Havia acordado apavorada, confusa…
Afinal, como há muito dizia e repetia o Sérgio Godinho, aquele era o primeiro dia, do resto da minha vida!
O entusiasmo de todos contrastava com a minha aparente apatia. Faltavam apenas duas horas, quando deixei a água correr até escaldar e rodei a chave na fechadura. Aqueles minutos, queria-os meus.
Sonhava com aquele dia, desde pequenina, aquando da plateia de bonecas e das palavras repetidas até à exaustão. Idealizara o vestido, os risos, a felicidade estampada nos rostos, a emoção até às lágrimas. E como qualquer menina, fascinada com o facto de crescer e ser mulher, visualizava os saltos altos, perfeitos para o vestido longo, elegante… ouvia os piropos, sentia todos os olhos cravados em mim, antecipara tudo ao longo dos anos, cada emoção, cada gesto, cada palavra… mas naquele momento, quando chegara o momento, tudo se revelou distinto.
A água escorria-me pelo corpo, vermelho do calor, e ainda assim mal a sentia, as duvidas que tinha mantinham-me adormecida, anestesiada com a ideia de realizar o meu sonho, “O” sonho da minha vida. O que faria depois? O que me faria correr? Com o que sonharia? E se eu fosse feliz? Talvez não resultasse se eu fosse feliz. Sem a tempestade de sentimentos, sem a dor contida nas palavras, nos gestos, talvez não resultasse…
A ansiedade, o medo, deturpou o momento, e nada foi como havia sonhado.
Passado pouco mais de uma hora, estava em frente ao espelho, impecavelmente maquilhada, penteada… linda, no meu vestido longo, negro!
Senti as lágrimas invadirem-me os olhos, ao primeiro toque de xaile nos ombros nus, aquando do murmúrio para lá das cortinas.
Soube nesse instante, que nunca seria apenas feliz e sorri. Havia em mim aquela ânsia, aquela doença que nunca deixaria fugir a dor. E eu teria sempre aquela mágoa no tom arrastado, agastado de cantar!