Ti Chico da Horta

Saía de casa por vezes ainda antes do sol nascer. Eram três quilómetros que palmilhava na ida e outros tantos na vinda. Andava em passo sereno, já não era novo e as pressas eram para os novos. Havia dias em que percorria o caminho na sua pasteleira, mas eram poucos, gostava de andar. Se soubesse o que quer dizer terapia ter-lhe-ia chamado isso, assim, dizia que era o seu tempo de pensar na vida. Era certo que muitos dias lutava com a chuva, com o vento, com o frio que lhe gretava os lábios, mas não era menos verdade que era nesses elementos que se sentia em casa. Começara na lavoura aos sete anos, não conhecia outra vida e aqueles quilómetros eram o seu tesouro.
Invariavelmente levava a marmita na mão esquerda e um assobio nos lábios. Velhas cantigas que ouvira quando jovem, da boca de uma bela mulher de olhos cor de mel.
Lembro-me de sempre o ter visto durante os Verões que passava na herdade, lembro-me que sempre o vi velho.
Para evitar o sermão que chegava pela boca de qualquer um lá em casa, quando me viam atrás do Ti Chico da horta, eu passei a fazer parte do caminho de volta a casa com ele. Acompanhava-o até meio na minha bicicleta e depois voltava para trás por outro atalho. Foi assim desde os meus dez anos. Quando comecei a ter os meus namoricos, passou a ser meu confidente, o meu amigo secreto. Depois de adulta acompanhava-o a pé, por vezes dando-lhe o braço, mas permanecia uma amizade secreta sem que eu soubesse bem porquê.
A sua companheira, conhecera-a numa apanha da azeitona.
“Era moça rija!” – Dizia-me com os olhos brilhantes de admiração.
O casamento sucedeu o curto namoro e logo depois veio a gravidez.
“Eram outros tempos, não havia cá doutores… como o pai da menina.” – Contava com mágoa e resignação, enquanto recordava olhando o vazio da planície os últimos momentos da mulher desgastada pelo esforço do parto.
“Se fosse outra não tinha conseguido parir o rapaz… mas ela era rija… ainda o teve nos braços e tudo…” – Acrescentava com os olhos marejados de lágrimas.
“E nunca pensou em casar outra vez?”
“ Não menina… eu lá ia encontrar outra como ela!” – suspirou em resposta no único dia que lho perguntei.
Do filho não falava, apenas um dia me confidenciou que o entregara para servir na casa de uns senhores, tinha ele acabado a escola primária. Queria que o rapaz estudasse e fosse alguém e eles não eram má gente e não tinham filhos…
“Foi o melhor!” – Afirmou com convicção.
“Não o voltou a ver?”
“Já chega de falar de mim menina, conte-me lá desse moço que eu ando ralado consigo.” – E com isto ele deu o assunto por encerrado e eu não insisti.

Não fosse a velha Balbina há dois anos atrás, mexeriqueira e a ficar senil como só ela, a quem a propósito estou muito grata, e eu nunca saberia quem é realmente o velho Chico da horta e nunca escreveria este conto.
Li-lho na minha casa, onde vive praticamente desde aquele dia, comigo e com o bisneto.

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15 thoughts on “Ti Chico da Horta

  1. Há sempre pessoas que entram na nossa vida e nos marcam, pela presença e pela ausência, pelo que é dito e pelo que é omitido. Gosto de a ler.

  2. Ok primota, vejo que a falta de pratica nao te tirou o talento…. O primeiro volume autografado pode ser para mim? 😛

    As voltas que a vida dá… Às vezes achamos que nos desencontramos, e afinal estao por ali a olhar por nós… E o pai do bisneto onde anda?! Quero ver-te a escrever mais… faz um esforço, sim?

    Beijinhos grande e um abraço apertado

  3. tás uma desaparecida do caraças 😀
    bem bem…
    q estejas fine…

    relativamente ao texto…tens de falar melhor desse “Chico da horta”, pois senti algo…nas tuas palavras…ou nao foram “sentimentos parolos” a falar…!

    bj grande manita.

  4. Cris,

    E eu gosto de a receber!
    É verdade, há sempre pessoas que nos marcam e eu acredito que é sempre por um motivo, ainda que não saibamos qual…

    Beijo.

    Cátia,

    A primeira cópia, sem dúvida.
    Um dia destes imprimo o blog, tiro-te uma cópia e escrevo umas baboseiras como autógrafo… hummm… nahhh ia gastar uma pipa de massa em tinteiro e folhas… 😛
    Obrigada. Com o obvio exagero de prima, mas faz bem ao ego! 😉
    O pai do bisneto… é um traste! Não queiras saber dele! 😀

    Beijinho grande e aquele abraço!

    Fontez,

    Ora bem… o Ti Chico da Horta… é um velho franzino, curvado pelos anos e encarquilhado pelo sol. Alguém que podia ter escolhido ser amargo e preferiu manter-se doce, pela memória, pela coragem, pelo caminho que era o seu tesouro, porque o levava a ver o filho que se envergonhava dele, mas principalmente pela neta que mesmo não sabendo quem ele era o amava, o respeitava… que queres tu saber mais? É um personagem como tantos outros, mas é talvez dos que eu mais respeitei. A estória é Alentejana, acabadinha de inventar, embora eu acredite que possa ter semelhanças com algumas realidades.
    A única semelhança com minha realidade é o nome que lhe dei. O meu avô chamava-se Francisco. Sem horta! 😉

    Beijinhos!

  5. Muito bem… depois de uma pequena ausência assiste-se a um regresso em grande!!!!!! As voltas que a vida dá, não é? Deu o filho, encontrou a neta e vive com ela e com o bisneto. Pode ser um conto… mas tenho a certeza que lá pelos confins do Alentejo existem ou existiram casos como este.

    Espero que os problemas técnicos já estejam resolvidos!

    Beijocas e bom fim-de-semana!

  6. Lindo conto, amiga!
    … mas agora fiquei confusa. De onde caiu o bisneto? Espera… tenho que ler melhor.
    ……
    Isto é mesmo para fazer pensar… Então, o pai da menina era doutor. Seria ele o filho do velhote? Só pode. Para ser o bisneto filho da menina…
    Olha, já não digo coisa c coisa!

    Beijokas e bom fim de semana

  7. Carracinha Linda,

    A vida tem o seu quê de ironia, mas também de justiça.
    Acho que ele não desistiu do filho, pelo contrário, fez o que era dificil, mas ficou perto. Não o queria dar, queria que tivesse uma oportunidade, queria que fosse estudar, mas continuaria sempre seu filho. Creio que foi o filho que se envergonhou do pai… a neta, foi a justiça!
    Acho que há histórias com o contorno deste conto sim… algumas, talvez sem o romantismo que tentei dar-lhe, outras… sabe-se lá… 😉

    Os problemas técnicos ainda não estão resolvidos, tal como eu também estou resolvida a ficar ainda por aqui! 😉

    Bom fds!
    Beijocas!

    Fa,

    Alguns textos aparecem do nada, este foi um deles. Não fazia a menor ideia do que era quando comecei. Gosto quando é assim, quando parto do zero absoluto e a meio tudo fica claro na minha cabeça e consigo sentir… senti este Chico da horta, vi o seu corpo curvado, o brilho no olhar ao ver a “menina”, que sim era a neta, consegui sentir-lhe a dor da rejeição de um filho que tornado doutor se esqueceu de onde veio, senti-lhe o amor pela mulher um dos que é para a vida… ainda que esses amores sejam de contos, ou talvez não…
    E tu percebeste lindamente. O pai da “menina” era o filho, a “menina” era a neta e o bisneto foi uma forma de dizer o obvio sem usar a palavra… Claro que dizes coisa com coisa. 🙂

    Bom fds!

    Beijinhos!

  8. e ela renasce em

    Contos do Alentejo I

    To be continued

    Contos do Alentejo II

    cá te espero, futura escritora

    beijo que as saudades apertam

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