foge cômigo

Sete menos oito, marcava o relógio gigante, redondo, pendurado na estrutura metálica que abraçava a plataforma. Sete menos oito, marcava, enquanto o vento forte o baloiçava arrancando-lhe um gemido metálico. Dolente. Sete menos oito. Ela gostava de oitos, ele, chegou no minuto certo. Visivelmente agitado olhava por cima do ombro, tentando garantir que o seu segredo estava bem guardado, ela… ela apenas o queria a ele, com ou sem segredos. Esperava-o há muito, tanto, que chegou a duvidar se ele chegaria. Levantou-se trémula de emoção, compôs o longo vestido e o pequeno chapéu e acenou-lhe, efusiva na alma, num gesto contido pela mão enluvada. A plataforma mal iluminada estava cheia de homens que partiam para mais uma jornada de trabalho. Alguns já a tinham olhado de soslaio. Não era hora nem local para uma mulher sozinha. Não tinha tido medo, não era mulher de se permitir ter medos, mas o seu coração acalmava e acelerava com a imagem dele, sorriso rasgado e passo firme na sua direção. Primeiro tocaram-se as mãos, depois trocaram o abraço que apenas eles conheciam e, partiram.

Foge cômigo, dissera-lhe em tempos. Assim foi, passavam 8 minutos das sete quando o comboio começou a deslocar-se, primeiro num movimento arrastado, depois numa marcha constante. Sentados frente a frente sorriam. Levavam uma muda de roupa e pouco mais, ele, um bouquet de suspiros, ela… a sabedoria para os libertar.

hoje é Natal

Hoje é Natal, acho que não passava um Natal “sozinha” desde os meus 19 ou 20 anos. Que é como quem diz, desde sempre. Não sei como se passa um Natal sozinha, mas obviamente também não o posso passar acompanhada…

 Teria aqui sumo pelo menos para 3 sessões de terapia, mas eu deixei de ter tempo e de poder ir à terapia. Ou bem que vou trabalhar e estou longe, ou bem que faço terapia, escolhi comer, ainda que não lhe sinta o sabor… a verdade é que estou cada vez mais triste, cada vez mais deprimida e estou farta de estar triste e deprimida, estou farta de me anular e fingir que não existo, estou farta de respirar baixinho para não fazer barulho, 2017 está ai e, não sei como, mas vou reaprender a ser eu, vou refazer-me, vou impor-me, vou valorizar-me e depois, plena de mim, vou deixar de estar sozinha, eu não gosto de estar sozinha. Chega! Vou encontrar-me ou perder-me, mas quero companhia nessa viagem. 2017 vai ser o “primeiro ano do resto da minha vida” e eu vou ter o que eu quiser!

Para já ainda é 2016, eu ainda durmo pouco, ainda continuo a emagrecer, ainda me sinto miserável e sem paciência para ninguém, ainda me vou sentar mais logo à mesa, olhar para o lado e pensar: “estás sozinha caralho, muito mais do que qualquer uma destas pessoas imagina”, e fingir o melhor que posso e, finjo mal eu sei, mas vou fingir que estou bem, para tentar poupar alguns do que amo e que passam o Natal comigo. Depois há outros que também amo e que não estão comigo, mas que eu não tenho a menor dúvida de que na verdade estão!!!

Hoje é Natal. Oh oh oh. Grande merda! Cagalhão pro Natal!!!