solo

Fechei os olhos, concentrando-me no corpo submerso, quente, envolto no mar de espuma e na névoa que sentia no rosto. Os espelhos já não me reflectiam, tudo em volta se tornou difuso, ardente… aconchegante!
Pelas pernas expostas, subiam mil bolhas, acabando por colidir no meu corpo ou explodindo à tona, salpicando-me a face, num derradeiro instante de prazer. A cada estalido uma miscelânea de cheiros invadia-me os sentidos, embriagando-me.
Desfrutei do toque macio das mãos pela pele, soltei um ligeiro sussurro amarrado nos lábios e deixei-me seduzir, dei-me ao momento!
De outra divisão chegava uma melodia suave que me invadia a alma, um solo de guitarra, despido de palavras. Fiquei assim, ausente de falas inúteis e promessas vãs, com a simples entrega aos sons, ao dedilhar de cordas mágicas que me transportavam para lá deste mundo, num universo só meu!

faz de conta

Depois de muito pensar e repensar, depois de escrever e guardar, depois de remoer tantos e tantos gritos, resolveu brincar. Brincar ao faz de conta.
Fez de conta que era outra, mas não soube deixar de ser ela. Fingiu e omitiu, destorceu, mas continuou a ser ela. Usou maquilhagem, pintou-se de cores diferentes, mas sempre continuou a ser ela.
Um dia acordou e percebeu que o Inverno estava no fim e a Primavera despontava pequenas flores nos campos, tinha-se esquecido de si mesma, com a plena consciência de quem era. Tornara-se fértil, aprendera a armazenar água e a regar as plantas para que crescessem sob o sol. O pasto seco contorcendo-se ao vento, deu lugar a um campo de malmequeres…
Mas os campos de malmequeres, nem sempre são férteis em histórias… por isso transformou-se em muitas outras, em muitos outros, foi quem lhe apeteceu… mas no fundo sempre era ela. Encontrei-a hoje e confessou-me… já não lhe ocorrem muitas estórias… tem malmequeres… mas quem quer saber de malmequeres?!

Pediu-me que vos dissesse isto: obrigada!

neblina

Ando a noite inteira ao acaso. Até o nevoeiro denso me levar para a margem do rio. Quase debaixo da ponte, deixo o carro e sigo a pé, amarfanhando a erva gelada. Não sinto o frio, estou apenas congelado, mas isso nada tem que ver com a geada!
Era o teu lugar, que um dia eu fingi ser nosso. Nestas noites sempre acabo por ser conduzido até aqui. Fico a ver-te bailar no fundo dos meus olhos. Ouço-te a voz num murmúrio e sinto a nuvem de perfume.
“Dança comigo” – repetes vezes sem conta, flutuando à minha volta, mas sempre que te enlaço pela cintura, diluis-te na neblina.
Revivo a perda, a dor de não te ter. As lágrimas fogem soltas e o soluço surdo corta-me o ar. Nesse instante, em que a minha pele fica vermelha, pelo frio, pela impossibilidade de respirar… tu vens outra vez.
“Anda comigo!” – dizes enquanto sais a correr pelo campo.
Levanto-me num salto e sigo-te, não te quero perder. Abrandas o passo a cada vez que as minhas pernas cansadas falham, até que num último folgo te alcanço. Dás uma risadinha e vejo-te acenar-me. Escapas-me pelos dedos e vais. Eu fico. Fico caído na erva gelada. Na agonia de me acabarem as lágrimas…