o cabeço

Entre o monte e o cabeço eram cerca de duzentos metros. Não que o soubesse, ou que algum dia isso lhe tivesse interessado. A lonjura era definida pelas pernas curtas que tanto se podiam enterrar pela encosta acima, como serem velozes como o vento.
Após a escalada ao topo do seu Evereste privado o mundo era seu e podia fazer o que quisesse.
Por vezes, limitava-se a deitar-se de costas na terra fofa e a contar as estrelas. Contava-as a todas, porque de olhos fechados para se proteger do sol podia ver o que bem entendesse. Outros dias, chorava as tragédias da sua vida. A Maria que tinha ficado com o seu elástico colorido. O Pedro que lhe chamara lingrinhas. O João e o Ricardo que a tinham deixado encostada na parede branca até ao fim e mesmo aí quase brigaram para ver quem não a tinha na equipa de futebol. A tia chata que lhe apertara as bochechas enquanto berrava que aquele era o melhor tempo da sua vida. Sabia lá ela. Velha. As tragédias que a apoquentavam. Nesses dias congeminava planos de vinganças requintadas. Andava em círculos como via nos desenhos animados e quando o plano, brilhante, tomava forma na sua cabeça, semicerrava os olhos e de indicador espetado para o céu constatava: Perfeito! Seria assim, tal qual o plano traçado se por um qualquer acaso não esquecesse tudo durante a descida.
E havia ainda dias em que do alto do seu sonho subia a uma oliveira e ficava a balouçar as pernas que desconheciam a palavra cansaço, enquanto os olhos saltitantes mudavam a paisagem e surgia o seu reino. Campos verdes a perder de vista, riachos que atravessava montada no seu cavalo com o cabelo discretamente escondido dentro da armadura. Corredores estreitos que percorria sorrateiramente subindo o vestido longo apenas uns centímetros, para permitir o apressar do passo em direcção às masmorras onde no último minuto salvava o herói que havia sido atraiçoado…
Entre o monte e o cabeço há apenas a distância de dois mundos. Ela já não sobe com regularidade o seu Evereste, mas ser-lhe-á impossível esquecer o cabeço onde foi guerreira e rainha, cruel e benevolente. Uma espécie de ensaio ao que ainda é!

16 thoughts on “o cabeço

  1. Tive um Everest quando era criança, mas eram as árvores de cerca de 10 metros da minha vizinha (que actualmente já não existem😦 ). O que eu subia e descia aquelas árvores! É claro que também havia os muros, o saltar da varanda da vizinha e coisas que fui ganhando medo de fazer à medida que a idade ia avançando…Antes não tinha medo de nada, agora não é bem assim…

  2. Cris,
    🙂 É tão bom ser criança, os chatos dos adultos que o diziam tinham razão, já o apertar das bochechas continua a parecer-me tortura. Isso, e os beijos babosos.😕 blhaccc que nojo! Limpava-os sempre e se possível fugia-lhes do alcance. Gosto pouco de lamechices e bidus bidus.

    Tal como tu, com a idade passei a ter mais medo, actividade radical para mim agora é andar de carro.
    😛

    Beijoca.

  3. Deixem-me rectificar o que disse à Cris, os adultos que afirmam que o melhor é ser criança não estão certos, pelo menos do meu ponto de vista, não é o MELHOR. Mas é muito bom ser criança quando isso nos é permitido. Eu tive essa sorte e não sei felizmente avaliar o que é nunca poder ser criança. Mas para desgraça muitas crianças sabem.

  4. Olá

    Todos tivemos o nosso Evereste, eu nunca tive grande jeito para subir nada…mas as minhas recordações estão sempre por aí….

    Ser criança é bom, é mesmo, mas só damos por isso quando já passou…

    Belo texto Marta.

    Jorge

  5. Jorge Soares,

    Pois é, uns pela sua iniciação ao crime desorganizado das castanhas, outros, para congeminar ideias malévolas!😛

    Obrigada!

    Beijinho.

  6. Primota,

    Já passei por aqui umas 4 ou 5 vezes para comentar este texto, mas a verdade é que tenho andado a correr de um lado para o outro e nao tenho tido o tempo que acho que este texto merece…

    Existem montes onde podemos estar sós connosco, parar e reflectir, subir às estrelas, cantar, sorrir ou chorar por aquele beijo que não veio… Pelo elástico que nos tiraram ou pela atenção que não nos deram. Existem cabeços que nos puxam para a luta, para a corrente que seguimos e vencemos (às vezes). Somos herois e heroinas num mundo nosso… um mundo que nem sempre é real, que infelizmente nem sempre o temos. São oliveiras que nos guardam e nos fazem ver mundos que não conseguimos atingir…

    Quando lia este teu post, lembrei-me de um outro, e de um comentario que te fiz ha muito e que me marcou, ate hoje (acho que nunca te disse)… “Gostaste da viagem?! Foi lá que te vi, que te encontrei, que te conheci… Costumo viajar até lá, gosto de me sentir invencivel, gosto de lutar com dragões que cospem fogo, com bruxas com ruga no nariz… Sinto-me forte, protejo e sou protegida… não há espada que me trespasse… Por vezes volto, venho contente, feliz… deparo-me com este mundo e tenho a vontade de ir logo embora…Qual espada que me rompe o coração!! Por vezes permaneço bastante outras vezes nem tanto…” e ” Por ti atravessei montanhas, cavalguei durante campos infinitos, atravessei rios e riachos, nadei, corri, lutei…”

    Já naquela altura sabia…
    Beijocas

  7. Cátia,

    Acho que isso foi “naquela terra”, não fui confirmar na casa velha, mas julgo que não estou enganada. Acho que até eu que às vezes sou lenta nessa altura já sabia.😛 De alguma forma foi evidente…
    Como tantas vezes aqui e lá foi dito, há sempre um pedacinho meu na ficção e há sempre um pedacinho de ficção em mim. Naquela terra, ou no cabeço, nunca sou eu, não deixando nunca de o ser.

    Resume-se a isto, de vez em quando precisamos voltar ao lugar onde combatemos e vencemos, onde fomos felizes… que importa se parte foi sonho?!

    Beijo grande!

  8. M,
    🙂 Vou ser o mais sincera que posso. A palavra escritora define alguém que nos transporta para determinado cenário e nos faz “viver” determinada estória, e até aqui eu poderia ser uma escritora, porque vos levo, ou tento levar, na garupa do meu “sonho”, mas além disso uma escritora é muito mais. É alguém que sabe escrever, que conhece as regras linguisticas, que sabe além dos nomes usar as figuras gramaticais. Que sabe pontuar o que escreve de forma a conduzir-nos com a maior das calmas ou com uma pressa que nem nos deixa respirar… tudo isto eu não sou, eu não sei e duvido que chegue a aprender, ou sequer a tentar. Talvez até gostasse de ser, essa espécie de semideus de poder hipnotizante, mas não sou. Desconheço a esmagadora maioria das regras, tenho um vocabulário reduzido… se me fizesse passar por escritora temo que seria uma medíocre. Prefiro fazer da escrita um hobby. Para isso o que sei vai chegando. Escritores que não o são, temos a blogosfera cheia e muitas prateleiras de livrarias…

    De qualquer forma, sei que não o dizes por dizer, que se não tivesses gostado do post não o dirias e isso faz com que o meu dia tenha um bocadinho mais de sol. Por vezes são estas pequenas coisas, que não mudam nada, mas tornam tudo mais agradável e que nos ajudam a seguir, é também por isso que continuo aqui. Porque me alimenta o ego e me faz bem à alma. Obrigada!

    Beijos para ti, escritora.😉
    (porque tu completas ali a lista de cima)

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