vontade

“Como vais minha querida?”
Leio a mensagem e esboço um ligeiro sorriso, sei o que vem a seguir. Conhecemo-nos bem, mas é sempre uma descoberta,  um desafio, um pedaço de loucura, um prazer… tudo se iniciou há tanto tempo que bem podia ter começado com o clássico era uma vez.
Não sei precisar o ano, mas posso garantir-vos que é algo do século passado, se bem que na altura, segundo ele, ainda fazíamos parte do escalão dos infantis e não sabíamos que íamos chegar a prós no jogo. Já eu, considero que éramos juvenis, ignorantes é certo, mas não completamente ingénuos. O curioso, ou talvez não, visto que estivemos sempre fora de tempo, é que em tantos anos nunca tivemos uma relação e nunca o tentámos sequer, se o tivéssemos feito teríamos certamente estragado tudo. O nosso segredo tem sido a moderação com que nos degustamos, estamos um perante o outro como uma iguaria rara, algo a que podemos aspirar apenas algumas vezes, poucas, sem nunca sabermos qual delas será a derradeira.
O bom em nós, se há um “nós”, é vivermos os dias em que os nossos caminhos distantes se cruzam, absorvermos essas horas como se simplesmente fosse acabar o mundo, é partilhamos os corpos, recordando-lhes os traços, os sabores… é podermos somente beber um vinho sentados no chão, enredados, e fazermos dessa uma experiência arrojada, sensual… é no dia seguinte sem promessas  nem dramas seguirmos os caminhos distintos que sempre percorremos, porque o mundo não acabou.
O bom em nós, porque sim, há um “nós”, é o fantasiarmos que em qualquer momento poderemos cruzar-nos novamente e inventar um novo fim de mundo só nosso.
O bom em nós, disse-lhe em tempos, é a…
“… vontade.”
“… muita… incontrolável.”
“… não… incontornável!”
O bom em nós, é adivinhar lá pela sexagésima mensagem, o momento em que nenhum dos dois pode esperar por muito mais tempo.
“Diz-me. Estás sozinha, esta noite?”
“Não… espero que não…”

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