a mulher da casa do rio

– Contas-me uma história aqui da casa avó?
– Não sei como adivinhaste, mas hoje tenho que te contar um velho segredo! –
Demorou apenas um segundo para começar, com ar circunspecto e apreensivo – Foi numa noite escura como breu, gelada, que tudo aconteceu… a casa estava vazia na altura, tinha mais de um século, e tudo se passou faz hoje exactamente 70 anos. Eu era ainda catraia…
– Vais contar-me uma história de terror? –
Os seus olhos abriram-se de curiosidade, ficar na casa do rio com a avó era sempre uma aventura.
– Não me interrompas, não se deve falar muito sobre isto… mas está na altura de saberes, visto que dormirás cá hoje.
A jovem emudeceu de imediato, enquanto a anciã voltava ao relato numa voz sussurrante, olhando em todas as direcções, como se as paredes pudessem ouvi-las e a qualquer momento atacá-las.
– Naquela época ainda tínhamos invernos rigorosos, recordo-me bem daquela noite, sei que fiquei acordada pelo som da chuva a bater na vidraça da janela e pelo ribombar da trovoada. Os clarões entravam livremente, mostrando um dia medonho, dentro da noite escura, cheio de sombras e sons. Eu tapei a cabeça com as mantas coçadas da cama e deixei-me entrar em pânico, achei que era o fim do mundo. Já me tinham falado do diluvio, e na minha cabeça teria que ser algo assim. Achei que era o fim do mundo… – repetiu, e após um silencio prolongado concluiu de forma dramática – e de alguma forma foi!
A pequena manteve-se calada, aproximando-se mais da chama da lareira.
– Arrepiaste não foi? –
Perguntou, para responder ela própria, antes que a neta tivesse oportunidade de abrir a boca – Eu também! Já irás perceber… – e continuou a narração, utilizando a cada palavra um tom mais inquieto.
– O grito estridente foi medonho, cortou a noite e silenciou a tempestade. Lembro-me de ficar gelada, de imediato. Fui à janela e foi então que reparei nesta casa como se fosse a primeira vez que a visse. Lá em cima, na janela do último quarto estava uma mulher coberta de sangue. A camisola que vestia, não lhe destingui a cor… tudo era vermelho… apenas o cabelo negro e os olhos faiscantes eram visíveis, além do vermelho. Nesse instante, ela virou-se na minha direcção e olhou-me nos olhos. Foi como um feitiço. – Calou-se, com o olhar distante, perdido nos anos, transtornado…
– E depois avó? Não tiveste medo?
– Se tive… mas era ainda só o começo…
Levantou-se da cadeira de baloiço, que fazia chiar compassadamente desde o inicio do conto e saiu pela porta fazendo gemer o soalho debaixo dos pés…

(continuará?)

43 thoughts on “a mulher da casa do rio

  1. Hoje vemos aqui um registo completmente diferente… gostei da envolvência, do tempo, do andamento do conto…

    Continua primota, ficamos a espera…
    Beijinho grande para ti

  2. Cátia,

    Pois… muito, muito diferente. E por isso mesmo agradeço que me vão dando um desconto, que isto são novos terrenos!😉 Obrigada!

    Beijinhos!

  3. Loirinha,

    Queres tu saber o resto e quero eu… ainda não me decidi!😛

    Beijinhos!

    M.,

    Temos? Adonde?😛
    Apetece-me continuar, mas sinto-me um peixe fora de água…😉

    Beijo grande!

  4. É assim e mai nada… !!

    Quanto a escritora, tambem concordo… mas queres desprezar esse teu talento… :S Espero que um dia ainda faças algo por ele…

    Beijos

  5. Tu hoje acordaste com a pica toda!😀
    Logo tu que não viesses cá concordar! Fazer o quê? com quem? quem é ele?😛

    Beijocas!

  6. Fa,
    🙂 Não quero nada, isto não assusta ninguém…😛
    E o papão não te faz mal, que eu dou-lhe umas chineladas!😀

    Boa semana!

    Beijinhos!

  7. Carracinha Linda,

    E eu tinha saudades de te ter por cá.
    Eu também espero continuar, só preciso de 2 coisas, inspiração e tempo!😉

    Beijinhos!

  8. Estou a espera de novidades por aqui… e nao venhas… ” ah e tal, a inspiraçao e o tempo…. ” naaaahhh… quero e mai nada!
    😛

  9. Sabes, tempo, inspiração e vontade são coisas que não abundam aqui por estes lados.

    E em relação a achares-me mais positiva… bom, para a frente é que é o caminho, certo? Mas ontem soube de uma coisa de uma forma tão estúpida que me fez ficar a sentir um farrapo… Detesto quando as pessoas são hipócritas comigo. Fazem o jogo do “eu sou um coitadinho, fico mal quando falo contigo” e no fim depois parece que a vida dessa pessoa está anos luz á frente da minha. Bom… não deves estar a entender nada, né? foi um desabafo meu… desculpa.

    Beijinhos

    PS – Aproveita as “Titas” para lavar o carro. Sabes, no sábado fui lavar o meu. Ficou um mimo… pelo menos por 2 dias😀

  10. Cátia,

    E tás com uma sorte danada…
    Ontem foi o meu dia mais livre, a previsão é a semana ser complicada. Hoje já o tempo tem sido menos, amanhã estarei fora, em principio todo o dia, na 5ªf, talvez tb esteja… portanto… tu queres é estar caladinha!😛

    Beijocas.

    Carracinha,

    As titas estão a lavar-me o pópó… o problema é a sujidade interior… estou a ponderar ficar com um descapotável… arranco-lhe a parte de cima e lava bancos e tudo😀 o que achas?
    Tu lavaste o teu no sábado? Não sabias da previsão de chuva? Tssss tsss tssss.

    Os desabafos, fazes sempre que queiras, tu tb és da casa. E eu realmente não percebi nada, mas não creio que seja importante, o importante é tu falares qd sentes vontade. Quando desabafamos não procuramos soluções milagrosas, apenas alguém que nos ouça… tenho 2 ouvidos!😉
    Mas… pessoas falsas e hipócritas encontrarás sempre… tenta não lhes dar mais valor do que merecem!

    Beijinhos!

  11. Tratas-me tao mal…😦 e depois é a mim que vens bater a porta a pedir bolo… tu tem cuidado menina, tu tem cuidado comigo… que se me vou a ti, fico toda negra
    😛

  12. Deixa-me explicar também para me entenderes. Precisas dizer apenas o que tens vontade e quanto a “obrigadas”, não são necessarios!😉
    Isto é uma partilha certo? Escutamos os desabafos uns dos outros, oferecemos beijos e abraços virtuais… e às vezes passamos esses virtuais a reais.😉

    Beijo Carracinha, ainda virtual!😛 Quem sabe um dia destes…

  13. Carracinha Linda,

    Estamos… o mundo é mesmo uma ervilha.
    Olha, conheces alguma casa gira e barata que esteja à venda por aqui? Estou farta de ver buracos…😦
    (não trabalhas numa imobiliária não?)😛

    Beijocas!

  14. Nop… não trabalho numa imobiliária.

    Uma casita gira e barata e em boas condições não é fácil de encontrar aqui neste sítio. Ou vais para os arredores, ou então não te safas. Experimentaste ver na zona do Bom Retiro? As casas não são propriamente novas mas também não estão a cair de velhas como se vê algumas aqui no centro. Mas vou tentar saber de alguma coisa. Se tiver notícias depois informo-te!

    E olha… hoje é 6ª feira!!!!!!!!!!!!!

    Bom fim-de-semana!

  15. Carracinha,

    Então não fazemos negócio!😛

    Percebo muito bem o que dizes, ando a ver casas quase à 6 meses… quase ou mesmo. :S
    A questão é sempre a mesma, ou está muito má, ou é muito cara… as do bom retiro conheço muito bem… muito bem mesmo… está a ver não é? E sim, está em melhor em muito melhor estado a minha que as que vi… mas a minha é pequena e eu com o meu tamanho tenho dificuldades em caber lá!😀
    Estou a ponderar uma reconstrução total no centro…

    E olha, é mesmo sexta…😀
    … a não ser que precise trabalhar no fds!😦

    Bom fds!

    Beijocas!

  16. Que remédio tenho… é importante! Não é que me apeteça…
    Vou fazer já hoje noitada, pode ser que amanhã acabe cedo!

    O conto terá continuação, espero, mas não é hoje ainda!😦

    Beijinhos e um fds em grande!

  17. Engraçado que eu pensei quando li o título: “serão os primórdios da margarida”? E por falar em Margarida, estás a dar-me um secão, estás! E a todos os outros leitores silenciosos…

  18. Lol
    Ah sim, há aqui leitores que nunca mais acabam.😀
    Mas podia ser a Margarida. Nunca me tinha ocorrido, se bem que aqui, acho que era só uma avo que queria assustar a neta… não sei.
    A Margarida era inicialmente uma assassina, que andaria em fuga e que acabaria por o matar a ele… mas depois tudo mudou… queria-a danificada, dorida, a ter pena de si própria. Depois veio o manteigas, diretamente do passado, um passado que e outra vida. Não sei como continua-la, pq não sei como ela pode sair da imensa pena que tem de si própria…

  19. Ou seja, tens receio que o manteigas não seja suficiente para a tirar da espiral descendente. Ou o medo de se entregar e acontecer outra desgraça é algo que lhe passa pela cabeça, tipo “eu só atraio desgraças!”, é isso?

  20. E se ela engravidar? Imagina…
    Ou se o vir o Manteigas com outra mulher?
    Ou se ela própria tiver um acidente em que o Manteigas vai ter que cuidar dela até ficar completamente restabelecida?

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