Barco

Hoje vou andar de barco. Faltam poucas horas para o dia  nascer e tenho que me apressar. Quero chegar a tempo de me fazer rodear pela cesta de verga e pela água. Estou quase pronta para sair, preparei a cesta com bolo, frutas, sumo e água, falta só a mantinha… sei que a mantinha é para um piquenique, mas este passeio de hoje merece mantinha, não é das de quadrados, levo a castanha, das riscas, acho-a confortável.

Há muito que não vou passear, e lembro-me que fiz em tempos um passeio de barco que foi fantástico, meio surreal, mas fantástico, por isso apetece-me cometer o erro de o repetir. Sei que devia escolher outro local, outro destino, mas ando sem imaginação nenhuma e o barco é realmente o que mais sinto saudades… por isso vou…

Quero ver o sol a nascer, vermelho, marcado da roupa, do aconchego da noite, observá-lo a abrir os olhos, o espreguiçar matinal… pois, sei que pode ser mal visto esse gesto, mas eu adoro ver… sinto que partilhei a noite!  

Vou buscar o meu casaco e vou…

Mas… sabes, na verdade só pensei no barco, porque pensei em ti, sei que a água é importante… sim, também sei que preferias andar de avião… mas isso não é tão fácil! Por isso, vou arriscar, convidar-te. Quero-te comigo, no barco a remos… quero ver-te acordar, pouco antes do sol… quero estar rodeada pela cesta, pela água e pelos teus braços… quero sentir contigo, na pele, a primeira carícia do sol, aquela que ele geme ao acordar tarde, por mais um dia ter perdido a lua…

Um mundo novo

Vinhas carregada. Na bagagem trazias tudo o que tinhas. Os sonhos de uma vida, entre os poucos objectos pessoais e o vestido azul. Não era novo, é certo, mas realçava-te os olhos claros, caía simples, ficavas bonita com ele. Só o vestias em ocasiões especias, podia imaginá-lo imaculadamente dobrado.

Perdi-me nos meus pensamentos enquanto te via aproximar de sorriso rasgado, olhos cintilantes… se pudesses saber! Largaste a mala, comprada para a ocasião, e agarraste o meu pescoço, feliz! Abraçavas um mundo novo, a transbordar de promessas. Confiante, crente na velha amiga… se te pudesse contar…

No caminho até à pensão de terceira onde te conduzi, não te calaste. Falaste das vinhas com o Douro a seus pés… falaste das uvas comidas junto à videira. Intervalavas com a admiração pela cidade grande, pelas perguntas que fazias em relação ao trabalho… confesso que quase te levei de volta à estação.

Revi-me em ti, no tempo em que a minha maquilhagem se resumia a um batom rosa, no tempo em que também me atrevi sonhar, no tempo em que acreditava…

Larguei-te no quarto decorado a mofo, que nem sequer seria só teu, mas não antes de te surrupiar a carteira com o pouco dinheiro que trazias e os documentos. Disse-te que iria tratar da papelada do quarto e saí… não olhei para trás… cumpri a minha tarefa e fui!

O meu filho voltaria para mim… consolei-me!

Ciclone

O primeiro calafrio surge antes, bem antes, como prenuncio do ciclone que se avizinha, invisível. Apresso-me a proteger as janelas, abro canais para escoar a água e finalmente tranco-me me casa… depois é só esperar, na agonia da incerteza da sua intensidade. Agarro um agasalho e tento acreditar numa tempestade ligeira. Preciso que seja ligeira.

Concentro-me nos seus sons à chegada, estudo-a, não sei ainda a intensidade, mas o seu rugido confirma o que temia… ameaça-me… ameaça o que é meu! Tento manter a calma e fico atenta às primeiras investidas. 

Agora sou só eu a defender a casa… a solidão apoderou-se de mim faz tempo. Com a chegada da noite aumenta o meu cansaço. A água teima em entrar pela frincha da porta, o vento ameaça com fúria os vidros protegidos pela madeira tosca pregada às pressas.

Não posso dormir, a correria frenética esgota-me, mas não posso dormir. Morre-me na garganta um grito, não adianta, ninguém o ouvirá! Esta casa é tudo o que tenho. Não posso ceder à vontade de cair por terra, de adormecer…

Talvez um dia… talvez um dia, perca o medo da água, e nesse dia poderei ficar longe do mar!

Sacanas

Gosto deste jogo, de viver no arame, do equilíbrio precário. Agrada-me o risco! Finjo que por ti saltaria do trapézio… sinto-me poderoso quando te faço jurar que me servirias de rede!

Gosto, quando em suor, me gritas que sou o único. Convenço-te de um monte de mentiras, enquanto no fim, partilhamos um cigarro. Adoro a forma como finges acreditar. Anima-me, depois de ti, de te largar com um beijo, planear, preparar a próxima presa!

Gosto quando te vejo bamboleando, para o mocinho do café. Faço-me de cego, quero que me provoques ainda mais! Só tu sabes como fazê-lo! Excitas-me…

Gosto de te ter como parceira, que me dês luta, fazendo de conta que não dás… gosto de te ver chegar com urgência, de te deixar de rastos… gosto de nos saber feitos da mesma massa…

Gosto de ti assim… sacana como eu!

ausente

Ando por aí… pareço ausente, alheia, vazia, mas estou atenta. Ouço as conversas que se cruzam. Recordo como também eu, um dia fui imbecil!

Acreditem, agora ouço de tudo. Como pareço carênciada de vida, ninguém se inibe na minha presença. Há de tudo sabem, os crentes, que julgam que um dia vão mudar o mundo, os indiferentes, que se julgam mt superiores e os … a estes não sei que chamar, mas gostam da minha miséria, para se distrair da sua. Eu não quero saber de nenhuns… que se lixem! Sei bem, que a qualquer momento, posso ter que me debater com qualquer um deles, pelo cobertor de cartão. Sei bem, que em muitos dias, fui um pouco de cada um deles. Sei bem, onde isso me trouxe!

Perdi tudo o que tinha, ou fui roubada, nem sei… sei só que vivemos de equilibrios, ganhei em troca uma porra de uma sabedoria envenenada!

A minha vida não se resume ao objectivo maior de comer uma sandes por dia e encontrar um local abrigado. Não! Eu tenho este ar ausente, para tentar acordar um dia com o que tive de mais importante. Se recuperar a maior benção que possui, eu levanto-me… eu só preciso esquecer a forma como o mundo gira… eu só quero de volta, a minha ignorância!

Jaime

Acordei com um uivo, arrastado, feroz! Saltei na cama, com o coração aos pulos. Na escuridão, procurei o interruptor do abajur. Não acendeu… deixei cair a mão para fora da roupa, em direcção ao chão e chegada aí, palpei até encontrar uma velha lanterna metálica.

Os gritos eram cada vez mais altos, as persianas batiam furiosamente e o meu corpo todo tremia.  Agarrei-a com força, para iluminar  o quarto e me  defender dos perigos que poderiam esperar-me.

De lanterna em punho, braço esticado, pronta a lutar, avancei, com o ranger do soalho sob os meus pés descalços. Dirigi-me ao interruptor do candeeiro do tecto. Toquei-lhe uma vez… nada!

Nesse momento tudo estalou ruidosamente, como se o meu atrevimento em alcançar a luz enfurecesse os demónios que ali rondavam… petrifiquei encostada à parede.

Apontando em todas as direcções, quase o podia ver, fantasmagórico, bailando na minha frente, assumindo formas… maltratando a madeira até a fazer gemer. Não sei por onde entrava o vento, mas posso jurar que o sentia a arrepiar-me a pele, fazendo esvoaçar a camisa de alças que me descia até quase aos joelhos.

Num segundo, tudo se iluminou, revelando sombras nas paredes, para logo em seguida voltar à penumbra, quebrada apenas pela luz fraca que me saía da mão. Nesse preciso momento, a porta começou a ceder. Os ruídos todos se misturavam, o uivo do vento, o bater furioso da janela, o ranger da porta, os meus ossos a tremerem… e agora um gemido, fraco, dorido, como se fosse uma criança…

“Quem está aí?” Gritei. Como resposta, apenas a porta a continuar a abrir. Senti as pernas vacilarem… escorreguei encostada à parede até chegar ao chão.

“Quem está aí? Responda!” Nada… apenas o meu eco, os ruídos… apenas eu enlouquecida, vulnerável… vencida! A lanterna caiu-me da mão e rolou para fora do meu alcance… ficando na minha frente, apontado a porta já aberta. Revelando aquelas 2 luzes, paradas na porta… 2 faróis…

No instante seguinte, que me pareceu uma eternidade, percebi finalmente quem me assombrava… podia nessa altura distingui-lo. Era o Jaime… o meu gato… preto!!!

 

 

Queria (te)

Hoje queria um movimento lento, aconchegante, ritmado!

Queria que me envolvesses num abraço, as tuas mãos a passearem nas minhas costas numa caricia suave. Explorar com a ponta dos meus dedos os braços que me envolveriam… sentir o teu perfume, que talvez nem o fosse, mas que sei me entraria pelas narinas e deixaria demente!

Queria sentir-te no meu pescoço, os teus lábios num roçar meigo. O teu rosto perdido no meu cabelo, fazendo-o movimentar-se com a tua respiração quente. Fechar os olhos e saber que me guiarias em segurança!

Queria o roçar da tua perna na minha, enquanto os teus braços me aproximavam mais de ti… deixar-me levar!

Queria uma melodia serena, que me tranquilizasse, cantada num sussurro na minha orelha!

Hoje queria uma dança, que me fizesse voar!

Queria-te… comigo!

 

 

(Para ti, porque hoje o dia é especial, de mim, cujo dia foi… mais um, mas agora é feliz por ti…)