enganos

Tinha meia hora entre os dois comboios, deambulou pela plataforma e resolveu descer, passou pelo primeiro café, depois pelo segundo, nenhum tinha imperial, que raio de gente estranha, desceu outro piso, ajeitando o trolley na escada rolante.

O dia tinha sido esgotante, precisava de uma cerveja. Sentou-se na mesa de todos os dias e pediu uma imperial. Viu-a logo depois, a brincar com o copo entre os dedos. A única mulher sentada, a beber uma cerveja. Brincava com o copo com a naturalidade de quem conhece o gesto. Olhou-o nos olhos quando se percebeu observada, ele(?) desviou o olhar para voltar logo em seguida. Havia qualquer coisa nela que o desafiava.

Olhou-o nos olhos e percebeu-lhe o desconforto, os homens são assim, ficam desconcertados com mulheres que parecem seguras. Terminou a cerveja, levantou-se, ajeitou o vestido azul e foi, tinha um comboio à sua espera, que a levaria mais uma vez a lugar nenhum, puxou o trolley segura no gesto e, sentiu-lhe o olhar a queimar a pele.

Ficou a observa-la até se perder na multidão, havia qualquer coisa naquela mulher de vestido azul que o fascinara, talvez a segurança, se ele tivesse coragem, um dia partiria assim…

Faltavam poucos minutos para o comboio, imaginou-o intrigado sem conseguir desviar o olhar, até que um outro vestido se cruzasse, imaginou-o a sentir pena da sua solidão em viagem e castigou a calçada debaixo do seu salto, ferida com essa imagem…

margem sul

Passei anos a ir para a margem sul todos os dias e nunca me senti atraída pela ideia de viver do lado de lá do rio. Pois é meus amigos, continuo no olho do furacão. Estou já a começar as malas e apesar do frio no estômago, estou cheia de esperança. Sinto-me a voltar a “casa”, realmente a começar de novo, já era tempo… até já. 😉

#a vida

Ontem falava com alguém de quem gosto muito, sobre vida morte e redenção. Têm sido recorrentes nestes meses estas conversas. Talvez tenhamos apenas o que precisamos, uns, o necessário para se redimirem, outros, o empurrão que precisavam para se “perderem”. Não lhe falei nisso, é uma espécie de surpresa envenenada em mim. O bombom com recheio estragado.

“… que me saiba perder, para me encontrar!”

 

marisa

Olho-te nas minhas costas. Murmuras um: “amo-te mesmo caralho!”. No segundo seguinte cerras os dentes e viajas, dentro e fora de mim. Lanço-te um olhar lascivo, deixo-te concentrado no que só tu me sabes fazer e, observo-a a ela. Está mergulhada em nós. O nosso brinquedo. É um investimento de muitas semanas. Foi observada, medida, estudada ao mais ínfimo detalhe e agora temo-la aqui. Ajoelhada perante algo que não entende mas a excita. Não tarda, sei que nos iremos dedicar a ela. Desejo-a tanto ou mais do que tu. Agora que penso nisso, qual de nós teve esta ideia?! Não importa.

Volto atrás.

É quarta-feira, e como em tantas outras quartas-feiras encontramo-nos ao final do dia. Tinhamo-la encontrado umas semanas antes. Seguiu-se o estudo da presa, todos os dias que vinhas encontrar-te comigo passavas lá e compravas cerveja para nós. A conversa com ela foi fácil. Tu és giro e esperto, ela… vende cervejas e combustível a camionistas. Foi tão fácil destacares-te. Casada. Perfeito! Mais tarde não nos dará problemas. Mas adiante, é quarta-feira, eu estou de férias, tu a trabalhar, encontramo-nos no final do dia. Quando entro na área de serviço tu já estás sentado com uma cerveja na mão e falas animadamente com ela. Eu entro, dirijo-me ao balcão e peço-lhe uma Sagres. Mini. Depois, no alto do meu salto, vou até à tua mesa, deslizo a minha língua para dentro da tua boca e sento-me. Ela, agora calada, olha-me perplexa. Fito-a nos olhos e sorrio-lhe enquanto debaixo da mesa a minha mão desliza pelo teu sexo. Vejo-a suster a respiração incapaz de desviar o olhar e agarro-o com firmeza. A partir daí tudo é simples, apanhamo-la por volta das 10.

Volto.

Fecho os olhos e deixo escapar um gemido, extasiada com a língua que me invade. Não penso em mais nada!

o morto

Acredito que o amor nasce, floresce, cresce, amadurece e, naturalmente um dia morre. Há amores que morrem de velhos, outros por acidente, alguns por tédio e há até os que são assassinados, mas o facto é que morrem. Um dia, acordamos e percebemos sem saber como nem porquê que o amor morreu. O amor, morto, como todos os mortos parece-nos perfeito, mas está morto. O amor, não a habituação, ou a amizade, ou a saudade do que foi. Apenas o amor. A vontade de estar com (que é brutalmente diferente da vontade de ter companhia), a vontade de falar por horas sem que o assunto se acabe, a vontade de nos sentarmos à mesa e que o tempo voe e quando percebemos passaram mais de três horas e de uma garrafa de vinho, o disparar do coração quando o telefone toca, a respiração do outro no nosso pescoço, a gargalhada fácil, o toque da mão que desperta em nós um verdadeiro terramoto, o encontro de almas, a dança dos corpos. O amor. O primeiro pensamento da manhã e o último suspiro antes de adormecer. O amor morre. Algumas pessoas insistem em não ver e mantêm-se agarradas a ele. Não ao amor que já não existe (às vezes nem nunca existiu, apenas havia a ideia dele), mas ao morto. Acontece que por mais que deem ao rabo, mesmo que até consigam por um bocadinho afastar as moscas, não irão nunca conseguir reverter a sua condição de morto e mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos moscas, mais ou menos visíveis, será impossível ignorar que fede!

… então boa Páscoa, que segunda-feira já passou!

Páscoa.

Estou farta de dias comemorativos. Natal, Ano Novo, Aniversário, Páscoa, etc., etc., etc.

Dias em que temos que estar com, dias que devem ser vividos de determinada forma, em que é esperado x e se finge y. Bardamerda para estes dias, felizmente o ano está cheio dos outros dias, os que cedemos a fazer o que desejamos e não o que esperam de nós, felizmente o ano tem muitos mais dos outros dias em que estamos onde for, com quem nos der na bolha, fora deste teatro que não passa de ilusão!