capricho?

Acho que o pensava já como uma causa perdida, a vida insistiu em dizer-me que determinadas coisas simplesmente não eram para mim. Ganhei-lhe muitos braços de ferro mas este…
A enorme excitação é apenas superada pelo nervosismo, afinal, já não sou uma menina. Na antecipação do momento olho para a minha mão esquerda, nua, marcada de antemão pela linha ténue descolorada na pele.
Para quê? – perguntaram-me em tempos.
Porque não? – respondi.
Sei que muitos julgam tratar-se de um capricho. Não entendo. Porque haveria de ser para mim um capricho o que para eles julgam natural? Que raio pensam? De que matéria me julgam feita?!
Não é um capricho, nunca o foi, é simplesmente poder-me afirmar como indivíduo. É poder escolher o meu caminho e poder celebrá-lo. É ser livre. É além de ser, permitirem-me ser gente. Gente como toda a gente!
E quando finalmente ouço de ti, em público, sem medo nem culpa e muito menos vergonha o “sim”, que encheu de musica, ainda que em privado, os meus últimos vinte anos, há uma qualquer explosão interna que não tentarei, nem saberia explicar…
Capricho? Não! Direito!

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Lamento… lamento tanto… principalmente porque sinto que deixou demasiado por fazer. Por viver.

Deixo-lhe uma flor para esta nova viagem… deixo-lhe um beijo já com saudades!

Paulo Marco

Começámos pelo café. Pedimo-lo com a risada de quem gosta de virar tudo pelo avesso. O dia foi longo. Deliciosamente longo. E o cansaço depois de horas de caminhada era evidente nos nossos olhos semicerrados.
Os últimos dias, talvez meses, ou até anos, são dificilmente bons. Mas que me importa?! Enfrentando as tempestades ou aproveitando os ventos chegámos ali, àquela mesa. Uma mesa certamente comum e absolutamente inesquecível.
A sapateira tinha ketchup, as amêijoas esfriaram, o mexilhão vinha sem “casca” e, eu continuo sem gostar de ostras, mas ainda assim, demorámos mais de duas horas naquilo que me pareceu um manjar dos deuses. Não sei ao certo do que falámos, não sei se pelo vinho, se pela delicia da vida ser assim, fantasticamente imprevista e nos deixar leves, livres, soltos das cargas pesadas dos dias corridos, sei apenas que rimos, que nos seduzimos. Sei que por momentos foi apenas eu e tu, tudo e nada.
“Um licor beirão e um porto, por favor.”
Mais risos.
E agora, depois de ter ido à casa de banho dos homens, depois de ter percebido que a porta era de vidro fosco, depois do concerto, depois da areia, do rebentar das ondas numa linha branca sob a lua, depois do fogo e de algum artificio. Agora, que me preparo para dormir, sei que foram precisos trinta e dois anos para descobrir que sou fã de Marco Paulo!!!

fugi…

Não fiz a mala, não guardei objectos pessoais. Nada do que tinha era verdadeiramente meu. Nem os copos na cozinha, nem os livros na estante da sala, nem as roupas de marca no guarda roupa… nada. Tudo isso era dessa outra, da cobarde que habitou no meu corpo por 6 longos anos. Não sei quem odeio mais, se a ele, se a ela.
Senti-lhe o corpo pesado, a cada dia lhe sentia o corpo mais pesado, aparei-lhe o suor e sufoquei o meu vómito. Nojento! Pensar que um dia amei aquele porco…
Quando finalmente parou, poucos mas penosos minutos depois, escapuli-me até à casa de banho. Olhei o espelho, nem uma lágrima. Odeio-a até por isso, secou-me.
O rosto reflectido sem maquilhagem, não me parecia o meu. Não era o meu. Nem o de antigamente nem o do dia anterior. Era mais amarelado, tinha uns olhos grandes, saídos para fora do rosto… assustadores. Nunca os tinha visto. A que estava no espelho não a conhecia… não…
Quando voltámos ao quarto ele roncava. A nova, chegou-se a ele, tive medo. Tive medo dela. Não sei onde ela a tinha ido buscar, mas vi que tinha uma faca… vi-a no reflexo da lâmina comprida. Escondi-me, tinha tanto medo. A outra, não fez nada, ela nunca faz nada. E a nova… não sei. Não vi nada. Eu escondi-me!

Depois… fomos as 3 embora, mas elas ficaram na estação de serviço, com as roupas sujas. Eu… eu fugi…

 

Este texto, vem na sequência deste do Ticho, e deste antigo. É uma espécie de desfecho. Um que muitas vezes é dos poucos que se apresentam às vitimas… matar ou morrer. A maioria morre!

quietude

O vento à minha volta gira sem parar. Subo a este monte desde criança e sempre aqui conheci este alvoroço, sempre o busquei. Venho para cá sozinha, certa de que tudo arrumadinho como está é demasiado monótono.
Sento-me na pedra polida pelos anos, fecho os olhos e respiro fundo. Conheço cada detalhe imutável da paisagem, cada tronco de braços abertos em suplica aos deuses, cada monte em volta que torna o meu pequenino e tão especial. Este é o único lugar que sei capaz de fintar o tempo, o progresso. Aqui tudo é igual e aqui, apenas aqui, eu gosto disso. Aqui sinto-me em casa.
Subo ao alto de mim e escancaro as janelas. Preciso deste vendaval, desta agitação repentina que troca tudo de lugar. Preciso desarrumar a tralha ordenada e enfadonha que me trava as ideias perdidas nos cantos recônditos de mim, preciso reinventar-me.
Fico assim por tempo indeterminado, sugando o perfume da terra de onde tudo se vê, com vista para lugar nenhum. Permaneço quieta, em paz, no centro do rebuliço.
Quando regressar, sei que estarei liberta dos pequenos nadas que me travam os dias, mas para já quero desfrutar um pouco mais desta quietude envolta na ventania.