margarida #7

Margarida saiu de lá desorientada. Estava novamente perdida, ferida, tinha novamente ferido. Pensava que talvez fosse melhor ir embora, talvez se vendesse a quinta pudesse ir para o Norte. Voltar para Londres estava absolutamente fora de questão, nem mesmo para Lisboa, o dinheiro que tinha e os bens que possuía não lhe permitiam aventuras dessa ordem. Quanto mais pensava nisso, melhor lhe parecia, iria para Norte, era agora óbvio para ela que voltar ao Alentejo tinha sido um erro. Um erro grave. Adiante, shit happens, estava na hora de seguir em frente, já tinha amado antes, já tinha perdido antes, já tinha sobrevivido antes…
Deambulou pelas arcadas do centro da cidade e acabou por se sentar num pequeno café de tijolo à vista e mesas escuras. Pediu um café e uma água ao balcão e sentou-se na cadeira de madeira castanha escura em formato de poltrona, numa tentativa clara de chamar a atenção pela estética e desconfortável o bastante para lembrar o cliente de circular. Ela ignorou o desconforto e ficou ali por um bom bocado perdida algures dentro de si própria.
Na parede à sua frente havia um espelho grande que abria visualmente o espaço e lhe devolvia a sua própria imagem. Os anos deixaram-lhe muitas marcas e uma bagagem tão pesada que por vezes a pensava insuportável de carregar, mas pouparam-lhe o rosto que mantinha os traços delicados praticamente imutáveis. Apenas nos olhos se podia ver toda a carga que transportava em si, olhava-se de frente e mergulhava no pântano negro em que se encontrava a sua alma.
Ainda tinha o cheiro dele impregnado no seu corpo, entrava-lhe pelas narinas a cada movimento… ficou imóvel, submersa em si. Amava-o tanto, mas não tinha nada que lhe pudesse oferecer, nada de bom, nada de normal. Dentro de si havia apenas uma máquina que insistia em funcionar alheia a toda a sua miséria. Amava-o e por isso mesmo o melhor que podia fazer era afastar-se.

6 thoughts on “margarida #7

  1. Se o Manteigas viu alguma coisa na Guidinha que o levou a aproximar-se, parece-me que a Guidinha precisa de se olhar com outros olhos. Mania de uma pessoa se deitar abaixo… GGGRRRR (também falo por mim)
    Qual é a história que leva a Guidinha a fugir da possibilidade de ter momentos de felicidade?

  2. Existem histórias que só os “proprios” conhecem… sentimentos… se ela acha que deve, entao deve… mas acredito que não terminará assim… certo?!

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