margarida #1

O Manteigas. Era assim que se lembrava dele, gordinho, baixinho e risonho. Não foi fácil recordar-se, na verdade, fisicamente pouco ou nada já existia do Manteigas, talvez o sorriso, apenas o sorriso.
O Manteigas tinha passado a primeira e a segunda classe a tagarelar, sentado à frente da Guida, uma miúda franzina e tímida, que mal abria a boca enquanto a D. Isabelinha debitava as lições do Papu.
O Manteigas não tinha sido o miúdo mais fixe da classe, mas foi talvez o mais falador e o que mais puxões de orelhas levou durante os dois anos. Naquela época os miúdos que tinham sorte levavam puxões de orelhas, os que tinham professores mais “rígidos” iam para casa marcados pela régua de madeira ou mesmo com os dedos impressos nas bochechas. A Guida só se lembrava de um puxão de orelhas seu, naquele dia todos os meninos “ganharam” um, e depois do seu o Manteigas risonho e conformado com o destino lançou-lhe um sorriso de conforto e no regresso a casa, que todos faziam a pé, por uma estrada sem passeio, o Manteigas levou-lhe a mala. Podia ter sido o seu primeiro amor, mas o ano estava a chegar ao fim e os pais da Guida emigraram para Inglaterra logo em seguida…
Não tinha pensado muito no Manteigas ao longo da vida, nem sequer quando voltou para ali. Mais, do alto da sua soberba, sempre os imaginara a todos casados, barrigudos e desinteressantes. Só o reconhecera no momento em que ele falou da infância e da D. Isabelinha.
Margarida levantou-se da cama e foi a abanar a cabeça até à casa de banho… nunca tinha imaginado o Manteigas adormecido nos seus lençóis…

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