margarida

Apeteceu-me muito escrever e à falta de melhor reclinei os 4 “ainda sem titulo”. O resultado vem em seguida, está grandinho e brutalmente incompleto. Pode voltar a ser reciclado, pode ficar assim, pode evoluir… para já é isto:

A chuva açoitava a janela de vidro simples com violência. Mais um dia frio. Não eram assim os dias que tinha imaginado quando comprara o terreno e se instalara na pequena casa. A neblina não a deixava ver além duns duzentos ou trezentos metros e do casario a cerca de dois quilómetros não havia nem sinal. Não tinha electricidade desde a madrugada, restava-lhe apenas meia bateria do portátil, e um telemóvel que nem sabia bem onde estava e que basicamente lhe servia de relógio, um hábito adquirido há tantos anos que lhe parecia ter sido importado de outra vida. O resto que a ligava à civilização tinha desaparecido, como se tudo terminasse ali, em tons cinza e castanhos na descida lamacenta da estrada de terra, ela fosse a última da sua espécie e o mundo estivesse prestes a acabar. Não eram assim os dias que tinha imaginado, mas isso não lhe desagradava.

Serviu-se do segundo café do dia e encostou-se na aduela da porta aberta para o alpendre, acendeu um cigarro e deixou-se ficar a contemplar a chuva que não parecia querer abrandar. Tinha acabado o cigarro quando ouviu o motor esforçado de um carro a debater-se na lama e logo em seguida avistou-o, incrédula, não conseguia perceber o que faria ali alguém a desafiar o temporal e a desafiá-la a ela, que tinha indicação de propriedade privada no inicio da sua terra.

A estrada terminava ali, no limite do seu alpendre, o carro parou apenas a uma meia dúzia de metros e lá de dentro saiu um homem na casa dos quarenta, envergando um impermeável.

Vestiu rapidamente o sobretudo pendurado na entrada, colocou a mão direita dentro da algibeira e saiu para o frio da rua ao seu encontro.

“Está perdido?”

Não… mas perdia-me…! Pensou ele, mal os seus olhos a viram. Tinha o cabelo escuro desgrenhado e uns olhos de uma cor que não conseguia reconhecer. Descontraída e sensual. Uma selvagem no seu sobretudo de bom corte, talvez uma feiticeira, concluiu. Tinha-a visto apenas uma vez, uns meses antes, perfeita, nuns jeans e t-shirt branca, tão simples e tão inesquecível. A estranha mulher que comprara a casa do velho Faria e de quem todos falavam, é sempre assim nas terras pequenas. Havia quem dissesse que andava em fuga por um qualquer crime cometido, outros adivinhavam-lhe um marido violento a quem tentava escapar, outros ainda suspeitavam de um grande desgosto que justificava a reclusão. Não se lhe conhecia família, nem amigos, muito menos romances, e as perguntas que o Chico da mercearia lhe ia conseguindo fazer tinham respostas evasivas acompanhadas de uma secura de voz que o desencorajava por mais uma ou duas idas às compras.

Sabiam-na Margarida, assim, só Margarida, sem sobrenome e sem passado, falava-se do requinte no andar, nas roupas que se percebiam caras, estranhava-se a forma de vida isolada, dura, que claramente não combinava com a figura refinada.

Em resposta ao seu silêncio deu mais uns passos firmes, alpendre afora, como se ignorasse a chuva e o vento. E usando um tom quase ameaçador insistiu.

“Perguntei se estava perdido.”
“Desculpe, eu…”

“Estou a perder a paciência homem.”

A mão direita encaixou-se em volta do aço frio, enquanto o indicador, ligeiro, se preparava para qualquer eventualidade.  Não tinha medo, já não havia por que ter medo. Dizem que a última coisa que se perde é a esperança, mas não é verdade, depois de se perder a esperança, perde-se por fim o medo. Quando já não há esperança, não há certamente por que ter medo. Ainda sim, sem medo, continuou a agarrar a pistola no seu bolso, afinal aquela era a sua casa, a única coisa que ainda queria e podia controlar.

“Eu… desculpe…” Repetiu, com a respiração apressada, açoitada pela chuva.

“Visto que não quer nada…” Atirou-lhe de forma a não deixar margem para qualquer dúvida de que não era bem-vindo enquanto lhe apontava a saída com a mão esquerda, mantendo a direita em alerta.

“Já estou a ir, desculpe, queria apenas certificar-me de que está bem. A tempestade da noite passada rasgou alguns sobreiros a meio, pensei que poderia precisar de ajuda.”

“Já viu que não, pode ir!”

Rodou nos calcanhares e voltou para o carro, perturbado e irritado consigo próprio.

Passaram apenas uns segundos até se ouvir novamente o ronco do motor e o carro voltar em direcção ao lamaçal que o tinha conduzido até ali.

Teria exagerado (?), interrogava-se Margarida… não (!), reconsiderava, era melhor assim, queria distância de tudo e de todos, mas… intrigava-a o que teria feito aquele estranho homem, deslocar-se ao seu mundo. Nunca o tinha visto… que conversa estranha. Estava ainda no alpendre, com a mão direita a acariciar a arma, envolta nos seus pensamentos, quando lhe chegou o som da pancada, forte, seca…Correu na direcção que o carro tomara uns instantes antes, até ao local onde se encontrava, fumegante, abraçado a uma das oliveiras do caminho.

Margarida era uma mulher solitária. As mulheres que permitem a si próprias começarem de novo uma e outra vez, acabam por ser de alguma forma solitárias, com ela tinha sido assim. Não que se tenha tratado propriamente de uma escolha, ou pelo menos de uma escolha racional, simplesmente tinha acontecido.

Primeiro foi a mudança de cidade por causa da faculdade, depois foi a mudança com o primeiro trabalho, depois com o fim do primeiro casamento… depois tornou-se um hábito a fuga em frente no fim de cada ciclo, e em cada ciclo, em cada fase da sua vida, fez amizades, naturalmente teve relacionamentos, partilhou mesas conversas e camas, e invariavelmente no fim de cada um desses ciclos, largou-os a todos, com a subtileza e a naturalidade de quem não tem raízes, nem as pretende cultivar.

Houvera contudo uma promessa de porto de abrigo, de oásis, no desfile de tentativas e fracassos de que fizera o seu caminho. E esse fora-se em poucos segundos, numa pancada como aquela que acabara de ouvir.

Essa lembrança acelerava-a,  enquanto se precipitava para o carro cinzento e as botas se debatiam com a lama, transformando cada passo no que lhe parecia uma eternidade.

Rodrigo estava atordoado, ainda não tinha processado a informação e já Margarida lhe abria a porta do carro. Parecia uma mulher diferente daquela com quem trocara poucas palavras instantes antes. Nenhuma hostilidade na voz nem no olhar.

“Está bem?”

“Sim.”

Respondeu ainda baralhado pela forma como perdeu o controlo do carro e também pela mulher diante dele. Conseguia agora pela proximidade distinguir-lhe a cor dos olhos, um castanho suave que se transformava em verde… uns olhos tristes num rosto magro de onde se entreabriam os lábios rosa que soltavam uma voz suave que não lhe ouvira antes.

“Tem a certeza que está bem?”

“Sim, estou bem, foi só o susto e o carro…”

“Venha.”

Ordenou-lhe, novamente no comando da situação. Ele obedeceu-lhe.

Na casa entrava-se directamente para o que servia de cozinha e sala. Ele seguiu-a para lá da porta, ela apontou-lhe o sofá que se encontrava do lado direito da entrada, a meio da divisão em frente a uma chaminé Alentejana onde o lume aceso dava a tudo o que o rodeava uma tonalidade laranja. Ele sentou-se e olhou em volta, do lado esquerdo da porta de entrada, numa parede perpendicular havia uma bancada e um frigorífico de 2 portas e na frente da porta uma mesa redonda com diversos papeis em cima e um computador portátil, junto à mesa duas cadeiras. A mesa parecia localizar-se exactamente a meio da única janela existente. Atrás do sofá uma estante grande repleta de livros.

Ela despiu o sobretudo que pendurou junto à entrada e dirigiu-se ao fogão.

“Aceita um café?”

“Aceito, mas não queria importuná-la…”

“Isso agora já é tarde.”

Ripostou e ele juraria que lhe vislumbrou por um segundo um ligeiro sorriso.

Estava de jeans, botas de montanha e uma camisola de malha verde. As botas iam largando lama pelo chão de cimento afagado, coisa a que ela parecia não dar qualquer importância. Estranha esta mulher, pensava Rodrigo. Nenhum tapete, além do da entrada, nenhuma moldura, nenhum vaso com flores…

Margarida serviu-lhe a água fervida com pó de café dissolvido sem açúcar, meia caneca. Ele teria preferido com açúcar, mas não se atreveu a verbalizá-lo, ela percebeu mas achou que o castigo se aplicava lindamente. Deu-lhe um certo gozo perceber o esforço que ele fazia para engolir. Afastou os papéis espalhados na mesa para cima do portátil e ficou em pé a bebericar o café enquanto acendia mais um cigarro.

“Um cigarro?”

“Não obrigado.”

“Tem quem o venha buscar?”

“Não.”

Sentia-se um completo idiota, ela sentiu empatia.

“Bom, como eu não estou interessada em ficar com um carro no estado do seu…ou vai a pé agora com esta chuva ou espera que o temporal acalme.”

Ele não lhe respondeu de imediato, parecia-lhe um coelho ofuscado com os faróis de um carro, a meio da noite, sem saber para que lado fugir. Isso descansava-a, não o achava uma ameaça, achava-o um palerma.

Observava-o com atenção pela primeira vez. Alto, magro, cabelo castanho grisalho, ligeiramente ondulado, percebia-se umas entradas mas nada muito marcado. Olhos grandes, castanhos-escuros, maxilar angular, bem definido no rosto. Era sem duvida um homem bonito. Continuava com o impermeável vestido, sentado no sofá a cerca de 2 metros da lareira, inclinado na direcção das chamas a segurar a caneca verde entre as duas mãos. Nenhum anel, nenhuma aliança. Achava-o um palerma… um belo palerma!

Rodrigo sentia-se um miúdo que foi apanhado a fazer asneiras e que a qualquer momento iria levar mais um raspanete. Estava desconfortável, devia ir, ir de imediato, não devia sequer ter vindo, mas a imagem dela nuns jeans e t-shirt branca perseguira-o durante meses como uma assombração. Achou-se um herói enquanto se dirigia lá, pronto para a salvar… transformou-se num idiota a pé… devia ir, mas estava louco por ficar.

“Hummm… vou fazer uma pasta para o almoço, acompanha-me?”

“Sim, posso ajudá-la?”

Perguntou enquanto se levantava rapidamente, despia o impermeável e o depositava no braço do sofá. Caminhou na direcção dela de mão esticada.

“Comecei mal, deixe-me tentar corrigir. Sou o Rodrigo.”

“Margarida.” Respondeu enquanto retribuiu o aperto de mão e nesse momento ele teve a certeza de que lhe bailava nos lábios um ligeiro sorriso.

Nada daquilo fazia sentido, começou por o receber de arma no bolso e agora ia oferecer-lhe o almoço. Já lhe mostrara onde ficava a sua casa de banho e preparava-se para lhe servir um vinho… não fazia sentido, mas tinha gostado do aperto de mão dele, firme, do toque da sua pele, suave.

“O que é que posso fazer?”

“Nada. Não lhe parece que já fez o suficiente?!” Gracejou.

Desimpediu a mesa sem cerimónias, ou seja, amontoou tudo em cima do portátil e passou o molho desorganizado para cima do sofá.

Acabou por o deixar pôr a mesa, uma mesa onde nunca ninguém tinha comido. A mesa servia para estar ao computador e as cadeiras, numa sentava-se e na outra apoiava as pernas e os pés. Comia sempre no sofá num tabuleiro enquanto via televisão ou se o tempo o permitia levava o tabuleiro para o alpendre e comia lá. Gostava da sua solidão, tinha-a escolhido quando achou que nada mais podia ou queria fazer, mas recusava-se a comer sozinha à mesa.

Rodrigo contou-lhe que tinha crescido ali, numa das casas da aldeia, depois saíra para estudar e agora dava aulas de matemática em Évora. Os pais estavam a viver em Beja e a casa onde crescera era agora sua, uma espécie de refúgio, para onde fugia sempre que podia. Margarida ouviu-o apenas. Não lhe rosnou como fazia habitualmente ao Chico da mercearia, ou a qualquer outro incauto que se lhe atravessasse ao caminho, estava afável, a apreciar a sua companhia, muito mais do que poderia ter imaginado. Olhava-o nos olhos, enquanto o ouvia, concentrava-se no contorno dos seus lábios, teve vontade de saber a que saberiam, mas não tinha a menor intenção de se dar a conhecer.

No final do almoço a chuva já tinha acalmado, mas nenhum parecia dar grande importância a esse facto. A conversa estava boa, pouco mais que banalidades, mas muito agradável, quando finalmente se levantaram, arrumaram a mesa em conjunto, como se fossem velhos amigos.

“Vou fumar um cigarro enquanto vejo os estragos na minha horta.”

Vestiu o sobretudo, ele o impermeável e saíram para a rua, estava frio, caía ainda uma ou outra pinga mais teimosa, mas do vento nem sinal e a neblina começava a levantar. As alfaces, os coentros, a salsa, os espinafres, os brócolos, e tudo o resto estava salpicado de lama, mas face ao declive do terreno, nada estava inundado e tudo haveria de se salvar. Tinha 2 galinhas, gostava de ovos caseiros, encontraram-nas encolhidas na capoeira, recolheram um ovo, levaram lenha da pilha que estava debaixo do telheiro do carro e voltaram para casa.

Sentaram-se no sofá em frente à lareira, era aí que estavam quando a electricidade voltou.

“Ainda bem, além do congelador começava a preocupar-me com a minha reserva de água estar a chegar ao fim. Viver no campo tem destas coisas, quando acaba a luz, não há bomba, e sem bomba… não há água!”

“O velho Faria não tinha um poço?”

“Tinha pois, mas para tirar água lá de dentro são precisos 2 braços para puxar o caldeiro…”

Ele riu.

Ela beijou-o.

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