Hoje és tu… ;)

Chegou ao acaso, se há acaso, num tempo de espera, numa espera que lhe era alheia. A um terreno árido. Que tocou nas mãos e disse conhecer como era.
Foi voltando, dia após dia, de mansinho, no seu jeito suave de me tocar. Voou comigo, em fantasias sem limites. Falou-me das noites ganhas em conversas, do perfume que até hoje as suas memórias emanam.
Viajámos para aquela terra, de feiticeiras e dragões, mostrou-se forte, invencível, enfrentando qualquer espada, com um sorriso tímido e um olhar demolidor. Atravessou montanhas, cavalgou campos infinitos, rios e riachos… deixou-me um beijo.
Brincámos na chuva, libertando as feras enjauladas, permitindo que o sol entrasse em nós. Numa overdose de loucura, confessámo-nos politicamente incorrectas, e num dia de insónias, de voltas e mais voltas, entrou em mim…
Entrou de peito aberto e confirmou o que eu já sabia… cativou-me!
A partir daí foi uma crescente de sentimentos, de partilha. Muitos foram os dias em que entrou de rompante na casa velha, em corrida e se aninhou no meu colo, muitas foram as vezes que me afastei, apenas para lhe fazer aquele bolo, de chocolate. Agarrava o copo de leite com as duas mãos e levantava os olhos a medo… “Posso andar de baloiço?”… perguntava em silêncio. Quase sempre lhe disse que não, já a caminho do jardim, com uma gargalhada, e por lá, no velho baloiço de corda, sonhávamos, longe dos “horrores” que nos massacravam! Muitos foram os dias em que foi ela que me acolheu no que passou a ser o nosso baloiço… e me fez esquecer-me, num voo.

Hoje está cá, nesta nova casa, que também é muito sua…

Por tudo isto, mas principalmente por muito mais… primota, eu te confesso aqui, não te resisto, e por isso te conto aqui hoje!

Parabéns!

Anúncios

zarpar

                                                 Sabia que ias.
                                        Que zarparias antes do sol raiar.
                             Sabia que esse aceno é tudo o que é meu…!
               Sabia que te farias ao mar, um mar que posso apenas ver do porto.
                    Sim, cala-te! Eu sei, eu sei que já sabia! 
                   Sabia dessa onda, envolta em espuma, que te afasta de mim!
                         Sabia desse outro sorriso… desse outro olhar.
                                                   Mas para já…
                                                           Eu…
                                                          Fico!
                                                         Peço.
                                                         Espero.
                                                        Choro…
                                              Imploro. Humilho-me…
E um dia, quando consumido pela saudade, pela vergonha, voltares no raiar da manhã… nesse dia, apenas nesse dia, eu irei! Levantarei amarras e também eu zarparei, para lá, para longe deste mar, desta maresia, desta revolta… Nesse dia eu irei… para lá, para onde o mar secou, para onde não há marinheiros…

Super…

Ainda a gritar mentalmente, aproximei-me, pé ante pé das impostoras, mantinham-se à beira mar, molhando os pés na água morna. Protegida por uma palmeira, conseguia ouvir as suas vozes.
“Achas que ela percebeu”
“Nahhh, temos tempo… quando perceber já será tarde!”
Estremeci, talvez planeassem matar-me… Os olhos arregalaram-se-me e fiquei petrificada atrás da palmeira. Ouvia agora os seus risinhos sinistros. Gelou-se-me o sangue nas veias sob o calor abrasador. Num segundo todo aquele paraíso mudou. As aves piavam assustadas, o sol tapou o rosto com as mãos, perdendo luz, e até o mar ao se aproximar das vigaristas desmaiava de susto sobre a areia.
Respirei fundo e concentrei-me em algo que me pudesse tirar daquela situação.
“SOCORROOOOO MÃEZINHAAAAAA!!!”- gritei internamente…
Nesse momento, já elas se aproximavam da mala térmica. Lá dentro, em vez de Caprisones, estava uma faca, de talhante!
“Martinha!” – Chamavam-me com os olhos raiados de mal. Enquanto se aproximavam do meu esconderijo.
Foram precisos apenas instantes para que me deitassem por terra e se preparassem para desferir o golpe fatal!
Foi então, que dentro de mim ouvi uma voz: “Lembra-te Marta…”
E foi assim, que gritei pela primeira vez, aquilo a que estou predestinada.
“Contra o mal, os poderes estão comigoooo! Super Marta!”

Bem, resumindo, arrumei com os demónios em três tempos, esfumaram-se no ar! Agora estou aqui, debaixo deste solzinho… à espera! 😉

aliso a toalha

Aliso a toalha.
Não é que esteja enrugada, mas o tempo passa melhor quando estou distraída.
Aliso a toalha.
Os movimentos de outrora, já não moram por cá. Restam-me estes dias de repetição muda.
Aliso a toalha.
Passo aqui os meus dias, nesta cadeira, nesta mesa. Também vejo televisão… mas só de vez em quando.
Aliso a toalha.
Às vezes perco-me nos seus desenhos, nas figuras, nas cores debaixo dos meus dedos, gosto de fixar os olhos neles, até deixar de ver as rugas e voltar à minha meninice…
Aliso a toalha.
Muitos dias, conto-lhe as minhas memórias, ela ouve, fica atenta enquanto a afago, permite-me o carinho. Ela não se cansa de mim, não se enoja, não me apressa….
Aliso a toalha.
O queixo treme-me um pouco, mas os olhos já não deitam lágrimas… vivem marejados, num nevoeiro que tarda em levantar. Até lá, vou estando aqui… e…
Aliso a toalha!

menina

Há muitos anos, num reino distante, vivia uma menina. Não, não era Princesa, porque nem todas as meninas são Princesas, e nem todas sonham com Príncipes. Algumas… algumas são apenas meninas!
Mas adiante, não era especialmente bonita, não era especialmente inteligente, não era especialmente simpática… era especial! Era única! Era menina!
Viveu aventuras, travou batalhas e sonhou, sonhou muito com reinos distantes do seu. Sonhou com as aventuras que viveria nesses outros reinos, riu e chorou com o filme que foi fazendo de si própria, heroina duma peça com cenário desconhecido.
Gostava de fantasiar nos fins de tarde, enquanto corria pelos campos em perseguição aos bandidos, ou apenas enquanto se resignava perante aquele quadro de céu vermelho, pontapeando o tapete árido por baixo dos pés. E nesses momentos, muitas vezes, prometeu a si mesma que um dia iria ver o mundo…
E um dia foi… deixou a terra onde o sol é mais quente, onde os dias são maiores e foi!

Parece que já viu um bocadinho do mundo, que já viveu noutros reinos, que já não é menina… e que agora, sonha com o reino distante que em tempos foi seu!

Dizem que lhe chamam Marta e que hoje… ruma a sul!

tivesse eu tempo…

Tivesse eu tempo…
Num pulo alcançaria as estrelas
Num mergulho iria ao fundo do oceano
Num rodopio tomaria o mundo nos braços
Não…
Tivesse eu tempo,
Sentar-me-ia em silêncio,
Ao fundo do quarto
A velar-te o sono…
Tivesse eu tempo…

Na noite

A noite caíra há mais de 3 horas e o frio rigoroso do inverno fazia-se sentir em todo o seu esplendor.
Dirigia-me a casa, em passos largos, tentando evitar o frio que me trespassava a capa e alcançava os ossos, e o cheiro fétido dos becos mal frequentados pelos homens da noite. O cansaço começava a apoderar-se de mim, depois de mais um dia de luta pelos ideais, mais um dia em defesa da honra, afinal, tínhamos um lema e regiamo-nos por ele!
Estava a cerca de meio caminho, quando reparei na figura sinistra, que passara do outro lado da rua. Trazia o rosto encoberto, mas ainda assim, consegui ver-lhe o olhar, gelado…
Deixei-a passar e decidi voltar atrás, obedecendo aos instintos e seguindo-a. As vestes negras, faziam com que por vezes quase a perdesse, confundindo-se no escuro da noite, mas no fundo eu sabia quem era a vilã escondida debaixo daquela capa de capuz, reconhecera aquele olhar. Sabia onde se dirigia.
Entrou na velha estalagem, uns segundos antes de mim, atacando de forma vil e inesperada as minhas companheiras.
Aguardei junto à porta o momento certo, e foi a minha vez de a surpreender, fazendo-a provar levemente o aço da minha espada!
A noite terminou apenas horas passadas sobre o sucedido, quando a estalajadeira deu por bebido todo o vinho…