esperas

A chuva forte fustigando as janelas renegava o verão. Sentou-se no pequeno mocho de palha desfiada a ver a chuva, pestanejando a cada vez que a água parecia conseguir atingi-la. Não afastava a cabeça, apenas não queria ver. Aliás, fechar os olhos era algo que sabia bem como fazer. Tinha fechado os olhos a tudo. Fosse o que fosse, desde a miséria, às palavras rudes que os miúdos haviam aprendido com o pai, aos apetites dele, tudo.
Saraiva.
Se voltasse a ter 20 anos e a casar, não mais se deixaria marcar como um animal qualquer. Havia recebido o nome dele cravado no lombo, marcado no passar dos dias a ferro e fogo e nos papéis que não sabia ler.
Saraiva – repetiu. Apenas para se lembrar a quem pertencia, apenas para confirmar que deixara de ter identidade.
A ideia do odor a bagaço, das suas mãos ásperas e frias fê-la desejar que uma daquelas gotas trespassasse o vidro barato e entrasse em si, certeira… foi fechando os olhos e ficando à espera, mas como todas as esperas que tinha tido ao longo da vida, foi inútil. Quando terminou a chuva e há falta do milagre, levantou-se, ajeitou o avental e foi fazer o jantar. Foi assim toda a sua vida…

Não chorara o seu toque, nem o seu desrespeito, era a sorte que lhe cabia e achava que ninguém fugia ao destino, mas chora-lhe a morte… esperavam isso dela, que mostrasse sofrimento e assim o fez. Fechou os olhos, lembrando-se da tarde de chuva, do milagre que nunca chegou, das lágrimas que não se tinha permito derramar e chorou-o… só nunca pôde imaginar que um dia, a solidão seria de tal ordem que na última das esperas lhe sentisse a falta!

45 thoughts on “esperas

  1. olááá
    possa à tanto tmpo k n komntava nada
    mas n penses k n paxava por ka…paxei smp p ler os teus textos k sbs k adoro, mas outras koisitas tiveram prioridade i era-me impoxivel komntr….

    é engraçado e estranho, percebo os teus textos mas dp…perceber percebo-o mas tntr flr deles numa maneira de ‘explikar’ naio konsigo sei la :S parece k as palavras fogem para nao explikar o k acabei d ler….
    nem sei bem o k dzr deste…komo tds os outros: lindo =)

    por vezes nem sempre o tal milagre k anciamos akontece….(alguns diferentes desse claro)

    beijinhosss

  2. O mais estranho de tudo isto é apenas aceitar o destino: Viver de tal forma subjugada a outro, dia após dia, com marcas no corpo e na alma. E no final, ainda sentir falta, saudade de um dia que era mau. Como é que é possivel que ainda em pleno sec.XXI existam mulheres no nosso país (para nao falar em outros paises menos desenvolvidos) com esta mentalidade de pertença?!

    O pior é que, a morte é a única saida, mas é também a desgraça, porque estas mulheres deixam de ter alguém que lhes mostre o caminho, alguém a quem tenham que “apaparicar” e mimar…

    É triste quando a vida rodar totalmente em volta de Saraivas…

    Gostei muito primota, parabens. Uma nova perspectiva de vidas…

    Beijo e aquele abraço.

  3. Loirinha,

    O meu tempo também não tem sido muito, nem para escrever nem para visitar.
    Obrigada.

    Beijinhos!

    Cátia,

    … Como sempre, excelente o teu comentário.
    Creio que sentimos saudades apenas do que conhecemos. Do que nos foi real.
    A vida dela ela foi de submissão, mas no fundo ela precisava disso, só sabia viver dessa forma.
    Viveu noutros tempos, diria que se casou a meio do séc. XX, na casa dos 20 anos, não sabia ler nem escrever… Terá sido submissa ao pai e depois ao marido… não conhece outra forma de estar. Não faz ideia de quais são os seus direitos, simplesmente resigna-se à sua sorte. Isso aprendeu com a mãe, que também se deixava subjugar pelo pai…

    Ela sempre fazia o que era esperado dela. Fosse esse esperado o jantar, o ficar calada, o chorar a morte dele… sempre.
    Sabes, acho que ele não lhe batia. Ele era dono dela, cuidava da sua propriedade. Ela, casou sem amor, um casamento arranjado. Num tempo em que uma mulher não podia ter qualquer tipo de prazer com um homem. Portanto… todo o contacto físico foi sempre um tormento, uma obrigação… mas talvez fosse apenas porque era assim. Ele era rude… mas não sei se era violento, creio que não. A violência sobre ela, vem do facto de nunca ter tido identidade, de nunca lhe ser permitido ser gente, de nunca lhe terem ensinado a ser livre…

    Um pássaro, depois de demasiado tempo numa gaiola, desaprende a voar…

    Bem… já nem sei como comecei isto… falei para aqui que não me calava…
    Bom dia criatura pikena!😉 😛
    Obrigada!

    Beijinho grande e… é sexta!!!!😉

  4. Sim, sem duvida que saiu da casa do pai para a casa do marido, sem sequer colocar em duvida o que diziam ou faziam. Era a criada lá em casa, com privilégios de poder (ainda) ter alguma liberdade. Lavava-lhe a roupa, fazia-lhe o jantar e satisfazia tudo como ele gostava. O amor nunca existiu e se tiveram filhos, foi porque assim aconteceu. O sexo certaemente que fazia parte do pacote, daquele de ter que satisfazer as necessidades dele.

    Se lhe batia? A maior parte dos dias não… Mas noutros tempos, quando ela era mais nova e poderia ter alguns laivos pensamento (“até teve o descaramento de tentar opinar”), nada como uma boa bufetada para perceber quem é o homem lá em casa…

    E assim foi por mais de 40 anos. Agora com a morte dela, o que irá fazer? Quem seguir? Quem agradar? Nem ela propria saberá dos seus gostos, dos seus quereres, do que fazer sem ser aquela rotina. Depois da morte, acredito que continuará a seguir uma rotina, aquela que foi sua durante toda a vida. Almoçará e jantará os pratos que ele gostava, às horas que ele decidia. Lavará a roupa, limpará a casa e fará a cama como se ele ainda existisse, como que para agradar o seu espírito ou apenas porque nao sabe ser diferente.

    Essas pessoas que sempre foram de outros, continuarão a se-lo ou perder-se-ao pelas ruas da vida .

    Bom dia primota!! Sexta sim😀 , mas com o chefe cá…😦

    Beijinho grande!!

  5. 🙂 isso mesmo.

    Depois da morte dele a mesma rotina. O mesmo agradar a quem já não está… um servir a quem já não necessita de ser servido. E dai, nem sequer um olhar frio receber em troca, nenhuma palavra, ainda que em tom de critica, nenhum som… nem sequer o odor a bagaço que sempre ficava entranhado no quarto. Nada. E o vazio foi pior. Deixo-a desnorteada e velha para aprender a viver por sim. Esteve amputada de identidade, de vontade toda a vida, era demasiado tarde para aprender…

    Quanto ao sexo… a mãe ensinou-a, que os homens eram homens e tinham determinadas necessidades. Ela deveria colaborar, e essa colaboração era simples. Bastava que fechasse os olhos e o deixasse fazer o que queria, mas atenção, era uma mulher séria. Não deveria permitir qualquer coisa. Mas certamente ele sabia-o e não faria com a mãe dos filhos o que se fazia com uma mulher de rua.
    Ela devia ficar em silêncio, satisfazê-lo, sem qualquer lamento ou queixume, era a sua obrigação como mulher…
    😉

  6. …que cena mais doentia da minh parte…imaginava tds as historias de familias contidas em frascos transparentes e com um liquido que ao ser abanado do exterior daria um movimento e real accao a historia de vida de cada individuo da mesma..zas…flashback…e sei que as vidas que se cruzam a cada instante de nos…sao vividas en personna por largos periodos e que apenas somos um periodo inferior a um segundo no relato de alguem….beijo marta…

  7. Bruno,

    Esses frascos são muitas vezes televisões e o liquido que se agita é o ligar do botão. Outros frascos são blogues, mas neste caso o vidro é fosco. outros…

    Mas o que nos chocaria, acredito eu, seria observar as vidas dos que nos são próximos, ou mesmo a nossa, vista de fora, com a distancia necessária para sermos imparciais.

    Nós somos nada e tudo…

    Beijo enorme! (Tão bom ter-te de volta!)

  8. e e bom estar de volta…e e bom sentir a agua fria…e e bom sentir a ponta dos dedos nas teclas…e e bom comer morangos…ok…estou bem disposto!!!e isso tb e muito bom…

  9. Isso é mesmo o que pode fazer toda a diferença. Quando não estamos bem dispostos os morangos são sempre demasiado doces ou demasiado amargos, demasiado moles ou demasiado rijos…

    Sente uma beijoca na bochecha!😉

  10. hum… que conversas por aqui andam…
    A bochecha está meio escondida? é preciso ter alguma imaginaçao para conseguir visualizar…

    Beijo na bochecha escondida tb, e na bochecha da prima😛

  11. Venho só deixar um recado ao Sr. Bruno…

    Obrigada por me teres deixado no msn a falar para o boneco.
    Obrigada.
    Afinal de contas parece que a tua net não caio.

  12. Dear Marta, por desgraça a esmagadora maioria…
    Ontem li, num blog: ” aqui no ***** gosto de ser o boneco da ***** criado por mim. mas até esse tem um lado e um propósito muito sério…”
    e conclui : que engraçado, sou muita coisa: mae, mulher,companheira, sogra, amiga… mas sou sempre eu – com ideas proprias – nos blogs pessoalmente – nem mais nem menos –
    ps.- bons olhos o vejam, Bruno😉 é um prazer… (creia-me)

  13. Ora bem, apertar primeiro a bochecha… tipo bola?
    parece-me que estás com falta de ar, eu fazia uma sugestão se me é permitido, e é porque eu sou o “Saraiva” cá do sitio!😀
    A Ana, que está ali a rebentar de tanto ar, sopra até te aparecer a bochecha e eu aproveito para roubar a beijoca… já a Cátia, dá-me a mim, que a minha está no sitio!😛

    Desculpem meninos, está a dar-me para a asneira!😀

    Beijinhos aos três!

  14. R. Filgueira,

    Infelizmente acho que sim. As pessoas querem tanto agradar que perdem muitas vezes a oportunidade de serem apreciadas por aquilo que são e pior ainda perdem-se sem saberem quem são!
    Muitos, não porque são obrigados a isso, mas porque não sabem estar sozinhos, andar pelo seu pé e pensar pela sua própria cabeça.

  15. Aliás, vou mais longe. Apesar de não ter filhos, tenho olhos na cara e até sou uma boa observadora.
    Vejo muitos pais a mimarem e colocarem os filhos em redomas e a ensinarem-nos a serem inúteis.

  16. Bruno,

    Sempre atenta não estou… mas de vez em quando calha.😉

    Aproveita e dá tb ao meu canário!😀

    Beijo.

    Primota,

    O João é canário, não é é careca! 😛

    Beijocas.

  17. mas que cena….olha eu tambem sou careca por agora e fica-me bem….ho marta deixa la o rapaz ser o que e…e tu catia deixa de ser maltrapilha…sempre a gozar com o canario!!

  18. O sentimento de posse… Nunca percebi, nem faço inteções de o fazer, de entender a posse que os homens julgam ter sobre as mulheres. E também me é difícil entender as mulheres que se deixam sujeitar durante anos a maus tratos… Enfim, um drama que parece crescer cada vez mais, ou pelo menos cada vez é mais falado…

    A minha semana também foi complicada, muito que fazer e uma gripe para animar a festa…

    Beijo grande e bom fim-de-semana!

  19. Maltrapilha?! eu?!! sniff sniff… não tenho dinheiro, nao posso comprar roupa… ninguem me oferece anda… sniff sniff..

    O canário É careca, mas até tem o seu encanto.. agora tu… ja nao sei😛

  20. Bruno,

    É careca mas lindo… as penas da cabeça nem lhe ficavam mt bem… melhorou com a idade…😛

    Qt a ti, deves estar óptimo!😉

    E a Cátia é má!😀

    jinhos

    Carracinha Linda,

    A submissão como descreve o texto creio que está em decadência, mas há outros tipos, iguais ou piores que parecem mesmo estar em crescendo… enfim, tb não entendo.
    Mas tb há homens submissos… tb há mulheres controladoras… enfim…😉

    As melhoras dessa gripe e um bom fds!

    Beijo grande!

  21. well…e diz la uma cena catia…onde arranjas tu esses cartoezinhos?e que eu preciso de me esticar por aqui…e que ha uns quantos que andam aqui sempre a tentar meter-me na ordem e ja poem cara de maus…o que vale e que ate a gajos de turbante ja apertei a mao senao ate me assustava…
    marta da-lhe credito sim…ela ate tem jeitinho!!!hehehe

  22. Andam a tentar meter-te na ordem?! pois é meu menino, portaste mal, andas para aí a pregar sustos a toda a gente e tens que andar debaixo de olho… eheh. Gajos de turbante?! e encontraste o tio Bin por lá? Sabes, que só se apanha moscas com mel, por isso da-lhes uma palmadinha nas costas e um sorrisinho que eles dão-te um desconto… nao quer dizer que te deem credito.. .porque isso nao é para todos.😛

    sabes, com a marta eu tenho mt crédito sim, ela nao admite, mas ate gosta mt de mim, ja nem vive sem mim😛

  23. sabes que ja está na hora da marta sair do trabalho.. .quando a resposta vier, ja terá passado demasiado tempo😛 Mas de qualquer forma ja estou escondida debaixo da secretária… ehehe

  24. Pois é… entretanto a marta chega a casa e dá com isto… dois com a mania que são de elástico!😛

    Bruno, tens que me mimar para eu te dar crédito, é assim que funciona!😛

    Cátia, ainda tens um cadito, porque eu gostei mesmo muito!😀

    beijocas!

  25. Por vezes são vidas estranhas aos olhos de outros, mas a verdade é que como em tudo… o que se torna um hábito no dia a dia, no final ja nem faz grande diferença… (mas faz sim visto alem dos olhos.. tomando apenas parte no coração).

    Gostei muito do teu texto… fez-me pensar um pouco e custa realmente pensar que existiram e continuam a existir milhares por ai…

    É por isso que dou tanto valor á cumplicidade entre duas pessoas.. quando existe muitos dos muros são derrubados e passa a haver o maior dos respeitos!

    Um beijo grande

  26. Catarina,

    Existem milhares que se conformam com a “sorte” e outros tantos que não sabem nem querem viver de outra forma.
    Preocupam-me mais os que não o escolheram.

    A cumplicidade também me parece essencial, mas acima de tudo o respeito. Que uma vez perdido julgo que não se volta a conquistar. Pode-se errar… mas desrespeitar… é um caminho sem volta!
    🙂 Obrigada!

    Beijinhos!

  27. Olá Marta!
    Nunca estive aqui antes e achei estas paginas por acso quando procurava algo sobre contos e principes… amei todos os seus posts…
    me identifiquei com todos… mas principalmente com este…
    estou assim no momento, fazendo pelos outros e não por mim…vendendo minha felicidade pela felicidade alheia…as vezes tenho esperanças de que o carinho e respeito irão virar amor, é nisso que acredito… é nisso que me agarro!
    abraços…

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