fuga

Cartão de embarque. Leu mil vezes no pequeno rectângulo de papel que tinha nas mãos.
Sentada em frente a uma chávena de chá, tentava em vão dispersar os pensamentos, adivinhando as alegrias e as tristezas de quem chegava e bebia um café ao balcão sem tempo a perder… histórias diferentes da sua.
Engoliu um pouco do líquido fumegante, permitindo o rasto escaldante até ao estômago. Cartão de embarque. Voltou a ler. Voo DS1450, classe Y. A bagagem estava entregue… não voltaria atrás. Ela sabia que não o faria por mais que lhe doesse, mas depois de ver a mala seguir pela passadeira para lá do seu alcance, sentiu que não haveria volta a dar, iria!
Tinha o corpo dorido do cansaço. Revia as últimas semanas em pequenos filmes armazenados na memória, recuando até ao tempo em que não sabia que caminho tomar. Era tudo tão nítido. As vozes, os sorrisos… e por outro lado, a última visão da sua casa deixada apenas há duas horas estava distante. Havia fechado a porta deixando quase tudo. Trouxera apenas algumas roupas e meia dúzia de objectos pessoais. A sua vida, como sempre a conhecera ficara para trás.
Cartão de embarque. Queimava-lhe os dedos aquele pequeno papel. Cartão de embarque. Relia como se esperasse numa das leituras descobrir outras palavras.
Terminou o chá com uma calma inventada e seguiu em direcção ao posto de fronteira… desconhecendo se algum dia encontraria o caminho de volta a Lisboa.

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well…

Hoje queria descansar, como sabem tenho andado rabugenta e sem tempo… mas…
Tenho-vos dito em diversas ocasiões o quanto vos sinto importantes, o quanto dão luz aos meus dias. Falo normalmente no geral, hoje será diferente.

Chegou há outra casa faz tempo, mais de um ano. Entrou e ficou. Foi sempre voltando, com maior ou menor regularidade, mas sempre voltava. E sempre me fascinou. O seu lado sedutor, o seu charme, a sua força…
Em alguns textos, em vários mesmo, lá e cá, “usei-o” como inspiração, é um homem interessante, cheio de cores, de recantos… eu chamo-lhe pinga amor e ele diz que eu sou uma versão feminina de um amigo dele, seja lá o que for que isso queira dizer.
Ficou meu amigo.

Hoje apeteceu-me escrever para ele aqui, assim, num texto corrido, sem revisão, sem palavras cuidadas, sem inspiração, ou talvez com a maior que me é possível, a vontade de lhe dizer o quanto me faz rir, o quanto me inspira, o quanto aprecio as suas entradas intempestivas que sempre me levam a escrever mais um pouco, que me soltam a imaginação… quero apenas que saiba o quanto gosto dele!

Well Bruno… hoje estou contigo… lamento que não tenha saído nada de excitante! 😉
Para ti um beijo, o meu abraço, o meu carinho…

escolhas

Acordei com a claridade a morder-me os olhos cerrados e a pele macia. As rugas tinham ficado no sonho. Podia mexer-me sem dificuldade, estava nova outra vez.
Contornei as paredes com o olhar. Nada! Era apenas o velho apartamento de volta, a cama enorme. O barulho dos dias corridos, um atrás do outro e do outro e do outro.
Sai para a rua, saltos aguçados, pintura de guerra. Agente infiltrado na selva de betão. O sonho estava já longe. As mãos nuas, despidas de anéis e tesouros. Caminhei ao acaso, com a aflição de quem sabe onde vai. Passos firmes, castigando o asfalto. Perdi-me pelas ruas, espreitei alguns becos e segui.
No horizonte não despontava o sol, apenas estava claro. O cenário ilustre de mais um acto…
O café, engoli-o em pé, num qualquer balcão da cidade, frio e voltei para a rua.
Senti a chuva salgada, respirei fundo. Tudo era diferente do sonho, exactamente como eu havia escolhido!

a mulher da casa do rio

– Contas-me uma história aqui da casa avó?
– Não sei como adivinhaste, mas hoje tenho que te contar um velho segredo! –
Demorou apenas um segundo para começar, com ar circunspecto e apreensivo – Foi numa noite escura como breu, gelada, que tudo aconteceu… a casa estava vazia na altura, tinha mais de um século, e tudo se passou faz hoje exactamente 70 anos. Eu era ainda catraia…
– Vais contar-me uma história de terror? –
Os seus olhos abriram-se de curiosidade, ficar na casa do rio com a avó era sempre uma aventura.
– Não me interrompas, não se deve falar muito sobre isto… mas está na altura de saberes, visto que dormirás cá hoje.
A jovem emudeceu de imediato, enquanto a anciã voltava ao relato numa voz sussurrante, olhando em todas as direcções, como se as paredes pudessem ouvi-las e a qualquer momento atacá-las.
– Naquela época ainda tínhamos invernos rigorosos, recordo-me bem daquela noite, sei que fiquei acordada pelo som da chuva a bater na vidraça da janela e pelo ribombar da trovoada. Os clarões entravam livremente, mostrando um dia medonho, dentro da noite escura, cheio de sombras e sons. Eu tapei a cabeça com as mantas coçadas da cama e deixei-me entrar em pânico, achei que era o fim do mundo. Já me tinham falado do diluvio, e na minha cabeça teria que ser algo assim. Achei que era o fim do mundo… – repetiu, e após um silencio prolongado concluiu de forma dramática – e de alguma forma foi!
A pequena manteve-se calada, aproximando-se mais da chama da lareira.
– Arrepiaste não foi? –
Perguntou, para responder ela própria, antes que a neta tivesse oportunidade de abrir a boca – Eu também! Já irás perceber… – e continuou a narração, utilizando a cada palavra um tom mais inquieto.
– O grito estridente foi medonho, cortou a noite e silenciou a tempestade. Lembro-me de ficar gelada, de imediato. Fui à janela e foi então que reparei nesta casa como se fosse a primeira vez que a visse. Lá em cima, na janela do último quarto estava uma mulher coberta de sangue. A camisola que vestia, não lhe destingui a cor… tudo era vermelho… apenas o cabelo negro e os olhos faiscantes eram visíveis, além do vermelho. Nesse instante, ela virou-se na minha direcção e olhou-me nos olhos. Foi como um feitiço. – Calou-se, com o olhar distante, perdido nos anos, transtornado…
– E depois avó? Não tiveste medo?
– Se tive… mas era ainda só o começo…
Levantou-se da cadeira de baloiço, que fazia chiar compassadamente desde o inicio do conto e saiu pela porta fazendo gemer o soalho debaixo dos pés…

(continuará?)