Arquivo para Outubro, 2007

Hoje és tu… ;)

Chegou ao acaso, se há acaso, num tempo de espera, numa espera que lhe era alheia. A um terreno árido. Que tocou nas mãos e disse conhecer como era.
Foi voltando, dia após dia, de mansinho, no seu jeito suave de me tocar. Voou comigo, em fantasias sem limites. Falou-me das noites ganhas em conversas, do perfume que até hoje as suas memórias emanam.
Viajámos para aquela terra, de feiticeiras e dragões, mostrou-se forte, invencível, enfrentando qualquer espada, com um sorriso tímido e um olhar demolidor. Atravessou montanhas, cavalgou campos infinitos, rios e riachos… deixou-me um beijo.
Brincámos na chuva, libertando as feras enjauladas, permitindo que o sol entrasse em nós. Numa overdose de loucura, confessámo-nos politicamente incorrectas, e num dia de insónias, de voltas e mais voltas, entrou em mim…
Entrou de peito aberto e confirmou o que eu já sabia… cativou-me!
A partir daí foi uma crescente de sentimentos, de partilha. Muitos foram os dias em que entrou de rompante na casa velha, em corrida e se aninhou no meu colo, muitas foram as vezes que me afastei, apenas para lhe fazer aquele bolo, de chocolate. Agarrava o copo de leite com as duas mãos e levantava os olhos a medo… “Posso andar de baloiço?”… perguntava em silêncio. Quase sempre lhe disse que não, já a caminho do jardim, com uma gargalhada, e por lá, no velho baloiço de corda, sonhávamos, longe dos “horrores” que nos massacravam! Muitos foram os dias em que foi ela que me acolheu no que passou a ser o nosso baloiço… e me fez esquecer-me, num voo.

Hoje está cá, nesta nova casa, que também é muito sua…

Por tudo isto, mas principalmente por muito mais… primota, eu te confesso aqui, não te resisto, e por isso te conto aqui hoje!

Parabéns!

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zarpar

                                                 Sabia que ias.
                                        Que zarparias antes do sol raiar.
                             Sabia que esse aceno é tudo o que é meu…!
               Sabia que te farias ao mar, um mar que posso apenas ver do porto.
                    Sim, cala-te! Eu sei, eu sei que já sabia! 
                   Sabia dessa onda, envolta em espuma, que te afasta de mim!
                         Sabia desse outro sorriso… desse outro olhar.
                                                   Mas para já…
                                                           Eu…
                                                          Fico!
                                                         Peço.
                                                         Espero.
                                                        Choro…
                                              Imploro. Humilho-me…
E um dia, quando consumido pela saudade, pela vergonha, voltares no raiar da manhã… nesse dia, apenas nesse dia, eu irei! Levantarei amarras e também eu zarparei, para lá, para longe deste mar, desta maresia, desta revolta… Nesse dia eu irei… para lá, para onde o mar secou, para onde não há marinheiros…

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Super…

Ainda a gritar mentalmente, aproximei-me, pé ante pé das impostoras, mantinham-se à beira mar, molhando os pés na água morna. Protegida por uma palmeira, conseguia ouvir as suas vozes.
“Achas que ela percebeu”
“Nahhh, temos tempo… quando perceber já será tarde!”
Estremeci, talvez planeassem matar-me… Os olhos arregalaram-se-me e fiquei petrificada atrás da palmeira. Ouvia agora os seus risinhos sinistros. Gelou-se-me o sangue nas veias sob o calor abrasador. Num segundo todo aquele paraíso mudou. As aves piavam assustadas, o sol tapou o rosto com as mãos, perdendo luz, e até o mar ao se aproximar das vigaristas desmaiava de susto sobre a areia.
Respirei fundo e concentrei-me em algo que me pudesse tirar daquela situação.
“SOCORROOOOO MÃEZINHAAAAAA!!!”- gritei internamente…
Nesse momento, já elas se aproximavam da mala térmica. Lá dentro, em vez de Caprisones, estava uma faca, de talhante!
“Martinha!” – Chamavam-me com os olhos raiados de mal. Enquanto se aproximavam do meu esconderijo.
Foram precisos apenas instantes para que me deitassem por terra e se preparassem para desferir o golpe fatal!
Foi então, que dentro de mim ouvi uma voz: “Lembra-te Marta…”
E foi assim, que gritei pela primeira vez, aquilo a que estou predestinada.
“Contra o mal, os poderes estão comigoooo! Super Marta!”

Bem, resumindo, arrumei com os demónios em três tempos, esfumaram-se no ar! Agora estou aqui, debaixo deste solzinho… à espera! ;)

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aliso a toalha

Aliso a toalha.
Não é que esteja enrugada, mas o tempo passa melhor quando estou distraída.
Aliso a toalha.
Os meus movimentos de outrora, já não moram por cá. Restam-me estes dias de repetição muda.
Aliso a toalha.
Passo aqui os meus dias, nesta cadeira, nesta mesa. Também vejo televisão… mas só de vez em quando.
Aliso a toalha.
Às vezes perco-me nos seus desenhos, nas figuras, nas cores debaixo dos meus dedos, gosto de fixar neles os olhos, até deixar de ver as rugas e voltar à minha meninice…
Aliso a toalha.
Muitos dias, conto-lhe as minhas memórias, ela ouve, fica atenta enquanto a afago, permite-me o carinho. Ela não se cansa de mim, não se enoja, não me apressa….
Aliso a toalha.
O queixo treme-me um pouco, mas os olhos já não deitam lágrimas… vivem marejados, num nevoeiro que tarda em levantar. Até lá, vou estando aqui… e…
Aliso a toalha!

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menina

Há muitos anos, num reino distante, vivia uma menina. Não, não era Princesa, porque nem todas as meninas são Princesas, e nem todas sonham com Príncipes. Algumas… algumas são apenas meninas!
Mas adiante, não era especialmente bonita, não era especialmente inteligente, não era especialmente simpática… era especial! Era única! Era menina!
Viveu aventuras, travou batalhas e sonhou, sonhou muito com reinos distantes do seu. Sonhou com as aventuras que viveria nesses outros reinos, riu e chorou com o filme que foi fazendo de si própria, heroina duma peça com cenário desconhecido.
Gostava de fantasiar nos fins de tarde, enquanto corria pelos campos em perseguição aos bandidos, ou apenas enquanto se resignava perante aquele quadro de céu vermelho, pontapeando o tapete árido por baixo dos pés. E nesses momentos, muitas vezes, prometeu a si mesma que um dia iria ver o mundo…
E um dia foi… deixou a terra onde o sol é mais quente, onde os dias são maiores e foi!

Parece que já viu um bocadinho do mundo, que já viveu noutros reinos, que já não é menina… e que agora, sonha com o reino distante que em tempos foi seu!

Dizem que lhe chamam Marta e que hoje… ruma a sul!

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tivesse eu tempo…

Tivesse eu tempo…
Num pulo alcançaria as estrelas
Num mergulho iria ao fundo do oceano
Num rodopio tomaria o mundo nos braços
Não…
Tivesse eu tempo,
Sentar-me-ia em silêncio,
Ao fundo do quarto
A velar-te o sono…
Tivesse eu tempo…

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Na noite

A noite caíra há mais de 3 horas e o frio rigoroso do inverno fazia-se sentir em todo o seu esplendor.
Dirigia-me a casa, em passos largos, tentando evitar o frio que me trespassava a capa e alcançava os ossos, e o cheiro fétido dos becos mal frequentados pelos homens da noite. O cansaço começava a apoderar-se de mim, depois de mais um dia de luta pelos ideais, mais um dia em defesa da honra, afinal, tínhamos um lema e regiamo-nos por ele!
Estava a cerca de meio caminho, quando reparei na figura sinistra, que passara do outro lado da rua. Trazia o rosto encoberto, mas ainda assim, consegui ver-lhe o olhar, gelado…
Deixei-a passar e decidi voltar atrás, obedecendo aos instintos e seguindo-a. As vestes negras, faziam com que por vezes quase a perdesse, confundindo-se no escuro da noite, mas no fundo eu sabia quem era a vilã escondida debaixo daquela capa de capuz, reconhecera aquele olhar. Sabia onde se dirigia.
Entrou na velha estalagem, uns segundos antes de mim, atacando de forma vil e inesperada as minhas companheiras.
Aguardei junto à porta o momento certo, e foi a minha vez de a surpreender, fazendo-a provar levemente o aço da minha espada!
A noite terminou apenas horas passadas sobre o sucedido, quando a estalajadeira deu por bebido todo o vinho…

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os sete

A Fa desafiou… e eu respondo ao desafio!

Sete brinquedos que nunca tive:

Foram muitos os brinquedos que não tive, mas foram poucos os que desejei, suponho que se trata apenas dos que desejei.

1. Um carro com comando, mas um daqueles à séria, sem cabo, o que tive, tinha um cabo com pouco mais de um metro e rapidamente tive que passar a conduzi-lo com a mão e de rabo para o ar!
2. Um estojo de cientista ou lá como isso se chamava, mas… não fiquei impedida de fazer as minhas experiências
3. Um escorrega… aiai…
4. Um boneco que não tivesse a cabeça oca, para que quando eu lha arrancasse, ou aos olhos para ver o que lá havia, não ficar sempre tão desiludida… é que a chacina da bonecada, era mesmo só porque eu queria saber como a coisa funcionava! Na verdade ainda quero, mas já não uso os mesmos métodos! ;)
5. Um carro com portas de abrir, como a carrinha pequenina vermelha que eu tanto adorava, mas que os meus dedos eram grandes demais para ela… um dos poucos brinquedos que não estraguei muito… acho…
6. Mais legos… tinha sempre que me desfazer de obras de arte da construção, para poder realizar outras… precisava de mais.
7. Mais livros de colorir… ou então, se o mundo fosse perfeito, a possibilidade de escrever nas paredes lá de casa… tive queda para a arte abstracta muito cedo!

Sete lembranças vergonhosas da infância:

1. Os 3 irmãos com quem eu e os outros miúdos da escola gozávamos… essa é uma das maiores culpas que carrego comigo… fomos extremamente cruéis!
2. Ter feito xixi pernas a baixo na escola… eu sabia que estava para breve, mas achei que dava tempo de acabar a brincadeira… não deu!
3. As maldades que planeava fazer, e que quase sempre concretizava, enquanto passava por momentos dolorosos, nas mãos da minha irmã…
4. A minha mãe insistia, na praia, em vestir-me só uma tanguita ou que raio era aquilo e em pôr-me um chapéu na cabeça… na cabeça eu não tinha nada a esconder… já o peito desenvolvidíssimo dos meus 4 ou 5 anos… isso sim, devia andar tapado e por muito pano. Tinha bastante vergonha, até de ter vergonha, tanta, que nunca pedi um biquini completo! Ah! Pior, mesmo, era à chegada à praia e à saída, deixar-me totalmente exposta para me trocar a roupa… tststsss…
5. Não ter um único brinquedo com apresentação, destrui tudo, os meus e os da minha irmã.
6. Ter enterrado umas moedas antigas da minha mãe, valiosas para ela pela memória e não pelo valor material… eram um tesouro do qual eu gostava de me apropriar à socapa. Nesse dia enterrei-o… mas esqueci-me de fazer o mapa… nunca mais as encontrei, mas menti sempre a dizer que não tinha mexido… confessei há uns anos…
7. A colecção de fungos que fiz no quarto, escondendo os lanches, porque não queria comer…

Sete lembranças dolorosas da infância:

1. A perda do meu avô! Ausência física… porque ele continuou comigo!
2. O medo… o escuro… o meu quarto, que de luz apagada me parecia tão diferente… tão mais cheio…
3. Quando a minha irmã saiu de casa… como temos alguma diferença de idades, para ela era normal, para mim, o fim do mundo!
4. As tantas vezes que apanhei uns tabefes da minha irmã… ela era muito má :D … mas eu lembro-me que mereci todos ou quase todos… fiz-lhe de tudo!
5. Quando numa das minhas correrias arranquei um pedacito de perna num prego… doeu muito, mas adorei as mordomias! :D
6. O único tabefe que o meu pai me deu, e que foi injusto, creio até hoje, em tantos dias seria mais que merecido… mas acho que veio fora de horas!
7. Foi doloroso por vezes, não me sentir uma menina bonita como as outras, era desengonçada, lisa, pouco ou nada graciosa, nada feminina… mas como na maioria dos dias, as achava umas parvas, a coisa acabou sempre por ser relativamente pacifica.

Concluído…
Deixo o desafio a quem queira…

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temos pena ;)

No seguimento do post anterior, um dos habituais aqui da casa, deu mais umas luzes sobre quem seria o digníssimo senhor que falava, aqui está esse texto. Obrigada Cd! Ele era mesmo isso tudo…
Hoje, a Cátia, num dos comentários, contou-nos esta estória, vista por ela… eu gostei, era exactamente aquele o caminho que eu ía dar ao conto, logo, este texto que se segue, foi em parceria, a primeira de muitas espero eu. Primota, obrigada, eu gostei MUITO!!!
Quanto a quem lê, desculpem o tamanho, mas como o fds é grande, se vos apetecer, dividam este texto pelos vários dias!

Lá está ele a espreitar por detrás do jornal… aposto que acha que me vesti para ele, e de certa forma tem razão, não me passava pela cabeça vir nua.
Estou atrasada, vou ter que me desculpar, embora a verdade seja que estou dentro do carro na rua de trás à meia hora… precisei acalmar o coração. Sei que estarei nervosa, mas preciso estar perfeita!
Não reprimo o sorriso ao chegar à mesa… para ele, será uma “prova” do meu encanto por si, para mim, será a antecipação do… prazer…
Gentilmente ajeita a cadeira para eu me sentar e oferece-me uma bebida… Deve pensar que com este jeito manso e com um pouco de álcool me leva mais facilmente. Agradeço o gesto e dou a desculpa, que já vinha pensada, peço apenas água. Sei que não o devia fazer, devia acompanha-lo na bebida… mas nesta altura já não me interessa o que ele pode pensar de mim… afinal sempre o soube. O certo é que quero estar bem lúcida…. quero estar certa do que faço, mas principalmente quero estar certa do que ele faz…
Vejo-o a exibir-se, a dar-me o seu sorriso de marca, seja lá ela qual for, a tomar um vinho, enquanto sacode o pó das pestanas e conta o raio da anedota batida e sem graça, que ouço todas as vezes que o encontro e que mais uma vez finjo não conhecer…
Solto um suspiro, enquanto espero que tudo se encaminhe, e mato o tempo, rindo da anedota… da que vejo e da que ouço… para já ainda me apetece agradar-lhe!
Com a refeição no fim e mais de uma hora em tão… agradável companhia, entre pequenas confidências comerciais, alguns copos de vinho e sentidas gargalhadas, da parte dele claro está, a noite parece estar no fim, mas o melhor é sempre a sobremesa… e essa ainda está para vir.
Pego na mala, fingindo que me preparo para levantar, vejo o envelope que, apesar de não ter lido, sei o conteúdo… depois de meses de falta de consideração, fiz questão de o entregar pessoalmente. Sorrio para ele, com o meu ar de menina marota, e entrego-lho…
A sua surpresa é quase tão evidente como a minha vontade de gargalhar.
Saímos juntos, enquanto guarda o envelope ainda fechado no bolso.

Chego à empresa, de manhã, a saborear o gostinho do sonho da noite… cruzamo-nos no corredor… sorrio, mas desta vez finge que não me vê, embora seja evidente o seu faiscar de raiva.
Carrego comigo algumas das minhas coisas, o coração bate apressadamente… entro no meu novo gabinete… rodo na cadeira e mordo ligeiramente o lábio, para anular o som da risada… ah… é mesmo fantástica a vista que o canalha tinha…

Cátia e Marta

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alguns

Daqui, detrás do meu jornal, meço a presa! Lá vem ela, num saia/casaco profissional, mas com aquele decote provocante, acha-se boa… coitada! Se estivesse em casa com uma com meia dúzia de putos, talvez fosse útil em alguma coisa. Esta gente achará o quê? Que sabe de negócios?
Sou um gajo prático, não aprecio paneleirices e quando vou à caça, uso as armas que tenho. Nesta vida faz-se o que se tem que fazer e pronto. Não interpretem isto mal, não me estou a justificar, até porque me estou a cagar para o que vocês pensam. Não foi com amiguinhos e paixonetas que cheguei onde estou. Foi com luta, com sangue, e sempre que pude, preferi derramar sangue de outros a perder do meu! Quando se tem que matar ou morrer, mata-se e pronto! Não me f****, essa coisa de que é bom ser-se herói é uma grande treta… afinal de contas, morrem quase sempre tão cedo os pobrezinhos…
Está a chegar à mesa, vem tão leve… deve ser do excesso de ar entre as orelhas!
“Boa tarde Doutor, desculpe o atraso!” – Hum… tonta!
“Boa tarde colega, valeu a pena esperar, está deslumbrante, como sempre aliás! Aceita uma bebida?” – Deixo-a pensar que é igual… isto vai ser tão rápido, quanto divertido. Tem ainda mais de burra do que de bonita…

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