Cara pálida

Nasci e cresci livre.
Vestia-me das peles dos animais que caçava e na cabeça, por longos anos, como enfeite, usei uma pena… rubra!
Aprendi desde cedo a arte da caça e da pesca. Acompanhava o meu pai e aprendia no terreno, de arco e flecha nas mãos ou voando sobre o rio numa canoa. Lembro-me da primeira vez que cacei… era ainda uma criança, e aquela capivara foi o meu maior triunfo.
Na tribo vivíamos em paz, somos um povo pacifico. As guerras foram noutros tempos, enquanto éramos muitos, enquanto tínhamos terras por que lutar. Outros tempos!
Passávamos as noites abrigados sob as estrelas, ouvindo as histórias do Pajé, contadas com a cadência dos estalidos da fogueira. Falava-nos dos nossos antepassados. Do tempo em que tínhamos apenas o que a terra nos dava. Do tempo em que não ansiávamos por mais do que a terra nos dava. Do tempo, antes da chegada do homem branco.
Desprezei o homem branco. Aprendi que às suas mãos fomos dizimados, escravizados… invejei os que morreram em batalhas sangrentas, na luta contra a aniquilação do seu povo, da sua cultura, da sua identidade. Imaginei-me de corpo pintado, grito estridente, e pena rubra, clamando pelos deuses, assustando o inimigo. Lamentei que não tivessem razão quando nos apelidavam a nós de selvagens, mas afinal éramos nós os chacinados.
Fui Pena Rubra, um guerreiro, um sonhador, o filho mais novo do Cacique.
Fui… tudo terminou no dia em que a vi… cara pálida, bela, feiticeira… perdi-me de amores pela mulher branca e perdi-me dos meus! Sim, fui feliz com ela, amei-a e fui amado, mas vivi prisioneiro de roupas que me esfolavam o corpo, vivi em blocos de cimento… trai o meu povo, no dia em que me mascarei de homem branco e vivi como ele… com ele! A maioria dos anos, fui uma sombra de mim… e ainda assim, por aquela cara pálida, voltaria a fazê-lo!

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café escaldado

O cheiro a gordura entranhava-se-me narinas adentro, torturante, enquanto eu perguntava a mim mesma, que raio fazia sentada, naquela mesa de toalha às flores, adornada com nódoas e queimaduras de cigarros. Garanto que conseguia mesmo sentir o sabor nauseabundo daquele odor.
A Senhora, que deduzi ser a dona do estabelecimento, tal era a indumentária cuidada e o ninho de ratos que trazia na cabeça, dignou-se ao fim de muitos minutos, a aproximar-se da minha mesa. A desenvoltura com que o fez foi estonteante, tinha a graciosidade de um elefante e uma simpatia…
“Faxavori!”
Grunhiu.
“Queria um café curto em chávena escaldada e uma garrafa de água fresca, por favor.”
“Mais?”
“É só, obrigada!”
Se soubessem o quanto detesto café a escaldar… mas imaginei que a chávena escaldada seria uma forma eficaz de exterminar algumas das bactérias que certamente viviam nas chávenas. E com a água, sempre podia refrescar o café curto.
A minha mesa era a melhor do estabelecimento, não tinha duvidas. Encontrava-se junto à janela, a que tinha as cortinas aos quadrados, a combinar com as toalhas às flores. Além dos quadrados, havia um outro padrão, que demorei a identificar, mas como o café demorou 15 minutos, foi suficiente. Tratava-se de dedos, impressos na zona de abertura da cortina, que a propósito, perdera a cor, há mais de 5 anos, no mínimo, o que no contexto até nem me pareceu mau de todo!
Para lá do vidro quase fosco, deslumbravam 3 contentores de lixo, daqueles que sempre desejamos como vista nos cafés, com escorridos na lateral. O quadro só não era perfeito, porque a janela fechada, não permitia a entrada do perfume exterior, mas, dado o belíssimo ar que se respirava por ali, as diferenças deviam ser poucas.
Agonizei por mais uns minutos e introduzi o assunto… este meu trabalho, é quase uma profissão de risco!
Isto de ser vendedora de café tem muito que se lhe diga!

caça… the end (finalmente)

Quando desliguei o telefone, nem queria acreditar. Nem todos os dias nos liga alguém, que se apresenta como a prostituta que filmou o senhor político x em práticas sado-masoquistas. A história era mirabolante.
A mulher do respeitável senhor, uma verdadeira dama, contrata a fornecedora habitual de meninas do marido, para o caçar. Com a fita nas mãos, teria dele o que quisesse. Na sua posição, vale mais parecer que ter, ele venderia a alma ao diabo para não aparecer a abrir as noticias. Seria a ruína.
A dona do bordel aceita sem hesitar. Encara a proposta como uma forma de se livrar de um cliente inoportuno, a quem é perigoso dizer não, mas que muitas vezes se excede com as suas meninas, e as deixa uns dias sem poder trabalhar. Além do dinheiro, muito dinheiro, com ele iria para outro sitio e mudaria até de nome.
A prostituta, faria o serviço, seria paga, mas ficaria à sua sorte… seria dela certamente que ele se iria vingar…
Mas… ela foi esperta, ousada e esperta. Com um bom filme na lapela do casaco e umas roxas na face, sabia que não podia sair pela porta do quarto, esperavam-na, por isso, aproveitou a distracção dele na casa de banho e saltou da varanda para a do quarto de baixo, uma proeza dada a altura, e uma sorte graças à arquitectura e à janela aberta… Sorte a dela e a minha, que consegui o furo do século…
A estação deu uma boa quantia à rapariga e mandou-a para longe (não foi um pagamento, foi uma ajuda, para mudar de vida ou apenas de país). A entrevista e a reportagem só passou em horário nobre uns dias depois, quando já a sabíamos a salvo.
Foi um estouro monumental. Passaram já alguns meses e ainda aparecem relatos novos todos os dias… foi uma louca descida aos infernos para os 3! Para a Lúcia, é este o nome da minha fonte, foi o mundo ao alcance da sua mão…
Eu… bem, eu arranjei um segurança e uma promoção!

caça (explicada?)

Hoje não deixo um texto novo, apenas organizo temporalmente os que já conhecem e digo no fim de cada um, qual o personagem que o conta. Amanhã ou depois, deixo-vos o fim, isto já está longo e confuso o suficiente, provavelmente só faz sentido na minha cabeça…

Casei com o palerma há 26 anos.
Sempre foi um traste, mas tinha um bom nome, uma boa conta bancária e alguns bens. O casamento era um investimento no meu futuro. Revelou-se uma perda de tempo. Tive que fingir que lhe ignorava os hábitos, tive que fingir uma “família” feliz que nunca existiu. Não pude sequer ter filhos, porque o desgraçado nem para isso me serviu.
Perdi por causa dele os melhores anos da minha vida. Nunca me deu nada, vivi de esmolas… para ele seria indiferente dar-me o que lhe exigi… mas não… pois bem, vai sair-lhe mais caro!
Peço demissão, estou farta. Quero o divórcio e tudo o que é meu por direito, pela vida que ele me roubou! Alega que é tudo dele, bandalho. Como se o meu esforço em aturá-lo 26 anos, vinte e seis, não tivesse preço. Engana-se…
O problema dele é que nunca me conheceu… já eu, sempre soube quem ele era. Como vivia… o que frequentava.
Quando entrei, vi de imediato a senhora na casa dos 60 anos, ar simpático mas decidido… encaminhando-se na minha direcção.
Bebemos um chá, e falámos de negócios, eu sabia que ela iria aceitar. Sabia-a tão farta dele como eu!
É certo que em tempos tinha sido um bom Cliente, mas estava a transformar-se num velho violento que tantas vezes se excedia com as suas meninas, que o prejuízo começava a avolumar. Conheço cada detalhe, cada mexerico, controlei-o 26 anos… tonto!
Acertados os detalhes e negociado o valor, fechámos negócio!
Restava-me esperar… pelo sabor doce da vitória!

(a mulher do Cliente)

Não consegui desviar o olhar, nunca tinha visto uma tão pequena. Tive até medo de a agarrar. Os meus dedos pareciam demasiado grandes e que a poderiam esmagar ao primeiro toque. Mas foi-me explicado pormenorizadamente como trabalhar com ela, se fosse rigorosa na minha actuação, tudo seria perfeito.
Ao que parece era o último grito, com uma qualidade de imagem muito acima da média e uma belíssima captação de som.
Escutei com atenção e fingi-me surpreendida.
Da negociata que elas tinham feito, eu já sabia. Ouvi por acaso, enquanto estava escondida atrás da cortina. Um velho hábito, que finalmente me compensou. Enquanto as ouvia, senti pena da desgraçada a quem calhasse a sorte de ser escolhida… e por ironia, fui eu. Valeram-me os detalhes que conhecia e que me foram ocultados aquando das instruções. Ofereceram-me um cheque com bastantes zeros, mas eu sabia que era a minha vida que valeria zero depois de terminado o serviço.
Tive uma hora, uma mísera hora, entre saber que era eu a contemplada da negociata das madames, que ouvira na semana anterior, e entrar naquele quarto, com uma câmara escondida no broche da lapela do casaco.
Foi nessa hora, que decidi com quem tentaria negociar! Se queria viver, tinha que o fazer… e ainda assim, o risco era enorme!

(a “menina”)

Enquanto subíamos no elevador, mandei-a aprontar-se. Estava na hora!
Abriu o casaco comprido, desvendando aquele metro de pernas, que até a mim, me deixaram de olhos pregados nelas, soltou os cabelos longos que trazia até ali num rolo discreto, requintado até, transformando-se de imediato numa espécie de felino selvagem. Quanto à maquilhagem suave, ordenei-lhe que permanecesse, nada de excessos, queria alguma vulgaridade, mas não a queria demasiado reles, e precisava de a manter um pouco menina, bastava carregar o batom.
Enquanto ela dava os últimos retoques, e eu não desbloqueava o elevador, idealizei a expressão dele ao vê-la… ele ía gostar… tinha que gostar!
Precisava que ela lhe agradasse… que o deixasse louco no primeiro olhar, ou isso, ou seria um fracasso… e eu não tinha a menor margem para falhar!
Saímos para o hall, deserto, como sempre o conhecera. Antes de tocar à campainha, dei-lhe as últimas instruções. Naquele tom meigo, claro e inequívoco que os anos me ensinaram a colocar.
“Espero que tenhas a noção do que pode acontecer contigo se falhares!”

(a “madame”)

Trouxeram-ma pouco passava das oito da noite.
Fiquei a avaliá-la, por uns momentos. As botas altas. A saia curta. O casaco longo. Pernas compridas. Mamas grandes. Boca garrida.
Carne fresca, não a conhecia ainda, e apesar de não ser tão nova como eu gosto, senti de imediato um estranho fascínio. Devia andar pelos 23 anos, com umas curvas… um olhar provocador, desafiador, um ar rebelde. A vontade de domar aquele bicho fez-me acelerar o sangue nas veias.
Afinal de contas, um homem na minha posição precisa de se distrair. Além do mais, já não tenho 20 anos, nem tempo, nem paciência para romances e cenas de novela mexicana.
Eu quero, eu pago e tomo pra mim! Mas cumpro sempre. É verdade que gosto delas fresquinhas mas nunca aceito nenhuma com menos de 18. Tenho os meus princípios! As brincadeiras são só para descomprimir, se sou uma ou outra vez um pouco mais ousado é porque vejo que elas querem. E se elas querem…
“Fica esta ou trago outra?” – perguntaram-me.
“Serve!”

(o Cliente)

Caça (uma vez mais)

Não consegui desviar o olhar, nunca tinha visto uma tão pequena. Tive até medo de a agarrar. Os meus dedos pareciam demasiado grandes e que a poderiam esmagar ao primeiro toque. Mas foi-me explicado pormenorizadamente como trabalhar com ela, se fosse rigorosa na minha actuação, tudo seria perfeito.
Ao que parece era o último grito, com uma qualidade de imagem muito acima da média e uma belíssima captação de som.
Escutei com atenção e fingi-me surpreendida.
Da negociata que elas tinham feito, eu já sabia. Ouvi por acaso, enquanto estava escondida atrás da cortina. Um velho hábito, que finalmente me compensou. Enquanto as ouvia, senti pena da desgraçada a quem calhasse a sorte de ser escolhida… e por ironia, fui eu. Valeram-me os detalhes que conhecia e que me foram ocultados aquando das instruções. Ofereceram-me um cheque com bastantes zeros, mas eu sabia que era a minha vida que valeria zero depois de terminado o serviço.
Tive uma hora, uma mísera hora, entre saber que era eu a contemplada da negociata das madames, que ouvira na semana anterior, e entrar naquele quarto, com uma câmara escondida no broche da lapela do casaco.
Foi nessa hora, que decidi com quem tentaria negociar! Se queria viver, tinha que o fazer… e ainda assim, o risco era enorme!

 

(e ainda haverá outra…)

amizade

Interrompo a caça (que nunca apreciei), para ir à tourada, coisa que nunca entendi.

Não gosto de tourada, nunca gostei, acho uma barbaridade, mas não é para discutir isso que escrevo este post. Faço-o, porque vi hoje pela primeira vez este video e tenho que confessar que me tocou.

Para o comentar deixo apenas duas perguntas:
Quantos de nós temos amigos destes?
Quantos de nós somos amigos destes?

Em relação às perguntas, no meu caso as respostas são:
Não sei!
Gostava de dizer que sou… mas em verdade temo não ser…

Este post, é também para dizer, que me senti orgulhosa da terra que me acolheu e das suas gentes, ainda que nem sempre as entenda!

Dito isto, amanhã, voltamos à caça! 😉

Marta

Caça (e continua…)

Casei com o palerma há 26 anos.
Sempre foi um traste, mas tinha um bom nome, uma boa conta bancária e alguns bens. O casamento era um investimento no meu futuro. Revelou-se uma perda de tempo. Tive que fingir que lhe ignorava os hábitos, tive que fingir uma “família” feliz que nunca existiu. Não pude sequer ter filhos, porque o desgraçado nem para isso me serviu.
Perdi por causa dele os melhores anos da minha vida. Nunca me deu nada, vivi de esmolas… para ele seria indiferente dar-me o que lhe exigi… mas não… pois bem, vai sair-lhe mais caro!
Peço demissão, estou farta. Quero o divórcio e tudo o que é meu por direito, pela vida que ele me roubou! Alega que é tudo dele, bandalho. Como se o meu esforço em aturá-lo 26 anos, vinte e seis, não tivesse preço. Engana-se…
O problema dele é que nunca me conheceu… já eu, sempre soube quem ele era. Como vivia… o que frequentava.
Quando entrei, vi de imediato a senhora na casa dos 60 anos, ar simpático mas decidido… encaminhando-se na minha direcção.
Bebemos um chá, e falámos de negócios, eu sabia que ela iria aceitar. Sabia-a tão farta dele como eu!
É certo que em tempos tinha sido um bom Cliente, mas estava a transformar-se num velho violento que tantas vezes se excedia com as suas meninas, que o prejuízo começava a avolumar. Conheço cada detalhe, cada mexerico, controlei-o 26 anos… tonto!
Acertados os detalhes e negociado o valor, fechámos negócio!
Restava-me esperar… pelo sabor doce da vitória!

 

( e continua…)