quietude

O vento à minha volta gira sem parar. Subo a este monte desde criança e sempre aqui conheci este alvoroço, sempre o busquei. Venho para cá sozinha, certa de que tudo arrumadinho como está é demasiado monótono.
Sento-me na pedra polida pelos anos, fecho os olhos e respiro fundo. Conheço cada detalhe imutável da paisagem, cada tronco de braços abertos em suplica aos deuses, cada monte em volta que torna o meu pequenino e tão especial. Este é o único lugar que sei capaz de fintar o tempo, o progresso. Aqui tudo é igual e aqui, apenas aqui, eu gosto disso. Aqui sinto-me em casa.
Subo ao alto de mim e escancaro as janelas. Preciso deste vendaval, desta agitação repentina que troca tudo de lugar. Preciso desarrumar a tralha ordenada e enfadonha que me trava as ideias perdidas nos cantos recônditos de mim, preciso reinventar-me.
Fico assim por tempo indeterminado, sugando o perfume da terra de onde tudo se vê, com vista para lugar nenhum. Permaneço quieta, em paz, no centro do rebuliço.
Quando regressar, sei que estarei liberta dos pequenos nadas que me travam os dias, mas para já quero desfrutar um pouco mais desta quietude envolta na ventania.

16 thoughts on “quietude

  1. apetece tanto que imagina…uma pedra que envolve um areal de quilo,etros de nada..e somente isso que movimenta o imenso marasmo que nos traz aqui…eu nao enho razoes para este marasmo e sei-o e uma questao de horas ate me deixar levar…sou amigo do vento…que cena …nao tens de levar com isto…

  2. Quietude…
    às vezes é precisa! Mas difícil de conseguir num mundo tão barulhento, tão ventoso!!! Não sei como consegues…
    bem… como não gosto da rotina, por vezes também é no meio de grandes ventanias que consigo encontrar o que me falta!
    Se bem que é preciso mesmo recolhermo-nos num lugar-abrigo de tempos a tempos!
    Gostei!
    Beijinhos

  3. Bruno,

    Pois não chega, mas é tudo quanto tenho. Uma quietude imensa no meio do vendaval.
    Se és amigo do vento, então temos isso em comum. Apenas isso, ou talvez mais isso… mas eu fico sempre na duvida, será que me deixei levar, ou fui eu que levei?!

    Beijo.

  4. Fa,

    Esse lugar abrigo de que falas e de que eu falei, tanto pode ser o campo, como o mar, como uma divisão de nossa casa, como qualquer lugar dentro de nós, onde somos sempre fieis a nós próprios, um lugar imutável, alheio à gravidade e às rugas.
    Eu gosto de barulho, de vento, de agitação. Em tempos de crise tomo decisões, avanço, isso não é mau, pode cansar-me, mas torna-me forte, é a apatia é que me mata.

    Beijo grande!

  5. já ia dizer q seria aquele monte q me levaste num dia…mas n, creio q n.

    quietude? why?

    peace?
    love?
    reflections?

    bj grande manita.
    good work, good day.
    inte

  6. Fontez,

    Não. O lugar mais próximo do que imaginei para o texto fica no Alentejo. Em casa.

    Quietude, porque não? Eu gosto da minha paz, mesmo que seja no meio do rebuliço!😉

    Beijinhos!

  7. falas do teu Alentejo certamente. Enquanto te lia vi palha dourada e uma quietude que tem a natureza do infinito.

    Só custou começar não foi?

    Um beijo

  8. M.,

    Quando a tralha arrumadinha na minha cabeça me deixa sem ideias, tento buscá-las na desarrumação do vento, do meu vento, que só podia ser Alentejano!😉

    Soube-me a pouco sabes?! É muito fraquinho, mas ao menos já é alguma coisa.😀

    Beijo.

  9. Este é aquele monte onde te levei um dia… quer dizer, é o teu monte, a tua casa, mas é o monte que te levei para lá naquele dia, fugindo em silencio e sem explicaçoes… este é o monte que subimos na cumplicidade da amizade e ficámos a olhar para lá, bem para o fundo… cada arvore, com os seus braços abertos para acolherem a filha da terra, cada silencio que os grilos fazem para te escutarem os passos, cada passaro que nao pia… e a brisa, aquela brisa que agita e que nos bate na cara… outras vezes o vento que faz virar aqueles graos de terra… a terra que é tua…

    … Cheira-me a café, aquele café que tomámos juntas nas chavenas altas a olhar no alpendre… sinto-me cansada, acho que foi da viagem, mas sinto-me calma e serena… Faz-me bem vir ate aqui contigo.

  10. Cátia,

    Este podia ser esse monte sim, aliás, começou por ser, mas esse monte onde fomos tem vista… costumo ir a um outro, que fica no meio do nada. O que muda é se tem ou não vacas.
    Mas com o decorrer do texto, acho que o monte acaba por nem sequer existir fora de mim…

    O teu comentário…🙂 está… um doce! Obrigada! É bom partilhar este café contigo, nas canecas.😉

    Beijo grande!

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