um pedaço de céu

A harmonia que me rodeava era o calmante que tinha pedido à vida nos últimos dias. O campo verde coberto de pequenas flores relembrava-me que era Primavera. Alguns pássaros cantavam as suas belíssimas cantigas repenicadas, embalados pelas pernadas de uma grande árvore de copa redonda, enquanto por baixo deles, dois esquilos brincavam com as sombras projectadas no chão ao ritmo da brisa. Pouco adiante um curso de água sinuoso e cristalino encaminhava-se para uma pequena represa, que o abraçava e perdia em seguida numa minúscula cascata. Havia ainda, ao fundo, como se de um postal se tratasse, um cavalo solitário e reluzente que pastava sob o sol do meio dia.
Senti-me invadida e conquistada por uma paz reparadora. Leve. Profundamente leve. Quando dei por mim, rebolava pelo tapete colorido que cobria o solo, como aquela gota inesperada rolava, ligeira, pelo meu rosto. Absorvida pela imagem daquele pedaço de paraíso ignorei a gota, tal como as que se lhe seguiram. Primeiro eram espaçadas, fáceis de ser ignoradas, depois, tornaram-se mais frequentes e tornou-se imperioso encontrar um abrigo. Era o que fazia, perscrutando o espaço com um olhar atento, quando um grito entrou pelos meus ouvidos, tornando o cenário negro e estancando a chuva.
“JOÃO! Pára de molhar a tua avó!”

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a chafarica fez 1 ano

1 ano, 5 dias, 38102 clicks, 100 posts (com este 101), 4671 comments, muita conversa, bastantes asneiras, gargalhadas sonoras, risinhos sacanas, algumas lágrimas e muitas emoções depois, cá estou eu só para vos dizer obrigada. Foi um prazer partilhar este ano convosco.
Por aqui tenho sido tudo e nada. Vesti cada pele que contei, fui ingénua e sacana, vitima e vilão e em todas deixei um pouco de mim, do que tenho, do que dou, do que sou, do que temo, sempre à mi manera.

teatro

Chegou pontual como sempre fazia, com um sorriso a bailar-lhe no rosto.
Pedimos um café e seguimos o guião que tínhamos já entranhado na pele, sem pressas nem atropelos. Muitas vezes pensei que era por aquele momento de amena rotina que voltava.
Entregámo-nos ao prazer da brisa suave que tornava possível respirar na noite quente, entre um e outro galanteio e depois, cumprindo mais uma etapa, subimos lentamente a rua de calçada, saboreando de antemão a noite que estava longe de ter chegado ao fim. Como as outras que a antecederam, deliciosamente longas, iguais mas únicas.
A madrugada veio com o cansaço, com explosões amarradas nos lábios entreabertos e o suor dos corpos expostos.
Esperei que adormecesse e esquivei-me aos seus braços observando-o de longe enquanto me vestia. Tinha decidido depois de perceber em mim todos os alarmes. Não sei como foi, mas perdi-me no meu jogo de regras claras e amei-o. Era tempo de partir. Não esperava aplausos e fugia aos apupos, desertando em plena peça.

Hoje, guardo além da memória da sua passagem em mim, o sabor amargo da cobardia e a solidão… sei agora que coleccionei mágoas numa busca desesperada por me manter infeliz… tive sucesso!

giz

Era apenas uma miúda.
Escondia-se dos perigos, fintando a vida. Corria descalça, nua, carregando o que sempre tivera, o medo do colorido das ruas, dos risos dos outros que a feriam de morte. Atrás de si… nada. Apenas a rua deserta que dava para o beco, a esquina contornada em voo e a lua, num quarto minguante que parecia não ter fim.
Quando finalmente parava, de peito ofegante, deitava-se no chão, enrolando os pés e como um bicho acuado ficava ali. Esperava. Contorcia o corpo. Apagava memórias. Esperava a madrugada que chegaria certa, numa pintura de guerra, uma linha traçada a giz.
Era apenas uma miúda de olhos brilhantes, cheios de espaço, o espaço vazio deixado por tudo ter saltado borda fora. Era apenas ela e a sua amiga, numa dança de traços e rabiscos. Ferida.
Era apenas uma miúda… apenas mais uma… velha, perdida de si!