desamores

O Simão foi o meu grande amor. Eu sei, eu sei, já me disseram tudo isso milhões de vezes. Já sei que só tenho 19 anos e que acham que vou amar outra vez, que com o tempo vou perceber que nada é tão definitivo como me parece agora, que o mundo não acabou. Já ouvi isso tudo, repito-o, mas dentro de mim não acredito. O mundo até pode não ter acabado, mas eu não tenho chão, não tenho ar… amar outra vez… pois… nada é definitivo? Sei. Vejam bem… não é evidente? Não podia ser mais definitivo!
Mas adiante, que eu não quero saber dessa sabedoria que todos possuem, mas que ainda assim, erram tanto como eu. Já que tenho que contar eu quero só fazê-lo depressa e acabar com isto. Estava eu a dizer, o Simão foi o meu grande amor. Era o rapaz mais giro lá da escola. Um sentido de humor apurado, um sorriso de fazer cair por terra, enfim, era o namorado com que todas as miúdas sonhavam, mas foi a mim que o Simão amou. Não quero saber do pensam, eu sei que ele à sua maneira me amou.
Namorámos 3 anos. E eu fui muito feliz. É verdade que nem sempre as coisas corriam bem, mas isso é normal numa relação. O nosso problema era sempre o Vasco. O Simão sabia que ele gostava de mim. Eu até simpatizava com o Vasco, mas fazia por não estar ao pé dele, só que às vezes não dava para evitar trocar uma ou duas palavras… só nessas alturas é que acontecia. E o Simão quando caía em si sentia-se ainda mais mal do que eu. Acabava sempre por chorar nos meus braços, explicava-me que me amava tanto que a ideia de me perder era insuportável… eu sabia que era verdade, ele fazia tudo por mim, por isso não contei a ninguém…
Isto aconteceu no último dia de aulas do ano passado, à noite, nós tínhamos ido todos jantar, era a nossa despedida da escola… eu tinha bebido um bocado. Não sei bem como foi, sei que estávamos no restaurante quando Vasco me roubou um beijo. Um beijo na boca. O Simão ficou louco, agarrou numa garrafa de vinho vazia… tenho mesmo que continuar? Vocês já devem ter percebido… pelas cicatrizes na minha cara e no meu pescoço… mas eu tive sorte… o Vasco não sobreviveu…

30 thoughts on “desamores

  1. Sininho,

    Será que nada é definitivo?
    Tenho as minhas dúvidas, acho que há marcas que ficam para sempre.

    Beijinhos!

    Cris,

    Concordo que não foi preciso grande imaginação. Os casos de violência no namoro são muitos, demasiados…
    Queria falar aqui do assunto, queria de alguma forma juntar a minha voz à campanha que corre… mas fico sempre um bocadinho sem voz com este assunto. Este texto está longe de ser o que eu queria, mas ao menos não é silêncio…

    Beijinhos!

  2. Primota, ontem à noite já estive aqui e fui embora sem comentar… Faltaram-me as palavras! Tal como a tu, tenho dedicado algumas palavras sobre assuntos como este, mas… No namoro é algo que me faz (ainda mais) impressão como é que ha raparigas que aguentam tanto em tao tenra idade, sem vinculos maiores à pessoa, sem ser um sentimento. Faz-me pensar se de facto alguma vez amei, porque ao primeiro estalo ou pressão mais “intensa” punha-me a andar e nunca mais me viam… Será que é assim? – pergunto-me. Se calhar todas dizemos isso, mas depois…

    Vejo nas noticias raparigas que são queimadas, desfiguradas, maltratadas, etc etc etc por namorados ciumentos e fico com um nó na barriga… Este texto teve a capacidade de me roubar as palavras e de ficar a pensar… não é essa a intensão? Pode até nao estar como querias, mas… como é que se pode querer que um texto deste fique? Um texto sobre este assunto devia ser:

    “O Simão foi o meu grande amor. Eu sei, eu sei, já me disseram tudo isso milhões de vezes. Já sei que só tenho 19 anos” mas sei que o amo e que ele me ama… Casaremos,teremos filhotes, e viveremos numa partilha boa e saudavel para sempre!

    Parabens querida pelo texto… E como é nosso lema “pelo menos falo”…
    Beijinhos

  3. Cátia,

    Não sei o que te dizer… acho que pancada só levaria uma vez, a segunda já teria que me caçar longe. Acho…
    Sabes, em parte quase que percebo melhor porque um(a) adolescente se submete a uma situação de violência. Não se sabe nada da vida, está-se na fase em que achamos os pais uns tontos que não percebem nada de nada, uma fase em que as emoções andam num descontrolo tremendo entre a felicidade absoluta e o sofrimento supremo. Por cada unha partida parece que o mundo vai acabar… como afastarem-se da pessoa que amam, ou julgam amar? É o fim do mundo.
    Contar a quem? Como? A esperança de uma reconciliação depois de cada briga fica sempre, como se pode deitar fora essa oportunidade de antemão, contando algo que sabemos não o/a irão perdoar por isso?

    Num adulto espera-se um bocadinho mais de vida, de sensatez, de lucidez, um adolescente é mais vulnerável creio.

    Beijinhos!

  4. Olá

    Há marcas que são para sempre…. são as que não se vêem., andava para escrever sobre este tema…. mas sem duvida que tu o fazes muito melhor que o que eu alguma vez seria capaz.

    Beijinho
    Jorge

  5. Jorge Soares,

    Diz-se que o mais importante é invisível aos olhos… mas como é para alguém sentir-se marcada? Sentir que foi marcada fisicamente de forma a ser reconhecida por isso?!…
    Mas este tema tem tantos recantos. Será a maior mágoa dela o estar marcada ou o ter perdido ” o seu grande amor”? Que tipo de culpa vive nesta vítima? Uma das características que fica com alguém que passa por esta situação é o sentir-se de alguma forma culpada… mais uma marca invisível mas funda…
    Havia muito para dizer sobre este tema. Eu não o soube fazer, não desta vez. Não gosto do texto, mas sei que dificilmente conseguiria escrever melhor sobre este assunto, por isso publiquei este.

    Beijinho.

  6. Ana,

    Bom dia!🙂

    O final trágico… Foi para passar a ideia, e porque eles existem, mas principalmente, porque não me senti capaz de descrever uma das cenas de violência, optei por contar um dos possíveis desfechos.

    Beijinho!

  7. mas porque é que se tem que pensar se o amor que se está a sentir é ou não definitivo?
    interessa é que está ali naquele momento, daqui a 30min é futuro e havemos de lá chegar, para quê estar já a pensar neles?
    para mim, “amor à série” é aquele em que nem sei se tenho pés porque as pernas já deixei de as sentir à muito tempo. ou seja amor anda muito, muito perto da paixão “louca”, talvez só um bocadinho mais gordo e por isso se mexe um bocadinho menos.
    mas também tenho algumas regras😀 agressões sejam elas quais forem não estão incluídas nem são bem vindas. (talvez uma dentadita e ficamos por ai)

  8. Filha do administrador,

    “agressões sejam elas quais forem não estão incluídas nem são bem vindas. (talvez uma dentadita e ficamos por ai)” – de preferência dadas!😀

    Bem, eu pretendia que o texto fosse sobre alguém com 19 anos, que viveu uma relação de 3 anos, onde esteve por diversas ocasiões sujeita a maus tratos, creio que o perfil encaixaria em alguém que acreditasse que aquele “amor” era definitivo. Mas principalmente alguém que acreditasse que as marcas ficariam em si de forma definitiva.
    Quanto a mim, creio que não se ama apenas uma vez, acho que podemos amar muitas, mas acho que nenhuma se esquece e que algumas marcas, são efectivamente definitivas, por mais operações estéticas que se lhe façam.

    Bem vinda! 🙂

  9. …ate ja sofri algumas cenas de ciumes ,e cometido por uma menina de 156 centimetros(sim,porque tambem temos de olhar para casos de homens agredidos fisicamente e psicologicamente!existem em numeros bem surpreendentes )felizmente as novas circunstancias mudaram e eu sei que sim…mas a historia esta de facto bem elaborada e e gostei muito!!

  10. Bono,

    Claro que a violência também é praticada por mulheres. Conheço um caso em que ela dormia armada… não foi bonito até ele se ver livre dela. Até porque muitos homens não apresentam queixa por vergonha. Mas ainda assim, creio que as mulheres são mais vitimas que agressores, pelo menos no que diz respeito à violência fisica.

    Beijinhos!

  11. há ciúmes loucos, há de tudo.
    história com fim triste.

    até gostava de ver uma continuação da história, do conto.

    aproveito pra deixar um bj de bom fds.

  12. Bem marta… que história!
    Cada vez mais se fala neste tipo de agressão. E esta foi física mas cada vez mais entre namorados as pessoas violam a privacidade e individualidade uns dos outros, a chamada violência psicológica que sem dúvida também deixa marca… No outro dia na tv deu uma boa reportagens sobre isto…. cada vez mais popular entre as faixas etárias novas..

    Um beijinho…
    E já agora… tens conselho para o vinho tinto?
    Com neve ou sem neve cai sempre bem eheheh

  13. Fontez,

    Sim, esta é uma estória de fim triste por causa desses ciumes loucos… demasiado loucos…

    Beijinhos para ti e um bom fim de fim de semana!🙂

    Maça com canela,

    Pois é, cada vez mais fisica e psicológicamente as pessoas abusam umas das outras. Por ironia em nome do amor. Um amor doente!

    Beijinhos.😀 Para tinto, recomendo um Alentejano(como não podia deixar de ser). Cartuxa.

  14. Cátia,

    É o mais usual, sim. Mas isso tu sabes lindamente😀 Mas não é o de eleição… por acaso fico aqui na duvida… não sei qual é o branco nem o verde de eleição…
    Voltando ao tinto e fazendo publicidade à minha terra, o Couteiro-Mor é uma boa escolha no tinto (qualidade/preço).
    😉

    Beijocas e boa semana!

  15. couteiro-mor??ok…ja nao bebo…mas fica a ideia para coleccionar…e importante ter um bom vinho para oferecer…
    …beijo e sim tambem tenho saudades de troitskistar contigo!!!

  16. Couteiro-mor se quiseres gastar pouco, se não te importares de pagar um bocadinho mais… Cartuxa, reserva.😉

    Tens quêim? Isso é doença? Péga-si? Ai jasus!!! 😛

    Beijo!

  17. O fim não é muito bonito… quer dizer, o conto não acaba bem. Mas conseguiste expressar o que agora tanto se houve falar: violência. Antigamente parece que este tipo de coisa se passava com pessoas mais velhas, mas hoje em dia também já é comum nos mais jovens. Acções irreflectidas com danos para sempre…

    bjs

  18. Carracinha Linda,

    A partir do momento em que as mulheres puderam expressar as suas vontades, desde que temos vida própria e independente, muitos foram os homens que não conseguiram, nem conseguem lidar com isso. A força é a única superioridade que podem ter… alguns.
    Não sei o porquê, mas sei que o assunto é grave e os casos são muitos. Foi um post para não calar.

    Beijinhos!

  19. Cátia,

    Boa história. Talvez seja pertinente avaliarem-se as causas para se poderem evitar os efeitos. Tudo isto me parece relacionado com uma grande falta de auto-estima, de ambos os lados, vitima e agressor. Muitas vezes estas pessoas cresceram em ambientes hostis e nem se sabem expressar de outra forma. No fundo, tudo se remete ao medo. O Medo sim, esse é o verdadeiro contrário do Amor.

    Divulgar ajuda, claro. parabéns pela iniciativa!
    bjis, b

  20. B,

    Bom dia, creio que querias dizer marta😀 , ou não? Faz sentido o engano porque ela, a Cátia, é da casa e costuma ter boas estórias!😉

    Obrigada. Também acredito nessa falta de auto-estima, aliás, em alguns casos, tenho a certeza que grande parte do problema parte daí. Porque se muitos cresceram em ambientes hostis, muitos foram os que cresceram em ambientes saudáveis.

    Beijinhos

  21. eu estava a acreditar que é tudo verdade. é um conto? damnn
    pensei que tinhas provocado um crime passional
    que peso de consciência
    pensando bem se isto acontecesse comigo nao seria capaz de contar a história com esta naturalidade como se fora uma coisa banal um tipo partir a cabeça de outro com uma garrafa

    Bjs

  22. olaaaa….fogo ja a uns largos meses que nao passava pelo teu cantinho..,hoje resolvi fzer uma visita🙂
    grande imaginação….sim nada e definitivo e no amor…bem no amor ser definitivo ou nao é tema que ‘dá pano para mangas’ como se diz…

    continua a escrever.
    passarei aqui sempre que poder;)

    beijinhos***

  23. Loirinha,
    🙂 Olá! Não importa se não vinhas à meses ou se tinhas vindo na semana antes. Importa sim que venhas quando tiveres vontade. E importa saberes que é um prazer receber-te!😉

    Beijinhos.

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