Má sorte

O rosto enrugado, torrado pelo sol, não é bronze, nada disso, é torrado, esturricado, queimado. O rosto de quem chegou ao fim da vida, com marcas profundas. Vincadas. Imagino as madrugadas geladas em que saía à rua para iniciar a lida ao nascer do dia, imagino a agressividade do sol, às 3 da tarde no campo…
Perco-me nessa viagem, nesse espreitar de uma vida que não me pertence, que não conheço… dou por mim a lamentar a má sorte daquela mulher… dou por mim a sentir-lhe as dores, de cada vez que um dos seus filhos chorou de fome… dou por mim a fingir que sei entender…
Não consigo deixar de a observar, o corpo magro, encolhido nas roupas pretas, de um preto roçado, comido pelos anos! A expressão, não a consigo distinguir… vejo-lhe apenas o perfil, cadavérico!
Agradeço mentalmente a minha vida de futilidades, as rugas que tardaram, os cabelos pintados, bem cortados… Agradeço as roupas, o dinheiro que nunca me faltou na carteira. Tive tanta sorte… devemos ter a mesma idade, mas pareço sua filha.
Nesta sala vão entrando e saindo, todos alheios a nós, só eu a vejo a ela e a mim, ninguém vê… ficamos assim com a velhice, transparentes… falamos com a menina da padaria, somos amigas da cabeleireira… ela nem essa amiga deve ter… a pobre tem um rolo de cabelo branco na cabeça, por baixo daquele lenço! Volto a lamentar-lhe a sorte.
Na sala entra um homem bonito, alto, forte, dirige-se a ela com um sorriso rasgado.
“Olá vó! Vamos para casa?”
Estremeço. Ela levanta-se com dificuldade, amparada pelo neto e vejo-lhe a expressão… por baixo das rugas estão uns olhos brilhantes, quentes…
Continuo sentada, espero a consulta e voltarei mais tarde a casa, de taxi… não vejo o fedelho que criei a pão de ló há quase um ano…
Lamento a má sorte… a minha…  

Amanhecer

Observo-te… com os primeiros raios de sol a nascer. A luz acaricia-te como se de mil mãos se tratasse. Distingo-te agora claramente os traços, a silhueta. Coberto parcialmente pelo lençol que desce ao chão, vislumbro uma coxa ainda envolta em sombras… dormes sereno!

O corpo que umas horas antes, arquejante, se fundira no meu, baila agora apenas no meu pensamento.

Não sei colocar em palavras as infinitas sensações que despertas no meu corpo, na minha alma… não sei descrever o que sinto… sei apenas, que olhando-te agora deitado na minha cama, vejo o homem que sempre quis, o que sempre procurei sem saber!

Fecho os olhos, enquanto me aninho na tua pele nua… fico assim… recebendo esse calor que me arrepia…

A cada minuto que passa, o sol, descarado voyeur, fixa-se em nós, deixando-nos da cor quente que ganha ao atravessar a cortina… sinto o teu braço rodear-me, num movimento  suave… fecho os olhos, sei que irei dormir e sonhar…!

Amor

O Fontez desafiou-me a falar de Amor, Amor verdadeiro, que identificou como Amor a Deus.

A minha primeira reacção, foi dizer-lhe que não era eu a pessoa indicada para o fazer. Repensei… porque não? Eu amo! Que importa se o expresso de maneira diferente, se o entrego de forma diferente. O Amor que dedico a quem amo é menos Amor? Não creio!

Amor verdadeiro… não percebo… qual é o Amor falso? Se é falso é uma farsa, nunca Amor. Se é Amor é verdadeiro, tem que ser verdadeiro, só pode ser verdadeiro!

Amamos de forma diferente, amamos pessoas diferentes, amamos diferentes “Deus”… na minha opinião, é desta diferença que nasce a maravilha da raça humana, é porque somos diferentes que evoluímos, é até pela diferença que nos amamos, isto quando nos respeitamos!

Não quero dizer com isto que não acredito, que não tenho Fé, que não Amo Deus… faço-o à minha maneira. Não posso eu, nem creio que qualquer outra pessoa, dizer se o faço bem ou mal, faço-o como sinto… portanto…

Não vou sequer tentar qualquer definição, para mim Amar é não saber, não ver, e ainda assim acreditar, Amar não se aprende, não se ensina, não se explica, não se procura, não se perde, Amar sente-se… está em nós! Não amamos pelo nosso grau de escolaridade, não amamos pela classe social, não amamos pela religião que temos, não amamos porque somos correspondidos… amamos porque sim, porque o sentimos, porque está em nós… porque mesmo um amor que nos magoa é melhor que nenhum amor… nunca se ama em vão… ama-se apenas…

Amemo-nos!

A noite das amigas – vista por ela…

 

Cresci numa casa grande, cheia de valores e de VALORES, e confesso que nunca foi o dinheiro ou o conforto que me incomodou… mas ainda assim, trocá-los-ia pelo carinho que não recebi, não como precisava.

Senti-me em muitos momentos como as focas que nadam com o tratador em troca de uma sardinha, isto, se o número correr bem…

Tentava de tudo por um carinho, um incentivo. Comia direita à mesa, nunca falava com a boca cheia, nunca levantava a voz, haha, levantar a voz… eu não me atrevia sequer a levantar o olhar, enfim…

Fui uma aluna exemplar e vestiam-me com folhos e laços ridículos, acompanhados do belo sapato de verniz. Respeitava o “museu” em que vivia, nunca me lembro de partir um único objecto, aliás, eu nem sequer lhes tocava, tal o medo que vivia em mim.

A adolescência, foi vivida em casa, menina comportada e de família não andava pelas ruas como uma qualquer… quando entrei na faculdade, continuei a viver naquela casa… grande… fria… fiz poucos amigos, não tinha tempo, não me deixavam ter tempo. Fui prisioneira do quarto cor-de-rosa! Nessa altura pensei fugir… não era aquela a vida que queria, mas era só aquilo que conhecia… ouvia tantas e tantas vezes que tinha sorte, que acabei por acreditar. Fiquei! Não podia desapontar quem me dava tudo, tudo o que o dinheiro podia comprar!

Numa das minhas poucas saídas, se a memória não me falha, a terceira, bebi um pouco, acho que nem foi muito, apenas o suficiente para ficar embriagada e perder parte do medo… nessa noite, no banco de trás do carro dele, perdi a virgindade, nessa noite… fiquei grávida, de alguém que mal conhecia… o meu único momento de rebeldia, fez-me perder a última esperança de liberdade!

O escândalo foi abafado casando… um casamento que eu não queria… mas não podia ser rebelde, não sabia… resignei-me…

Fui feliz quando peguei nos braços a minha filha… e prometi fazer com ela tudo diferente, falar-lhe abertamente, educá-la em liberdade… sei que falho a cada dia, ainda é o medo que me move…

A mulher da minha vida eu conheci por acaso… nunca a vi como mulher, apenas como alguém que me entendia, que me apoiava, que me amava… não foi de todo fácil aceitar racionalmente, nunca me ocorreu sequer assumir-me, mas um dia, ouvi uma frase que nunca esquecerei e que mudou a minha vida.

“Nós não amamos mulheres ou homens, nós amamos pessoas!”

Não posso em verdade dizer que o meu marido não me apoiou, afinal ele foi tão vitima quanto eu, no entanto quando percebi a sua ainda maior distância em relação a mim, vi aí a oportunidade de me “livrar” dele… por ironia, ficamos cúmplices!

Já passaram mais de 6 meses, desde aquela manhã, no gabinete escuro daquela mulher… recordo com nitidez o seu sorriso sarcástico… o meu pavor e o dele ao sermos descobertos.    

 

Quando voltámos a casa, tivemos a nossa primeira conversa de amigos, ninguém podia culpar ninguém e a nossa vida melhorou. Continuamos juntos para a família e os “amigos”, mas somos mais livres, vivemos com alguma paz. Juntamo-nos até os 4 para jantar ou fins de semana… nada mais natural que dois casais serem amigos, temos a farsa perfeita, até um dia… 

 

(Aqui podem encontrar uma possível versão do marido, foi escrita por alguém que eu gosto muito ler. É em tudo diferente do que eu escreveria, também por isso a acho interessante!)

A noite das amigas

O nevoeiro cerrado dava-lhe cobertura, do meu posto de vigia, escondida atrás do volante do carro alugado, estava demasiado distante para não falhar. Chegara ali há 2 horas, depois de a seguir discretamente.

Segundo as informações que tinha, tratava-se de uma rotina. Todas as quintas-feiras, saía de casa depois do jantar e regressava pouco depois da meia noite. Era “a noite das amigas”. O marido saía às terças, contara-me ele, sentado em frente à minha velha secretária. Faziam-no há muito tempo pelo que confidenciara. Foram pais muito cedo, fruto do que apelidou de noite de copos… a solução para o caso veio com um casamento. Tinha sido após um ano de vida em comum que a ideia tinha surgido, todas as semanas tinham saídas com os amigos, em dias separados, para que a filha não ficasse sozinha.

Contara-me ele, num tom de lástima, que começava a desconfiar da mulher, a rotina que mantinham como casal era grande e no fundo nunca se amaram, mas pela família, sempre lhe deu o melhor de si, mas agora… se as suas suspeitas fossem reais… afinal um homem tem a sua dignidade, rematara ele na altura…

Estava ansioso por desmascarar a mulher e eu entendi o porquê! Já ouvira antes, naquela mesma semana um discurso idêntico.

Quando a luz do r/c da vivenda se acendeu, soube que o momento chegara e saltei do carro com ligeireza, aprendera com o tempo e a experiência a usar as sombras da noite, e a aparente desvantagem do nevoeiro, jogava agora a meu favor. O bairro adormecido deixá-la-ia confiante, descuidada. Parei em frente à porta, a cerca de 6m. Encoberta pela noite e pela laranjeira cujos ramos carregados, pareciam tocar o chão.

Tinha que ser rápida, a oportunidade era excelente e terminar aquele serviço parecia-me fácil. Pelo vidro fosco da porta via as silhuetas desfocadas. Olhei uma vez mais o relógio, passavam 3 minutos da meia noite. Tudo conforme o previsto. Sorri.

Claramente  vi a aproximação à porta, respirei fundo e fiquei ali, pronta a disparar. Aconteceu poucos segundos depois, num flagrante perfeito, nos braços da amante.

Nessa noite, depois das fotos impressas, não evitei a gargalhada! Que ironia!

Mal podia esperar pelo dia seguinte, pelo momento em que os dois, ambos meus Clientes, ficariam com a sua própria homossexualidade e traição exposta.

Imaginei os seus olhos a arregalarem-se de espanto… eu apenas os unira…

Era uma vez…

Era uma vez, um “aqui” diferente, mas muito igual, cheio de sonhos e alguns pesadelos, de fantasias, de choro e de riso!
Era uma vez, uma Marta que não era Marta, mas também não deixava de o ser.
Era uma vez, alguém que gostava de ver o outro lado, sentir outras vidas, alguém que fantasiava o que não teve e chorava o que não sentiu… era uma vez, uma mentirosa dirão… hum…
Era uma vez, uma sonhadora, prefiro assim!
Era uma vez, um outro “aqui”… mais livre!
Era uma vez, um reencontro de amigos, um ponto de encontro… ou desencontro!
Era uma vez, um espaço que não era constante, que era escrito por quem não sabia muito de escrita… um espaço que não estava na moda, um espaço que se vestia mal e penteava pior… um espaço genuinamente incorrecto… onde se gritava, onde se comentava, onde se falava nem sempre com conhecimento de causa… um espaço verdadeiramente livre… mas um espaço onde se respeitavam opiniões, onde a diferença era bem vinda, onde se debatiam ideias e sentimentos… um espaço onde se pensava… conforme se sabia!
Era uma vez, um local onde se contavam histórias, de ninguém… ou talvez de alguém!
Era uma vez, um local que era vosso, que era dela, que era meu… que era nosso!
Era uma vez… ela, eu e o outro… aqui!

(Este post, por ser o primeiro foi escrito por mim, mas de agora em diante é com a Marta… aqui entre nós, isto vai piorar certamente! 😉 )