tu não sabes…

Tu não sabes, mas eu vivo outras vidas.
De noite não durmo, espero que adormeças, visto-me a rigor e vou para o meu reino. Lá sou tirana! Julgo sem qualquer complacência. Delicio-me na morte dos meus súbditos, pinto-me com o seu sangue e desfilo triunfante entre cabeças. Gosto do ódio que declaradamente sentem por mim. Vou, porque lá, não temo desiludir-te.
Tu não sabes, mas eu fujo.
Quando me trancas no quarto, eu vou… vou pela janela, vou para o meu reino! Ofereço-me aos escravos… para que se deliciem ao tomarem-me nos braços, para que me esmaguem a carne e me deixem dormente. E depois, quando os fogos explodem em mim, ofereço-os aos leões. Fujo, porque lá não tenho que amar.
Tu não sabes, mas eu minto.
O meu sonho não é igual ao teu, minto, porque não sei como dizer-te que nem sequer sonho… não é preciso, tu fazes isso por mim, sem te preocupares em saberes quem sou. Alguma vez te perguntaste quem sou? Alguma vez me viste para lá da extensão de ti mesma? Alguma vez me quiseste, ou apenas queres esse reflexo debilitado de ti?
Minto, minto-te, para alcançar a promessa de liberdade que nunca mais cumpres. Minto a ti, que és meu carrasco sem o saberes. Minto, porque ainda te amo!
Tu não sabes… se ao menos quisesses saber…

malabarista

Bebia álcool e cuspia fogo, qual dragão endiabrado, que tanto nos deliciava nos seus truques como nos aterrorizava com os olhos cor de sangue, vistos do lado de cá das chamas.
Chamavam-lhe louco, artista, poeta. Eu não o chamava, ele simplesmente vinha, no frio da noite, depois de extinta a chama. Vinha a mim, na sede de me consumir, de me sugar… chupava o tutano e deixava-me os ossos, para que a minha capacidade de regeneração lhe produzisse mais, sempre mais. Vinha apagado e ia resplandecente, pronto a domar as feras no circo das ruas. Dava-se pelas avenidas, com a mesma ânsia com que me bebia. Entregava-se ao fogo, aos malabarismos, aos caminhantes. Seduzia. A mim nunca me seduziu. Não precisou. Eu servi-me a ele num banquete, com o requinte de um qualquer, esperando que me matasse, que a sua chama, consumisse o meu ser, porque todo eu já me via em cinza.
Das águas furtadas, com vista para o céu, descia os olhos aos infernos da rua e no centro da multidão sempre estava ele, no seu brilho, na sua loucura, na sua conquista. A mim nunca me levou à rua. Também nunca o segui.
A gargalhada fácil com que lançava o seu charme, soava-me a grito, ao longe. Para mim não havia charme, não havia gargalhada, não havia riso, não havia conversa. Esmagava-me contra a parede, dando-me a provar o sabor da tinta e tirava-me a vida a pedaços, numa insolência, numa tortura que sempre ansiei.
Hoje, ao olhar o céu vi-me, de cara lavada, no reflexo embaciado do azul, sei que fui eu o malabarista, o louco, o poeta. O fogo era ele, mas o artificio sempre fui eu… hoje, que o sei, encerro-lhe o espectáculo!

misteriosa

Pé ante pé, lá ia ela, elegante, discreta mas estonteante, misteriosa, perfeita…
Foram muitas as tardes que passei atenta, espiando os seus passos. Não havia quem não gostasse dela, era quase como se a sua musica nos enfeitiçasse, como se o seu deslizar no espaço fosse uma dança. Tantas foram as vezes que fiquei com a respiração suspensa, apenas pelo acelerar do seu passo, antevendo os perigos que sempre surgiam em cada esquina.
Eram outros tempos, tão distintos que me sinto velha, quase como se falasse outra língua. Não sei se consigo transmitir às gerações de agora o seu encanto, sei apenas que nunca a esquecerei, andando a compasso, como o meu coração.
Dia após dia, esperava o momento de a ver, ansiosamente, como se dessa minha rotina dependesse o desenrolar do mundo, como se um qualquer colapso acontecesse no universo se o ritual não se cumprisse. Não me importava que não soubesse da minha existência, da minha admiração, nunca me importou, sabia que para ela era indiferente, mas que me importava isso… gostava dela assim, tal como era, uma estrela!
Mas um dia… que apaguei da minha memória e não consigo situar, ela desapareceu… não voltou no seguinte, nem no outro, nem no outro… reapareceu timidamente uma ou outra vez, mas tudo tinha já mudado. Ela parecia igual, mas eu estava mais velha, cansada de a esperar, não senti o mesmo aperto no peito a cada passo seu. E muitos anos se passaram…
Reencontrei-a há umas semanas, linda, nova, como antes, talvez por magia, ou apenas porque lhe perdoei a ausência, todo o encanto voltou… afinal, ainda sou louca pela Pantera cor-de-rosa!

era uma vez…

Era uma vez, uma menina e um menino.

Conhecem-se desde sempre, brincaram e cresceram juntos. Tantas foram as tardes de verão, que passaram junto ao lago, que em agosto pouco mais é que uma poça. De barrigas para cima, deitados sobre o pasto seco, percorriam o mundo, de mãos dadas.
Da minha janela, via as correrias, percebia os gritos estridentes dos índios que fugiam dos cowboys, sorria com o final da história quando perdida de amores, a bela índia de cabelos em cachos cor de cenoura, fugia com o cowboy… ou quando o cowboy, pintava o rosto de lama e imitava o grito da sua amada ficando a seu lado contra os invasores. Invariavelmente ficavam juntos e eu, incrédula, velha da vida, soltava um suspiro, sentia em mim a dor que lhes adivinhava quando finalmente vissem o mundo como ele é. Desprovido de cor e de lagos, sem dias de verão, sem ameixeiras onde marcar encontros e sem pasto seco para nos deitarmos. Um mundo onde os cowboys e os índios sempre ficarão separados. Assim é o mundo, ou pelo menos, assim eu o pensava.
Ano após ano, ao longe, da minha janela, vi aquele amor florescer, na beira do lago, protegidos do sol pela ameixeira grande. Adivinhei as lágrimas nos dias de espera, em que um ou o outro não aparecia… e em todos eles imaginei o abandono, o fim. Lamentava com os meus botões, chorava uma lágrima e pensava para mim, é a vida, antes agora que mais tarde. Mas no dia seguinte, na semana seguinte lá estavam eles, roubando um beijo dos lábios do outro… e a infelicidade que eu antevira, qual mensageiro da desgraça, mais uma vez se afastava…
Vi-os ontem, tinham-me dito, mas até ontem não acreditei. É mais fácil ser infeliz!
Há muito tempo que não vão ao lago, e eu acreditava que como com muitos outros tudo se encontrava irremediavelmente perdido. Estavam casados, tinham um filho já grandote e a vida… a vida, tinha tratado de tudo.
Mas ontem, quando vi aqueles sorrisos, os mesmos olhos brilhantes, percebi finalmente, que a vida só trata de quem como eu o permite!

Era uma vez, uma menina e um menino, que acreditaram… 

reflexo

O sol que pouco tempo antes me brindava com o seu brilho desapareceu e o vento gélido que surgiu no seu lugar, fez-se acompanhar de uma chuva irritante. Perante a imagem, mantive-me estática, a chuva não era importante, o vento podia bem piorar e o céu teria que fazer uma maior careta para me assustar.
Tinha já visto muitos rostos assustadores, muitas noites escuras, muitos bichos. Tinha mergulhado tantas e tantas vezes para resgatar corpos de charcos, enfrentado os piores dos bandidos e não tremera, nem temera uma só vez. Segura de mim, de quem era, da causa porque lutava, dos ideais que me moviam. Fui sempre uma mulher de convicções, de caracter, ou pelo menos assim o julgara.
Houvera um ou outro instante em que perguntei a mim mesma se carregava comigo alguma espécie de feitiço. Fui umas tantas vezes invisível e outras tantas irresistível, inesquecível… mas sempre conclui que o que me diferenciava era a força, num mundo de fracos, era fácil sobressair, ou desaparecer.
Com os pés colados no chão, fiquei a olhar aquele rosto, tremendo por dentro, sentindo a mão que arranca e destroça tudo por onde passa. Molhada, gelada, cabelos ensopados, maquilhagem esborratada, vislumbrei a pedra para lá da beleza que tivera em tempos. Fiquei a olhar aquela mulher. Podia ver-lhe os traços rígidos, vincados no franzido da pele, podia ver a maldade, a indiferença por outro que não ela mesma. Do perfume não sentia nem rasto. Estava velha! Feia e velha. Daninha!
Não sei quanto tempo demorei a entrar no carro, sei apenas que me vi, não sei porquê, pela primeira vez, como sempre havia sido… letal!

… manito

Não consegui ainda perceber se gostas ou não deste dia, quando me calha a mim, eu não sou fã, mas ainda assim, sabe-me bem sentir o carinho de quem me é próximo. Eu não estou próxima, mas sinto-te próximo!
Para ti o meu carinho, o meu desejo de um excelente dia, de um excelente ano, de uma vida VIVIDA!
Desejo-te que arrisques, que caías e que te levantes, que chores e que rias, que sintas, que dances, que grites, que fales, que escutes, que te percas e que te encontres, e que com isso, aprendas a ser feliz.
Não sei quanto tempo estarei por aqui, posso estar mais um dia, um mês, um ano, ou uma vida, mas enquanto estiver isso quer mesmo dizer que estou!
Estas linhas são o meu mimo para ti, mas só hoje, amanhã, prometo que começo a implicar contigo outra vez! 😉
Beijo enorme!