o inicio

Havia naquela sala uma certa displicência que me deixava nervosa e obrigava a castigar o pavimento com o meu salto aguçado de forma decisiva, altiva, numa espécie de valorização pelo contraste. Ele, antes sentado, ergueu-se numa das minhas passadas. Os mais desatentos talvez o pudessem achar desajeitado, mas não eu… eu sabia mais sobre ele, sobre mim, que qualquer um naquela sala gigante e impessoal.
Vislumbrei-lhe um sorriso, ligeiro, demasiado ligeiro para que qualquer outra pessoa que não eu o pudesse ver. Um sorriso no olhar, uma falta de mágoa, uma paz que me fez vacilar por ainda não a possuir e avançar de braço esticado e sorriso afável. Senti-lhe o calor em redor dos meus dedos num aperto firme, um calor que não saberia reconhecer, apesar de acreditar até aquele momento que o decorara ao mais ínfimo pormenor. Nunca lhe tinha apertado a mão, não que o lembre, tinha-lhe sentido a mão, tinha-lhe agarrado a mão, tinha-o abraçado, mas nunca em algum momento sonhara sequer apertar-lhe a mão e naquele segundo de calor em redor dos meus dedos, não havia nada que pudesse ser mais intimo ou intenso. Nenhuma lembrança das que revivera mil vezes de forma deformada se poderiam sequer comparar com aquele segundo de calor.
A vida é irónica, tinha-o procurado durante anos sem nunca lhe perceber o rasto e quando desisti, ela trouxe-mo de volta, lindo, seguro… e ao que parecia fora do meu alcance. Se lhe adivinhasse uma réstia de dor, um trejeito de mágoa, poderia tentar convencer-me de que havia nele algo do passado, de mim na sua vida, poderia sonhar, mas assim…
Tinha passado anos a afirmar  que o queria feliz, a mostrar aos outros e a convencer-me a mim própria de que o meu amor era desinteressado, desprovido de crueldade, mentira… o meu amor, como qualquer amor que se preze era egoísta, queria-o ferido com a minha ausência, queria-o amarrado ao passado, dorido pela saudade e amargo pelo anos perdidos, aquela paz que lhe adivinhara nos olhos calmos, deitava por terra a minha esperança.
“Aceitas um café?” – Perguntou-me.
“Não obrigada, devo confessar que estou um pouco ansiosa, seria muito má ideia beber mais um café.”
“Vamos então?”

Assenti e segui-o até ao seu carro.
Sei que pelo caminho falámos sobre a casa, não que saiba uma única palavra do que me disse, estava ainda concentrada no calor da sua mão em redor da minha, na sua colónia suave que desconhecia e me embriagava.
Entrámos directamente na garagem e começou a visita por ai, de onde subimos  pelo elevador até ao 11º andar. Um apartamento com uma vista fabulosa sobre a cidade e o Tejo revelou-se para mim, mas ao aproximar-me da janela gigante da sala senti as pernas tremerem e soube que não o poderia ter, era demasiado assustador, assustadoramente belo para que o pudesse comprar. Nesse instante em que recuei um passo, senti-o perto de mim e ao virar-me na sua direcção descobri nos seus olhos claros o menino dos calções azuis de bombazina que corria atrás de mim nos intervalos.
“Sabes que lamento não sabes?” – Perguntei-lhe inspirada pela memória da menina de cabelos da cor do sol, que nada temia.
“Não. Não sei, diz-me tu.”
Emudeci, ao perceber que errara na minha teoria de segurança e paz.
“Diz!”
“Não sei por onde começar…”
“Pelo inicio, começa-se sempre no inicio.”
“O inicio… nasci há 35 anos e uns meses e nessa época ainda não tinha feito asneiras e ainda não pensava em ti, tu só chegaste muito mais tarde à minha vida, eu diria que uns quatro ou cinco anos depois. Por essa altura eu já fazia algumas asneiras e depois disso nunca mais parei de pensar em ti…”

12 Comentários »

  1. Cris disse

    Ai, voltaste! E em grande! Adorei! És o máximo!

  2. Marta disse

    Cris,

    LOL :D

  3. r.filgueira disse

    é assim mesmo!!!!
    de novo e quantas x for preciso..
    um xii

  4. Marta disse

    R.Filgueira,

    A vida é feita de inícios, e de fins (mas hoje não me apetece falar nesses), tantos quantos forem necessários.

    Este texto foi em parte inspirado no último mail da semana passada, a frase que me enviou deu origem a esta: “Pelo inicio, começa-se sempre no inicio.” – Obrigada pela inspiração! :D

    xii

  5. Fontez disse

    absolutamente fantástico!

    consegues imprimir nas palavras uma droga qualquer que nos faz ver ou vislumbrar imagens…do conto…e aqui!

  6. r.filgueira disse

    A vida é IRONIA…
    UM XII

  7. Marta disse

    Fontez,
    :) Obrigada.

    Mas se conseguiste “ver” foi porque os tu lhes deste rosto. Não descrevi nenhum dos dois. Quem ler fica livre para lhes dar uma identidade. Eu dei apenas pequenas indicações quanto ao espaço. Mas se conseguiste vislumbrar imagens isso é bom, muito bom! :)

    Beijinhos!

    R. Filgueira,

    Muita!!!

    xii

  8. Fontez disse

    o maravilhoso dos teus contos é que são adptáveis.

    e tal é de aplaudir.

  9. Fontez disse

    *adaptáveis

  10. Marta disse

    Fontez,

    Espero que sejam! :)

  11. wolfhunter disse

    Olá Marta !

    Long time no see ;-)

    pelo que leio a Beleza continua dentro de ti

    Existe Beleza no Inicio e no Fim
    e por vezes é necessario provocar o Fim… para conseguir um novo Inicio…
    mas…,
    Existe mais ilusao na Beleza do Inicio…,
    que na Beleza das coisas sem Fim…

    bj
    w.

  12. só vim confirmar que estava mesmo parado :(

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