Viagem

Parti em busca do que nem sei, numa viagem longa. Andei para trás, enquanto avançava entre linhas e quadrados, desenhos e poemas. Visitei locais escondidos na memória. Sensações de alguém que não sou, e que me parece agora nunca ter sido.
Ainda sinto na boca o travo do descontentamento e o doce do sonho. Não era eu… não posso ter sido eu… mas sei que fui eu. Fui eu, que escrevi aquelas folhas por onde me passeei hoje, aquelas amareladas pelo tempo. Recuei ano após ano, pelas épocas em que as memórias eram pessoais, pelo tempo em os posts eram em papel de caderno, entre a aula de geometria e a de matemática. Muitos escrevi-os a bold, em letras garrafais a rebentar, apertadas pelo quadriculado do caderno. Voltei à adolescência, das letras redondas, das frases dramáticas. Senti a absoluta miséria que não recordo hoje, de algum dia ter tido. Li as alegrias que não lembro mais e os sonhos cujos contornos se perderam.
Visitei-me, e por lá senti-me tão velha, tão mais velha que hoje, em que a gravidade se começa a notar no meu corpo. Que me importa o rosto sem rugas, o peito firme, o rabo espetado? Que me importa?
Quando voltei a arrumar os blogs de argolas que vivem nas estantes, senti-me mais leve, mais feliz com quem sou. Em tempos, diria que era apenas conformada, mas não, estou mais feliz comigo. Apesar de todos os defeitos que saltam em mim, de todos os fracassos, de todas as quedas, eu evolui… estou mais pronta, estou mais forte…
Esta página de hoje, perdida num caderno a que não pertence, fica por cá, à minha espera, para que daqui por uma década, eu me visite e sinta como hoje, que com o tempo, evolui!

21 thoughts on “Viagem

  1. Ai os cadernos da minha meninice, as estorietas que eu por lá inventava, tinha uma giríssima, por acaso muito parecida com algo que ontem aqui vi… acredite ou não, também conheci um Matias, com quem julgava que ia casar e também a determina altura “Matias correspondeu”, mas com o nome dele, Matias de Oscar Alho… os nossos filhos ficariam “marcados”.

  2. Cara Marilia,

    O “meu” Matthias, não me recordo sequer se tinha apelido, e parece-me que terá correpondido a algo diferente do que aqui relata. Correspondeu apenas a um aceno.
    Quanto aos seus filhos, fico satisfeita por ter optado por não os ter… na meninice deles, aquando das chamadas de turma, pelo nome completo, acredito que seriam momentos de puro delirio… para os colegas…
    Agradeço a sua visita, mas creio que lhe escapou completamente aquilo que quis transmitir!

    Volte sempre, até pq acredito que deve ter muitas estorietas a contar… e é sempre mais fácil fazê-lo no blog dos outros!

    Beijo.

  3. Nao tenho memoria de um caderno desses. O que realmente me agrada é que passados tantos anos é a minha evoluçao. A uns meses dos 50 sinto me melhor que nunca ;))
    xii

  4. R. Filgueira,
    🙂
    É muito bom, qd sentimos que não foi inútil o que vivemos, qd sentimos que de cada coisa, tirámos uma lição, que aprendemos e evoluímos.
    Os meus cadernos são muitos, sempre tive o hábito de escrever, mas nunca partilhava isso com ninguém. Aqui entre nós, ontem li tanta coisa ridícula, que fico feliz por nunca ter mostrado.🙂 Espero que seguindo esta evolução, daqui por mais 10 ou 15 anos, achar ridículo este post.
    Na verdade, sem aqueles momentos, sem ter sido quem fui, nunca podia ser hoje quem sou, e começo a achar que sou bem mais forte do que imagino!

    Não duvido, que a poucos meses dos 50 esteja melhor que nunca. Gostava de sentir isso, qd lá chegar. Para já, depois de ter passado os trinta, estou contente comigo.

    Beijo
    (esta resposta foi mt grande… mas enfim, apeteceu-me😉 )

  5. Marta,

    Acho que todos nós guardamos um ou outro caderno com os nossos escritos de tempos passados. Cadernos ou simplesmente folhas soltas. Folhas onde escrevíamos sobre nós, sobres os nossos sentimentos, sobre o que nos deixava felizes ou até mesmo tristes. Na minha adolescência eu tinha muito o hábito de escrever sobre a forma de poema aquilo que eu sentia. No entanto, há uns anos atrás achei que esses escritos pertenciam a uma pessoa que já não existia e fiz algo de que me arrependo imenso: rasguei e deitei tudo fora. Hoje sinto pena de já não ter comigo essa parte de mim. Resta-me um pequeno bloco onde estão algumas dedicatórias de amigos, colegas e professores que me marcaram quer no liceu quer na universidade. Algumas das frases eu lembro-me muitas vezes… Esse pequeno bloco, que foi feito por mim numa aula de trabalhos manuais quando andava no ciclo, eu guardo com muito carinho e cuidado…quase como se fosse um pequeno tesouro.

    É sempre bom reler aquilo que em tempos escrevemos. Ajuda-nos a lembrar-nos do que já fomos e do que já vivemos. Os anos trazem a experiência. A experiência traz-nos a sabedoria. É dessa forma que evoluímos. É dessa forma que crescemos e aprendemos. Mas é sempre bom olhar para trás e sorrirmos e sentirmos bem e felizes por termos sido o que fomos e sermos como somos agora.

    Ah…é tão bom recordar…

    Beijoca

  6. Carracinha Linda,

    Confesso, baixinho, para que ninguém ouça, eu tb escrevi coisas em forma de poema… estão uma lástima😀 mas gostei de rever, no fundo foi como se me recordasse de mim. Nem sempre temos tempo para nos visitar, rever caminhos. Eu não lia aqueles cadernos em particular faz tempo, li coisas que escrevi com uns 14 anos ou 15… escrevia tão mal!! Li coisas que escrevi aos 20… continuava a escrever mt mal e continuava mt distante de quem sou agora. Mas foram aqueles caminhos, aquelas vivências que me trouxeram aqui, e eu gosto do aqui… não tenho a minha vida organizada, não tenho um plano definido, não como tinha aos 20 ou 22… está tudo em aberto, mas agora começo a saber quem sou. Isso parece-me bem mais importante.

    Em nenhum momento quero desfazer-me daqueles tesouros, pq são tesouros…

    É mt bom recordar sim. O teu comentário fez-me recordar, que no ciclo, em trabalhos manuais fiz um bloco, de folhas brancas de papel cavalinho e capa rija, cosidas as folhas e colada a capa… imagino que parecido com o teu. Lembrei-me que não o vejo há mt mt tempo… tenho que o procurar qd for a casa dos meus pais. Deve estar com os cadernos que ficaram lá. Tenho vontade de o reler.

    Beijinhos.

  7. Ena…os nossos cadernos devem mesmo ser parecidos!

    E fazes muito bem em não te desfazeres dos teus tesouros. Quando me desfiz dos meus, achei que aquilo eram pedaços da minha adolescência e dos meus sonhos ingénuos e de uma pessoa que já não existia… Hoje sinto que afinal essa pessoa existia, sim. Mudou, cresceu ou evoluiu, como queriam dizer. Hoje falta-me um bocadinho de mim: o bocadinho que rasguei e deitei fora. E agora que penso melhor…acho que tenho andado a deixar para trás vários pedaços de mim. Talvez por isso ás vezes me sinta vazia e perdida, olhando para o que está á minha volta e que não faz sentido.

    Quando fores a casa dos teus pais, vai procurar o teu caderninho. E aproveita por viajares mais um pouco…

    Outra beijoca

  8. Olá Marta,

    Gostei de ler a tua Viagem interior…

    são as viages mais importantes que fazemos na nossa Vida…,
    são aquelas que nos permitem conhecer…, que permitem de ver de que somos feitos…,
    que permitem conhecer a nossa evolução como Seres Humanos, sabermos de onde viemos, e onde estamos neste momento…

    Sabes, tenho feito ultimamente algumas desas viagens…,

    e é interessante sentir…

    que cada vez exijo menos da Vida e dos Outros , e tento dar mais…;

    que ter espaço interior é muito importante…,

    que devemos deixar ir as mágoas, as coisas más que nos aconteceram…,

    que devemos eliminar as coisas que nos consomem espaço interior, invejas, ódios, etc, para criar espaço para nos acontecer mais coisas…,

    sejam elas boas ou más…;

    mtos bjs de Verão…

    W.

  9. Carracinha Linda,
    🙂 É provável que os nossos cadernos fossem mesmo idênticos, e o mesmo acontecendo com tantos outros de outras pessoas.

    Agora é a parte em que te devia dizer que essas memórias estão em ti, que esses pedacinhos de quem és não perderás nunca. E em parte é a mais pura verdade, mas o que aconteceu cmg ontem, foi que vi coisas que já não lembrava… a memória, a minha pelo menos, tem destas coisas. Não podes recuperar o que rasgaste e colocaste no lixo, mas podes tlv recuperar memórias, em cafés com aqueles amigos da adolescência. Recuperar esses velhos contactos que estão numa daquelas listas telefónicas em papel… aquelas de capa rija e as letras recortadas… aquelas que os miúdos hoje já não conhecem!

    Eu vou procurar o meu bloco!😉

    Beijocas!

    Wolfhunter,
    🙂
    É bom ver-te!
    Concordo ctg. As nossas viagens mais proveitosas, em que mais se aprende e mais se conhece, são as que fazemos em nós!
    Eu estou acima de tudo, mais tolerante, comigo e com os outros! Tb já não peço tanto da vida, peço mais é capacidade para reconhecer, agradecer e saborear o que já tenho.

    Pelo que tens escrito (que a propósito tem sido pouco e nos deixa com saudades😉 ), percebe-se que tens feito destas viagens… espero-te menos perdido e mais encontrado… ctg mesmo!

    Beijos.

  10. o tempo nunca para e o destino espera por nós!
    e unica forma de preservar a nossa evolução e/ou crescimento são as memórias!
    caiste, levantaste, escreveste, não-escreveste (na pedra ou em papel), aprendeste, não-aprendeste…e o carrocel da vida continua a girar!🙂

    olhar para trás é sempre bom para vermos a nossa caminhada!
    Recordar, recordar…o que nos marcou e o que não nos marcou!

    Sim tu hoje estás uma mulher de M…(o mesmo M para Madura, cuidado com as interpretações lol)…!
    Concerteza vais acima do nível 4 (de 0-10)…!
    Bravo. Olé!

    Foste forte, corajosa, amável …, logo o passado é teu amigo e o futuro benevolente!
    bjss dear.

  11. Fontez,
    😀
    Tou desolada… primeiro chamas-me mulher de M… que enfim, dá margem a más interpretações, embora eu saiba que não sou uma Mulher de me***, e que tu não te atreverias a dizer tal coisa…
    Depois, como se não bastasse, de 0-10, dás-me negativa… obrigadinha!!!
    Rematas a conversa com um “Bravo. Olé!”, irra homem, podias bem ter ficado caladito não?!?!😉

    Beijinhos.

  12. REsolver a fraca expressão dada por mim:

    “Sim tu hoje estás uma mulher de M…(o mesmo M para Madura, cuidado com as interpretações lol)…!”
    (Um ‘M’ grande de Marta, de MARTA)

    “Concerteza vais acima do nível 4 (de 0-10)…!”
    (Ir acima de 4 é já positivo)
    (Vais já num nível bem acima da média, acredita)

    “Bravo. Olé!”
    (Significa brio, vontade,coragem)
    (Significa aplausos pela força vivida que demonstras)

    bjss dear.
    bj.

  13. Também eu leio palavras antigas como quem ve velhos álbuns de fotografia. A cor
    amarelada, as roupas ultrapassadas, as feições modificadas. O tempo bate.nos à porta a todo o momento e esse segundo já não existe. Foi.se com o vento.

    Ainda o tempo – sempre ele – encarrega.se de modificar o que sentimos, redimensionando as nossas dores e paixões. E eis que nos deparamos com aqueles “blogs de argolas”- como lhes chamas, e não acreditamos naquilo: era mesmo eu? Era. É. Será.

    Não nos reconhecemos diante de um espelho do passado. A reacção a tudo isso varia um bocado. O espanto pode ser bom como mau. Ou ainda pode empatar: continuamos os mesmos.

    beijinhos!!

  14. Curioso. Eu, quando leio esses “blogs” antigos, sinto que estava lá, já naquela altura, tudo aquilo que eu, só agora, começo a perceber, ou seja: quem sou.

  15. Fontez,

    Esquece lá isso! Eu percebi que te expressaste mal.

    Beijinhos.

    Ana,

    Acho que todos lemos ou recordamos Ana, em qq idade, temos memórias. De ano para ano, as diferenças, por mínimas que sejam vão acontecendo… e nós, vamo-nos conhecendo! Crescendo, afirmando, evoluindo. Ou degradando apenas… infelizmente tb há desses casos…
    Concordo, que frequentemente não nos reconhecemos no passado.

    Beijinhos e as tuas melhoras!

    GK,
    🙂 espero não dizer uma grande asneira, mas acho que isso não é muito comum.

    Beijo.

    *Marta Estrelada*,

    Somos?😀 Boa, acho que isso conta a meu favor!
    Tem um excelente fds tb, com a(s) fruta(s) que quiseres! 😉
    Obrigada!

    Beijinhos!!!

  16. Ola primota.

    Tempos.. outros tempos… aqueles das correrias, dos amores assolapados.. o principe encantado… os poemas, os desabafos em forma de diário… é bom recordar. Fica o sorriso e a saudade… Mas é tão bom poder recordar… Fica o sentimento que a vida dá muitas voltas e que os problemas do presente (naquele nomento lá atras) não eram afinal os maiores problemas da nossa vida, e muito menos do mundo..

    Estou de volta… e a preparar-me para entrar de férias… E tanto que preciso, ando de rastos.
    Tenho saudades de passar por aqui.. de estar aqui.

    Beijinhosssssss grandes pa ti

  17. Cátia,

    É mt bom recordar, e perceber como dizes, que os problemas do passado se resolveram e que alguns, se revelaram bem pequenos… pq se estivermos lúcidos, perceberemos que são como os problemas do presente. No calor do momento, é mais difícil ver as coisas como são, apenas mais um degrau…

    É bom ter-te de volta, e saber que vais ter o merecido descanso!

    Beijosssssss e umas excelentes férias!

  18. Preferi nao responder ao teu comentario naquele post do “ajude”, nem fazer um primeiro comentario grande porque não é esse o proposito… Apenas vi hoje aquele link, distração a minha ou entao foi mesmo do trabalho e da correria. Mas quero dizer-te que senti orgulho quando o vi… e fico feliz por haver pessoas que precisam que passam por lá..

    Vai-se ajudando à medida que se pode… E pequenos gestos podem ter grandes efeitos.
    Beijinhos grandes

  19. viagens pela memória…
    pela memória sim…e nas inscrições 26012007 e 27012007 ri-me…um rir de alegria, rir de ter havido passado, rir por ter feito o desfio (percebeste pois), e ainda bem que o fiz!…sabia que fiz bem…!
    As memórias, memórias…preservá-las…para mais tarde rirmo-nos delas…(nem todas dão para rir pois)…!

    bjs

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