Lindas

Observava-as de longe ainda. Sabia que estava quase na hora de me aproximar delas. Sabia-as ansiosas como eu, doidas por sair. Perdi-me em pensamentos, em memórias das noites loucas que partilhámos.
Quase perfeitas, pele suave, macia… lindas! Fechando os olhos, conseguia antecipar o momento. Conseguia sentir o prazer, que em breve iria experimentar mais uma vez… depois de meses.
Estavam ali à minha espera, aprumadas, alinhadas, até ao momento de as minhas mãos lhes tocarem, de as sentir, de saborear o cheiro da pele. As saudades que eu tinha. Tive vontade de me aproximar de imediato, de as afagar, de as sentir por dentro… onde os olhares da rua não chegam, num local só meu, só nosso… mas ainda não era o momento.
Deixei-as ficar. Coloquei a água a correr no duche, e segundos depois, sentia-a a passear-se por mim… sempre com aquelas duas, no meu pensamento.
Sem poder esperar muito mais, acabei o duche, vesti-me e saí, descalça, envolta na neblina, na sua direcção… de rompante, calcei-as… as saudades que eu tinha das minhas botas…

O banco

Cheguei ao banco de madeira, o que ladeava o canteiro onde em tempos houvera tulipas, há hora habitual. Ligeiramente antes dele.
Gosto da sua companhia, sempre gostei, mas também sempre precisei daqueles 5 minutos de “solidão”. Como tudo em nós, surgiram naturalmente, como se ele me adivinhasse… percebendo as minhas necessidades, os meus desejos.
Despedi-me daquele jardim, com um imenso aperto no peito e um nó na garganta. Era tempo de partir, e eu nunca gostei de dar murros em pontas de facas, portanto iria. Com a maior serenidade que encontrasse em mim. Passada que estava a revolta, queria apenas paz, só não sabia ainda onde a encontrar! A resposta chegou-me 5 minutos depois, no sorriso bonacheirão que sempre me aqueceu a alma.
“Olá amor!” – Dizia-me todos os dias, como se não tivéssemos acabado de acordar juntos. Vivêramos uma vida boa, com os seus percalços naturalmente, mas uma vida boa. Amámo-nos! E nos dias mais difíceis, esse amor foi o alimento e a salvação… a lucidez! Em tempos em que tudo o mais me abandonou, eu tive a riqueza do seu sorriso, o consolo do seu abraço… vivi uma vida boa! Tive apenas os fardos que conseguia carregar…
E foi assim, naquela manhã, que me levantei pela última vez do banco construído por nós, para nos sentarmos junto às tulipas… foi assim, que segui viagem com um bilhete só de ida… mas guiada pela sua mão!

Corri tanto!

Corri tanto! Tanto, que as minhas passadas ecoavam no peito. BUM BUM BUM! Não abrandavam. Corri tanto! Acho que me apanharam logo… não me lembro de aqui chegar. Sei que caí, tropecei no meu pavor! Não sei onde foi. Não vi nada! A noite ficou escura, o vento, deixei de o sentir no rosto, e a chuva miudinha parou de se fundir com o meu suor. Não vi nada! O ar ficou quente… talvez por já ter sido respirado…
Eu estava sentado nas poças de água. Recostaram-me tantas vezes, acho que numa parede, que me senti uma noz, espremida num alicate… não vi nada… só ouvi os estalidos, o rasgar! Pareciam abelhas, vinham de todos os lados, e eu… estava sentado entre forças contrárias… era uma festa… ouvia gargalhar… mas eu não vi nada!
Estou tão cansado… se os meus braços deixassem, tirava isto da cabeça.
Tenho sede… mas o liquido que me escorre num fio fininho até à boca não é água. É mais grosso, está quente!
Tenho sono!
Se ao menos conseguisse ver… não vejo nada!
Está tudo tão calmo, já nem o BUM BUM BUM, eu ouço… corri tanto… e agora vou só dormir!

O “meu” José

Lembram-se do pequeno José?

O envelope saía amarfanhado, para fora da caixa de correio. Precisei apenas de o puxar sem abrir a caixa. Senti o coração disparar imediatamente ao ler o remetente – CCS Portugal.
“É o meu José!” Disse a quem me acompanhava.
Atrasada, para não variar, entrei no carro com o envelope a queimar-me os dedos, e a ansiedade galopante. Já sentada ao volante, estiquei o envelope e pedi-lhe que o abrisse.
Passaram-se minutos, sempre comigo a espreitar pelo canto do olho, para as folhas impressas que iam surgindo.
“Isto é tudo igual ao que já recebeste!”
A excitação começou a dar lugar à desilusão… mais folhas, mais informação já conhecida…
“Está aqui!” – Ouvi finalmente.
Mais tarde, sentada com o pequeno panfleto nas mãos, olhava a foto e a emoção que senti e sinto, devo dizer-vos que foi e é, muito maior do que a esperada.
É um menino lindo!
O Essi, por aqui usarei este nome, é um lindo moçambicano, de 6 anos de idade. Vive na Ilha de Moçambique, que se situa a norte, a cerca de 180 Km de Nampula. Um local rico arquitectonicamente, marcado pelos 500 anos de presença Portuguesa, mas também, por toda uma grande mistura étnica, sendo a sua população marcadamente muçulmana.
A ilha, um local de cerca de 1 Km2, é a casa de aproximadamente 17.000 habitantes… as condições de vida são precárias, sendo a água potável um luxo, a que apenas 20% da população tem acesso!
O Essi, vive com os pais e seis irmãos, numa casa construída em materiais locais, sem saneamento, sem água, sem luz! O sustento da sua família, chega pelas mãos do pai, que como a maioria dos locais, é pescador. O menino tem uma saúde frágil, e é acompanhado no Posto de Saúde Local.
Apesar da sua história de vida difícil, o Essi, é um menino esperto e brincalhão. Frequenta a 1ª classe e apresenta um bom comportamento.

A foto… trago-a comigo e mal tenho oportunidade exibo-a orgulhosa!
O Essi já me conquistou! Já me fez feliz! Já é um dos meus heróis!!!

Hoje não digo mais nada sobre o programa de Apadrinhamento à Distância, já me alonguei muito. Limito-me a agradecer, aos que embarcaram comigo nesta aventura! E aos que hoje, ao lerem estas palavras ficarão felizes por mim… OBRIGADA!

Marta

Simples

Não entendo!
Por aqui, fala-se de tantas e tantas coisas, contam-se his/estórias, mas a minha, está em espera desde o inicio e nunca mais chega a sua vez. Porquê? Porque há sempre um assunto mais urgente? Que raio!
Pois bem, basta! Hoje falo eu!
Começa a ser tempo, de se distinguir a urgência, da importância. Claro que sei que os fogos têm que se combater quando deflagram, mas se os prevenirmos, haverá cada vez menos. Aqui é o mesmo. As urgências nunca terminam e do que é importante, nada fica!
Por isso, hoje, sou eu a estrela da companhia! Hoje, é a minha vida que dá um conto.
Fui uma criança feliz, numa família estruturada. Fui crescendo e tive as minhas crises, obviamente, mas nada que não fosse normal. A bitola para medir o normal, era a seguinte, se tinha aprendido alguma coisa, se tinha ficado mais forte, era normal… era o que tinha que ser, para o meu crescimento.
Sempre tentei manter presente em mim, que as 4 estações eram igualmente importantes. Afinal, quem pode viver só de verão? Os invernos, por vezes longos e rigorosos, dão lugar a primaveras esplendorosas. Se nunca chover, que raio floresce? Cactos?
A seu tempo, e depois de alguns enganos, encontrei alguém que me faz feliz. Não me atormento com o que não tenho… tenho o que é mais importante… vivo em paz, comigo e com quem me rodeia. Claro que me irrito, que reclamo, que discuto, mas isso é apenas porque sou assim…
Que conto sem graça, dirão vocês, e talvez tenham razão, mas o que lhe daria a graça? Contar o sangue que perdi em muitas batalhas? Pois… por hoje é importante algo simples, tão simples como respirar… tou farta de sangue!

Beco

Chegava à escola na hora exacta e saía quase em corrida mal soava a campainha. Os intervalos, passava-os na casa de banho. Fechada, em pé, de costas na porta. Não suportava os risos que ecoavam pelos corredores, não suportava as conversas entre dentes das meninas que entravam no cubículo do lado… não sei explicar. Por um lado sentia-me desprezível, pensava que ninguém me via, mas por outro… só podiam estar a troçar de mim… era certamente de mim que cochichavam e soltavam risinhos… curioso não é? A forma de me valorizar excessivamente, achando que só eu podia ser tema de conversa e por outro lado, desvalorizando-me tanto, que achava que ninguém poderia gostar de mim, “ver-me”.
Escondia-me em roupas largas, e odiava-me por ser tão desinteressante! A cara vivia tapada por um emaranhado de cabelos, que meticulosamente eu despenteava, no beco que dava para um armazém abandonado a 100m do portão de entrada, enquanto controlava o relógio para cruzar o portão no momento exacto. Sem parar em nenhuma parte do percurso, chegava à porta da sala ao toque. Decorei o nº de passos que separavam cada sala, e entre cada uma e o portão. Ao bar eu não ia… comia em casa ou escondida na casa de banho… sim, o meu pavor e o meu desespero eram tais, que eu comia bolachas ou mesmo sandes que levava de casa, dentro do cubículo da casa de banho… todos já entraram numa, imaginam-se a comer lá dentro? Pois… eu hoje felizmente também não!
Neste momento devem perguntar-se se eu era uma boa aluna, se me sentava nas filas da frente… pois bem, sim e não, tinha de facto boas notas, mas ficava lá atrás… da forma mais invisível que me fosse possível. Não era participativa, mas cumpria nos testes, nos trabalhos… e como para muitos professores fui realmente invisível, consegui chegar ao fim da linha sem que ninguém se apercebesse.
Os meus pais, não tinham muito tempo, mas que fique aqui claro, não me negligenciavam, era eu que fugia, e às refeições, que invariavelmente fazíamos juntos, esforçava-me por lhes parecer normal, era apenas reservada, talvez até um pouco triste, mas normal.
Não vou tentar descrever o que sentia, não o vou catalogar com palavras, que inúteis como são, nunca vão transmitir a angustia que vivia em mim.
Vou dizer apenas, que um dia, depois de roubar todos os comprimidos que encontrei em casa e de os meter no saco que usava a tiracolo, juntamente com uma garrafa com lixívia e álcool etílico, saí de casa, sem deixar bilhete, sem olhar para trás, pronta para dar fim à minha miséria.
Vagueei pelas ruas e acabei no beco, ao lado da escola…
Lá, caído no chão, sobre uma poça de sangue, estava o Luís… da minha turma…
“Ajuda-me Joana…” – gemeu. E eu estremeci de medo e de emoção por ele saber o meu nome!
Foi pela mão dele que encontrei ajuda, foi a mão dele que me salvou, quando me inclinei sobre o seu corpo naquela manhã de sábado, desajeitadamente, e da minha mala caíram os comprimidos e o “sumo” que levara de casa.
Passaram desde então mais de 20 anos, continuamos os melhores amigos. E ironia ou não, se ele não fosse assaltado e abandonado ali, eu ter-me-ia suicidado… se eu não planeasse matar-me ele ter-se-ia esvaído em sangue, naquele beco deserto.
Deus sabe o que faz!

Viagem

Parti em busca do que nem sei, numa viagem longa. Andei para trás, enquanto avançava entre linhas e quadrados, desenhos e poemas. Visitei locais escondidos na memória. Sensações de alguém que não sou, e que me parece agora nunca ter sido.
Ainda sinto na boca o travo do descontentamento e o doce do sonho. Não era eu… não posso ter sido eu… mas sei que fui eu. Fui eu, que escrevi aquelas folhas por onde me passeei hoje, aquelas amareladas pelo tempo. Recuei ano após ano, pelas épocas em que as memórias eram pessoais, pelo tempo em os posts eram em papel de caderno, entre a aula de geometria e a de matemática. Muitos escrevi-os a bold, em letras garrafais a rebentar, apertadas pelo quadriculado do caderno. Voltei à adolescência, das letras redondas, das frases dramáticas. Senti a absoluta miséria que não recordo hoje, de algum dia ter tido. Li as alegrias que não lembro mais e os sonhos cujos contornos se perderam.
Visitei-me, e por lá senti-me tão velha, tão mais velha que hoje, em que a gravidade se começa a notar no meu corpo. Que me importa o rosto sem rugas, o peito firme, o rabo espetado? Que me importa?
Quando voltei a arrumar os blogs de argolas que vivem nas estantes, senti-me mais leve, mais feliz com quem sou. Em tempos, diria que era apenas conformada, mas não, estou mais feliz comigo. Apesar de todos os defeitos que saltam em mim, de todos os fracassos, de todas as quedas, eu evolui… estou mais pronta, estou mais forte…
Esta página de hoje, perdida num caderno a que não pertence, fica por cá, à minha espera, para que daqui por uma década, eu me visite e sinta como hoje, que com o tempo, evolui!