margarida #8

Rodrigo lembrava-se da mãe ter falado no caso, mas os detalhes escapavam-lhe. Pegou no computador e resolveu pesquisar com os pormenores que lhe ocorriam. Não demorou muito a encontrar várias notícias. Abriu uma.
“Casal Português assassinado em Londres.”
“Manuel António Pimenta e Celeste do Rosário da Silva Pimenta, um casal de Portugueses residentes nos arredores de Londres foram encontrados mortos no passado dia 3 Fevereiro na sua residência pela única filha do casal.”
Rodrigo desviou o olhar do ecrã. As lágrimas turvavam-lhe os olhos. Limpou-as, respirou fundo e continuou.
“A mulher de 31 anos deslocou-se ao local após várias tentativas de contacto.
Pelo cenário encontrado pela polícia supõe-se que se terá tratado de um assalto que terminou em tragédia.”
Ele fechou a página e abriu outras, idênticas, nenhum desfecho, apenas a suspeita de assalto e a única filha a encontrar os pais executados por supostos assaltantes. Nada recente. Voltou ao google.
Margarida Pimenta – escreveu
Apareceram 2 perfis no facebook, abriu os dois, nenhum era dela. Os resultados seguintes levaram-no a uma médica e a diversos perfis profissionais, mais uma vez não se tratava dela.
Margarida Pimenta Londres – voltou a tentar.
Mais perfis em redes sociais, todos eles da infinidade de Margaridas Pimentas que existem no mundo. Mais médicas, algumas bailarinas, nenhuma era a sua. Pensava nela assim, a sua Margarida. Não percebia o segredo. Porquê esconder quem era? Porque não confiava em si? Também não compreendia como podia ter estado com ela tanto tempo sem a reconhecer quando para a sua própria mãe não tinha sido preciso mais de 2 ou 3 minutos.
Tentava lembrar-se da Guida, reconhecer-lhe algum traço, nada… absolutamente nada do passado, apenas a Margarida misteriosa, apenas a Margarida que não confiava nele, apenas a Margarida que amava.
Eram cerca de sete horas daquele Domingo e noite cerrada quando finalmente decidiu ir atrás dela.

margarida #7

Margarida saiu de lá desorientada. Estava novamente perdida, ferida, tinha novamente ferido. Pensava que talvez fosse melhor ir embora, talvez se vendesse a quinta pudesse ir para o Norte. Voltar para Londres estava absolutamente fora de questão, nem mesmo para Lisboa, o dinheiro que tinha e os bens que possuía não lhe permitiam aventuras dessa ordem. Quanto mais pensava nisso, melhor lhe parecia, iria para Norte, era agora óbvio para ela que voltar ao Alentejo tinha sido um erro. Um erro grave. Adiante, shit happens, estava na hora de seguir em frente, já tinha amado antes, já tinha perdido antes, já tinha sobrevivido antes…
Deambulou pelas arcadas do centro da cidade e acabou por se sentar num pequeno café de tijolo à vista e mesas escuras. Pediu um café e uma água ao balcão e sentou-se na cadeira de madeira castanha escura em formato de poltrona, numa tentativa clara de chamar a atenção pela estética e desconfortável o bastante para lembrar o cliente de circular. Ela ignorou o desconforto e ficou ali por um bom bocado perdida algures dentro de si própria.
Na parede à sua frente havia um espelho grande que abria visualmente o espaço e lhe devolvia a sua própria imagem. Os anos deixaram-lhe muitas marcas e uma bagagem tão pesada que por vezes a pensava insuportável de carregar, mas pouparam-lhe o rosto que mantinha os traços delicados praticamente imutáveis. Apenas nos olhos se podia ver toda a carga que transportava em si, olhava-se de frente e mergulhava no pântano negro em que se encontrava a sua alma.
Ainda tinha o cheiro dele impregnado no seu corpo, entrava-lhe pelas narinas a cada movimento… ficou imóvel, submersa em si. Amava-o tanto, mas não tinha nada que lhe pudesse oferecer, nada de bom, nada de normal. Dentro de si havia apenas uma máquina que insistia em funcionar alheia a toda a sua miséria. Amava-o e por isso mesmo o melhor que podia fazer era afastar-se.

margarida #6

Nas semanas seguintes Rodrigo vinha visitá-la sempre que o horário o permitia e os fins-de-semana, eram invariavelmente passados em conjunto. Faziam amor, aninhavam-se à lareira, passeavam pelo montado quando o sol tímido de início de Inverno os visitava, cozinhavam em conjunto, bebiam vinho e café e às vezes saíam para jantar.
Margarida sempre que podia esquivava-se a ser ela a ir visitá-lo a casa dele, mas chegou a fazê-lo algumas vezes. Numa delas, estava a fumar um cigarro à varanda quando a mãe dele chegou sem aviso.
“Desculpa, não tinhas dito à mãe que tinhas visitas.”
“Não calhou.”
Respondeu ligeiramente nervoso. Não tinha imaginado apresentar Margarida assim, queria que os pais a conhecessem sim, isso já tinha decidido, amava-a, e embora não lho tivesse dito ainda tinha grandes planos para os dois, mas era cedo para a apresentar, talvez quando ele a conhecesse também melhor e pudesse responder ao interrogatório que sabia que a mãe iria fazer.
Margarida apagou o cigarro e entrou para a sala. A D. Teresa, observou-a com atenção.
“Bom dia.”
Começou Margarida com um sorriso afável, para acabar com o silêncio constrangedor. Rodrigo continuou a partir daí.
“Margarida apresento-te a minha mãe, Teresa, Mãe a minha amiga Margarida.”
“Ah! Pronto, bem me parecia que a estava a conhecer, é a Guidinha da Celeste não é?”
Exclamou entusiasmada. Margarida ficou petrificada, com o mesmo sorriso ainda no rosto, como se não o conseguisse descolar da face. Conseguia ver a expressão de Rodrigo, confuso, queria poder negar, queria poder explicar-lhe o porquê de lhe ter omitido quem era, queria ir embora dali, mas manteve-se firme enquanto Teresa continuava imparável.
“Oh Rodrigo, podias ter contado à mãe que tinhas reencontrado a Guidinha, sabes que eu falo tanto na Celeste… Ai desculpe, não a quero aborrecer, fiquei tão triste com o que aconteceu, eu gostava muito dela sabe, tínhamos sido muito amigas quando éramos novas. É tão parecida com ela, só muda o cabelo.”
“Obrigada. É um prazer conhecê-la, a minha mãe falava muito da D. Teresa.”
“Rodrigo, um dia destes tens que a levar lá a casa para almoçar.”
“Depois vê-se isso mãe, nós estávamos de saída, estamos atrasados.”
Rodrigo estava prestes a explodir.
Despediram-se da D. Teresa e quando ficaram sozinhos ele berrou-lhe:
“Porquê?”
“Desculpa, Rodrigo. Não é fácil…”
“Cala-te.”
Interrompeu-a. Sentia-se magoado, traído. Tinha partilhado tudo com ela nos últimos meses, em troca percebia agora não ter recebido nada. Precisava de se acalmar, precisava de silêncio.
“Não sou capaz de te ouvir. Sai!”

encantos de um dia meu

 O despertador não tocou.

O duche foi a medo da legionella.

Vesti e despi, vesti e despi… vesti e despi… não tenho roupa nenhuma!!!

O leite talvez estivesse estragado…

Lavei os dentes com água engarrafada num copo.

O gato fez fuuuuuu ao secador.

Sai atrasada.

O caminho é capaz de me render mais uma missiva de 120€… talvez me deixe sem carta…

No trabalho se eu tivesse mais meio metro e o dobro da largura acabava com eles à pancada.

Recebi um sem número de vendedores… um deles insistiu em falar a dois centimetros da minha cara, porquê céus, porquê? um dia destes espirro em cima de um! Dass!

Tive que desligar a orelha do lado direito.

Lembrei-me que o que recebo não justifica tanto horror.

Perdi 2€ no euro milhões.

Saí de lá uma hora depois de anoitecer.

Fiz outros tantos, tantoooooossss, quilómetros na volta.

Passo na modalfa (odeio pobre) e tenho uma cólica enquanto experimento uma camisola.

Chego a casa e o gato tem o “cú” por limpar.

O jantar não se fez sozinho.

Lavo os dentes com água engarrafada num copo e deito-me.

Amanhã tenho mais do mesmo, loucura!

Antes de dormir repiso uma conversa com o meu colega:

“Calma Marta, pense que há muitos piores que você.”

“Eu sei, por isso é que não entendo o porquê de ser eu tão castigada!”

margarida #5

Fizeram o jantar em conjunto entre beijos abraços e amassos, enquanto partilhavam um vinho tinto e um queijo de ovelha da região.
Margarida apesar do desassossego da paixão, porque sim, não tinha dúvidas de que estava apaixonada, sentia-se em paz, uma paz que julgara perdida para sempre, uma paz que imaginava a terminar mais tarde ou mais cedo e que podendo, seria sempre mais tarde do que cedo. O carinho dele era uma espécie de anestésico para todas as suas dores, revelava-se muito mais eficaz que o álcool ou qualquer cocktail de químicos que pudesse ingerir. Ele arrancara-a da sua miséria desde o primeiro momento, começou por a fascinar com o embaraço e a meiguice e com a sua ausência nos dias seguintes tinha-a abstraído da rotina. Enquanto se perguntava se o voltaria a ver, nada mais importava, nem sequer a resposta, a dúvida era uma infinidade de oportunidades e de caminhos, uma lufada de ar fresco numa altura em que ela pensava não existir qualquer caminho além da loucura.
“Fala-me de ti. Conta-me quem é a Margarida.”
Perguntou-lhe a determinada altura entre um beijo no pescoço e um gole de vinho.
Ela sorriu ligeiramente, se ele a conhecesse saberia que aquele leve morder de lábio era um tique nervoso e não uma arma de sedução.
“A Margarida… a Margarida é uma mulher de 42 anos.”
À falta de continuação ele insistiu.
“E?”
Ela armou-se com um sorriso dengoso, encurralou-o contra uma das cadeiras e avançou para o seu colo enquanto lhe segredava ao ouvido:
“Já te revelei algo tão íntimo como a idade… para te dizer mais tinha que te matar…”
Margarida começou por beijá-lo… Rodrigo contentou-se com a resposta, tinha bastante de curioso mas de momento tinha muito mais de excitado.

margarida #4

“Também te queria ver.”
Confessou-lhe. Ele sorria e abraçava-a.
“Não penses que só vim agora por me teres largado à porta sem um beijo sequer. Acredita, só não apareci cá antes porque estava sem carro.”
“Ficas para jantar?”
Perguntou-lhe com um sorriso, ignorando o que ele lhe dizia.
“Não.”
“Ah…”
“Estava a pensar levar-te a jantar!”
“Hummm… não preferes uma refeição leve e um vinho em frente à lareira?”
“Tentador… mas apetecia-me andar contigo de braço dado, peito inchado…”
Ela sorriu e deu-lhe o braço.
“Vês, já estamos de braço dado. Anda comigo.”
De braço dado contornaram a casa e seguiram depois de mão dada por uma vereda estreita ladeada por pequenos arbustos, na sua maioria buxo, que se percebia ser recente no local, passaram o poço caiado de branco e pé azul e continuaram por mais uma meia dúzia de metros de vereda que desembocava numa amoreira enorme cujo tronco estava rodeado por um banco redondo em cimento, todo ele revestido com azulejo branco e branco e azul na base. O Outono e as suas chuvas encarregaram-se de transformar a terra barrenta num belíssimo relvado verde, pincelado de tons amarelos, vermelhos e castanhos conferidos pelas folhas caídas, numa espécie de pintura viva refeita a cada instante pela brisa suave. Aquele era o ponto mais alto da pequena quinta, permitia ter vista para todos os lados, 360º de mundo a seus pés.
“Este é o meu lugar preferido, é para aqui que venho fumar um cigarro no final do dia, ou ler um livro no verão…”
“É fantástico!”
“És a primeira pessoa a conhecer este local, quando comprei a casa, foi necessário fazer obras, este banco foi uma delas. Adoro estar aqui no verão, quando tudo à volta é dourado, apenas as folhas são verdes e frescas, um oásis cantado pelos pardais no final da tarde, quando o calor é tanto que se vê a ondular no vento… sou absolutamente apaixonada por esta terra, fustigada pelo calor abrasador do verão e pelo frio que nos gela a alma no inverno…”
Ele permaneceu calado, embevecido pela paisagem e pela inesperada partilha.
“… para mim o Alentejo é isto, o extremo, a dor elevada ao seu estado mais puro, mais pleno, mais belo…”
“És Alentejana?”
Margarida fitou-o, percorreu os seus lábios com o indicador da mão direita enquanto a esquerda o enlaçava pela cintura, depois encostou a cabeça no seu ombro, fechou os olhos e mentiu.
“Não.”

margarida #3

A semana seguinte foi passada sem sobressaltos. Na segunda-feira o carro foi rebocado sem problemas e Margarida tinha intenção de encerrar o assunto Manteigas, embora ele invadisse os seus pensamentos com grande frequência.
Na quarta-feira desceu à aldeia para as compras semanais, esquivou-se às investidas do Chico da mercearia e deu por si a ter uma cabeça tipo cata-vento em busca de Rodrigo. Sabia que a casa dele não era ali, que a vida dele não era ali, mas de alguma forma tinha esperança de o encontrar. Passou casualmente à porta dele não uma, nem duas, mas três vezes para confirmar em qualquer uma delas que os estores das janelas estavam em baixo e deu por si a demorar um pouco mais que o habitual.
Ela repetia para si mesma que ele era apenas um desconhecido que se deslocara ao seu mundo por impertinência e ficara lá umas horas por acidente, por outro lado havia uma vozinha baixinha e insistente que lhe lembrava que ele era o Manteigas, o miúdo que a consolara aquando do seu único puxão de orelhas…
Os dias foram passando e dele não lhe chegou nenhum sinal, nem durante a semana, nem no fim-de-semana, e com o passar dos dias da semana seguinte ela começou a achar que efectivamente o assunto estava encerrado.
Passava das cinco da tarde de quinta-feira e o sol já estava a desaparecer no céu, quando ela ouviu o carro a aproximar-se e do alpendre confirmou o que ansiava.
Sentiu o coração disparado dentro do peito, temeu mesmo que ele pudesse vê-lo, descontrolado, querendo saltar para fora e atirando-se na sua direcção. Naturalmente ele não podia ver e ela não era uma adolescente para se comportar de tal forma, por isso, manteve-se quieta enquanto ele se dirigia a si de rosto fechado.
“Estou-me nas tintas se as coisas ficam complicadas!”
Foi a única coisa que ele lhe disse com a cabeça dela a menos de um palmo de distância, presa entre as suas mãos, e imediatamente antes de a impedir de emitir qualquer protesto.