… então boa Páscoa, que segunda-feira já passou!

Páscoa.

Estou farta de dias comemorativos. Natal, Ano Novo, Aniversário, Páscoa, etc., etc., etc.

Dias em que temos que estar com, dias que devem ser vividos de determinada forma, em que é esperado x e se finge y. Bardamerda para estes dias, felizmente o ano está cheio dos outros dias, os que cedemos a fazer o que desejamos e não o que esperam de nós, felizmente o ano tem muitos mais dos outros dias em que estamos onde for, com quem nos der na bolha, fora deste teatro que não passa de ilusão!

foge cômigo

Sete menos oito, marcava o relógio gigante, redondo, pendurado na estrutura metálica que abraçava a plataforma. Sete menos oito, marcava, enquanto o vento forte o baloiçava arrancando-lhe um gemido metálico. Dolente. Sete menos oito. Ela gostava de oitos, ele, chegou no minuto certo. Visivelmente agitado olhava por cima do ombro, tentando garantir que o seu segredo estava bem guardado, ela… ela apenas o queria a ele, com ou sem segredos. Esperava-o há muito, tanto, que chegou a duvidar se ele chegaria. Levantou-se trémula de emoção, compôs o longo vestido e o pequeno chapéu e acenou-lhe, efusiva na alma, num gesto contido pela mão enluvada. A plataforma mal iluminada estava cheia de homens que partiam para mais uma jornada de trabalho. Alguns já a tinham olhado de soslaio. Não era hora nem local para uma mulher sozinha. Não tinha tido medo, não era mulher de se permitir ter medos, mas o seu coração acalmava e acelerava com a imagem dele, sorriso rasgado e passo firme na sua direção. Primeiro tocaram-se as mãos, depois trocaram o abraço que apenas eles conheciam e, partiram.

Foge cômigo, dissera-lhe em tempos. Assim foi, passavam 8 minutos das sete quando o comboio começou a deslocar-se, primeiro num movimento arrastado, depois numa marcha constante. Sentados frente a frente sorriam. Levavam uma muda de roupa e pouco mais, ele, um bouquet de suspiros, ela… a sabedoria para os libertar.

hoje é Natal

Hoje é Natal, acho que não passava um Natal “sozinha” desde os meus 19 ou 20 anos. Que é como quem diz, desde sempre. Não sei como se passa um Natal sozinha, mas obviamente também não o posso passar acompanhada…

 Teria aqui sumo pelo menos para 3 sessões de terapia, mas eu deixei de ter tempo e de poder ir à terapia. Ou bem que vou trabalhar e estou longe, ou bem que faço terapia, escolhi comer, ainda que não lhe sinta o sabor… a verdade é que estou cada vez mais triste, cada vez mais deprimida e estou farta de estar triste e deprimida, estou farta de me anular e fingir que não existo, estou farta de respirar baixinho para não fazer barulho, 2017 está ai e, não sei como, mas vou reaprender a ser eu, vou refazer-me, vou impor-me, vou valorizar-me e depois, plena de mim, vou deixar de estar sozinha, eu não gosto de estar sozinha. Chega! Vou encontrar-me ou perder-me, mas quero companhia nessa viagem. 2017 vai ser o “primeiro ano do resto da minha vida” e eu vou ter o que eu quiser!

Para já ainda é 2016, eu ainda durmo pouco, ainda continuo a emagrecer, ainda me sinto miserável e sem paciência para ninguém, ainda me vou sentar mais logo à mesa, olhar para o lado e pensar: “estás sozinha caralho, muito mais do que qualquer uma destas pessoas imagina”, e fingir o melhor que posso e, finjo mal eu sei, mas vou fingir que estou bem, para tentar poupar alguns do que amo e que passam o Natal comigo. Depois há outros que também amo e que não estão comigo, mas que eu não tenho a menor dúvida de que na verdade estão!!!

Hoje é Natal. Oh oh oh. Grande merda! Cagalhão pro Natal!!!