ainda sem titulo II

“Não… mas perdia-me…” Pensei para mim, mal os meus olhos a viram. Tinha o cabelo negro desgrenhado e os olhos que não consegui perceber a cor pareciam ter restos de maquilhagem de alguns dias. Descuidada e sensual. Uma selvagem no seu sobretudo de bom corte, talvez uma feiticeira. Já me tinham falado desta estranha mulher que comprara a casa do velho Faria. Havia quem dissesse que andava em fuga, talvez de algum marido violento, outros adivinhavam-lhe um grande desgosto que justificava a reclusão. Não se conheciam amigos nem romances, e as perguntas que o Chico da mercearia lhe ia conseguindo fazer tinham respostas evasivas acompanhadas de uma secura de voz que o desencorajava por mais uma ou duas idas às compras. Misteriosa e, sabia agora eu, capaz de me fazer perder o juízo.
Ao meu silêncio deu mais uns passos firmes na minha direcção, como se ignorasse a chuva e o vento. E usando um tom que eu diria quase ameaçador insistiu. “Perguntei se estava perdido.”
“Desculpe, eu…” Comecei a explicar-me.