A chuva forte fustigando as janelas renegava o verão. Sentou-se no pequeno mocho de palha desfiada a ver a chuva, pestanejando a cada vez que a água parecia conseguir atingi-la. Não afastava a cabeça, apenas não queria ver. Aliás, fechar os olhos era algo que sabia bem como fazer. Tinha fechado os olhos a tudo. Fosse o que fosse, desde a miséria, às palavras rudes que os miúdos haviam aprendido com o pai, aos apetites dele, tudo.
Saraiva.
Se voltasse a ter 20 anos e a casar, não mais se deixaria marcar como um animal qualquer. Havia recebido o nome dele cravado no lombo, marcado no passar dos dias a ferro e fogo e nos papéis que não sabia ler.
Saraiva – repetiu. Apenas para se lembrar a quem pertencia, apenas para confirmar que deixara de ter identidade.
A ideia do odor a bagaço, das suas mãos ásperas e frias fê-la desejar que uma daquelas gotas trespassasse o vidro barato e entrasse em si, certeira… foi fechando os olhos e ficando à espera, mas como todas as esperas que tinha tido ao longo da vida, foi inútil. Quando terminou a chuva e há falta do milagre, levantou-se, ajeitou o avental e foi fazer o jantar. Foi assim toda a sua vida…
…
Não chorara o seu toque, nem o seu desrespeito, era a sorte que lhe cabia e achava que ninguém fugia ao destino, mas chora-lhe a morte… esperavam isso dela, que mostrasse sofrimento e assim o fez. Fechou os olhos, lembrando-se da tarde de chuva, do milagre que nunca chegou, das lágrimas que não se tinha permito derramar e chorou-o… só nunca pôde imaginar que um dia, a solidão seria de tal ordem que na última das esperas lhe sentisse a falta!