo de mudar. Nem é tanto pelo facto de ela estar velha, é o não me fazer vibrar como em tempos o fez. Toda a rotina de quase dez anos em comum me aborrece profundamente e acima de tudo sinto-me estagnada, parada no tempo. Sei que posso ser mal interpretada ao dizer isto, parece cruel, como se a visse de uma forma absolutamente descartável e não é esse o caso. Fomos felizes as duas, protegeu-me, foi importante, fundamental, inesquecível, sem ela não seria o que sou hoje, ensinou-me a crescer e eu atrevo-me a dizer que fez um bom trabalho, estou-lhe grata por isso e por isso mesmo nunca deixarei de a amar um bocadinho, mas está na altura de tentar outros voos, outros desafios. Sim, sim, parece cruel, mas sejamos francos, não o sentimos todos já em determinada altura das nossas vidas?
noções de tempo
Foi um acaso, se há acasos, que nos levou àquela sala, naquele dia, naquela hora. Vivíamos na mesma cidade, mas não nos encontrávamos há mais de quatro anos.
Quando levantei os olhos das letras pequeninas no visor do telemóvel, lá estava ele armado de sorriso rasgado a olhar-me.
“Olá!”
À minha falta de palavras, ele continuou.
“Que bom ver-te. Como estás?”
“Bem.” – Consegui pronunciar face à surpresa. A minha inquietação contrastava com a sua serenidade.
Foi um acaso, se há acasos, que complicou todo o serviço e nos deixou à espera por largas horas, que eu ansiava para que não terminassem nunca. Achei-o perfeito. Falou-me de si, perguntou-me por mim, sorriu, riu… Não lhe vi brancas, nada de barriga, estava igual, deslumbrante. Eu estava mais velha. Ele… parecia só apreciar miúdas…
“Uma mulher ia fazer-te bem.” – pensei.
Ele sorria. Sorria e falava como se fossemos velhos amigos, mas nunca o tínhamos sido. Nem namorados, nem amantes, nem amigos. Não tínhamos sido nada um ao outro, por mais que em diferentes alturas o tivéssemos querido.
Foi um acaso, se há acasos, que me levou a ter gato e ele cão. Que estavam presentes, naquela sala, a medirem-se tal como os donos.
“Amaste-me demasiado cedo!” – Repito-lhe em tom de provocação até hoje, dando voz ao murmúrio que soltei sem querer naquele dia e recebo sempre como resposta a mesma frase.
“Não… tu é que quase me amaste demasiado tarde!”