Hoje vou andar de barco. Faltam poucas horas para o dia nascer e tenho que me apressar. Quero chegar a tempo de me fazer rodear pela cesta de verga e pela água. Estou quase pronta para sair, preparei a cesta com bolo, frutas, sumo e água, falta só a mantinha… sei que a mantinha é para um piquenique, mas este passeio de hoje merece mantinha, não é das de quadrados, levo a castanha, das riscas, acho-a confortável.
Há muito que não vou passear, e lembro-me que fiz em tempos um passeio de barco que foi fantástico, meio surreal, mas fantástico, por isso apetece-me cometer o erro de o repetir. Sei que devia escolher outro local, outro destino, mas ando sem imaginação nenhuma e o barco é realmente o que mais sinto saudades… por isso vou…
Quero ver o sol a nascer, vermelho, marcado da roupa, do aconchego da noite, observá-lo a abrir os olhos, o espreguiçar matinal… pois, sei que pode ser mal visto esse gesto, mas eu adoro ver… sinto que partilhei a noite!
Vou buscar o meu casaco e vou…
Mas… sabes, na verdade só pensei no barco, porque pensei em ti, sei que a água é importante… sim, também sei que preferias andar de avião… mas isso não é tão fácil! Por isso, vou arriscar, convidar-te. Quero-te comigo, no barco a remos… quero ver-te acordar, pouco antes do sol… quero estar rodeada pela cesta, pela água e pelos teus braços… quero sentir contigo, na pele, a primeira carícia do sol, aquela que ele geme ao acordar tarde, por mais um dia ter perdido a lua…