margarida #9

Encontrou a porta de casa dela aberta. Chamou-a. Nada. Entrou, voltou a chamá-la. Silêncio absoluto. A casa com a porta aberta e a lareira apagada estava gelada. Procurou-a ansioso. Dela nem sinal. A única luz acesa era a de um candeeiro de pé ao lado da mesa da sala. Em cima da mesa um copo e uma garrafa de whisky. Debaixo do copo, em laia de base folhas A4 manuscritas. Levantou o copo e agarrou-as. Eram 2 folhas escritas à mão em letra irregular que reconhecia ser a dela. Sentiu o coração disparar-lhe no peito. Com as folhas a queimar-lhe os dedos foi até à porta e voltou a chamá-la, agora para o escuro da noite. Chegava-lhe apenas o som do vento amplificado pela escuridão.
Rodrigo sentia-se inquietado. O carro dela estava estacionado no telheiro, mas dela não havia nenhum sinal além das 2 folhas que tinha nas mãos. Entrou em casa e começou a lê-las a medo.

Não te tenho falado, mas tu sabes que não te esqueci. Esquecer-te será sempre impossível, o meu amor por ti é imutável, em mim viverás para sempre.
Não te tenho falado, mas hoje preciso outra vez de ti, preciso de te falar de mim, preciso que ao menos tu possas entender-me.
Apaixonei-me outra vez. Nem sei muito bem como. Ele chegou literalmente a meio de uma tempestade e acabou por trazer-me de prenda a bonança para a minha vida. Sem saber deu-me um sol, um sol só meu, que vive mesmo em cima da minha cabeça e me permite respirar e rir e amar… sinto-me viva outra vez, voltei a preocupar-me com o país e o mundo, voltei a ver as noticias e estou a reconquistar o direito à opinião, voltei a sonhar. Quando tu foste embora levaste contigo tudo o que eu era, todos os projetos, todos os sonhos, toda a alegria, todo o amor, toda a esperança… e eu que queria que me tivesses levado a mim, fiquei perdida, sem nada e perdida. Respirava, mas não vivia, esperava que os dias passassem sem os sentir. Esperava quieta, porque não tenho direito a atalhos, apenas a anestésicos como o whisky que vou engolindo enquanto te escrevo.
Quero que saibas que a presença dele não diminui em nada a minha saudade, não é assim que funciona, não é alguém que te substitui, é outra pessoa em tudo diferente. Alguém com quem partilhar um pouco desta minha vida, enquanto espero para te encontrar numa outra. É o último telefonema do dia e o primeiro pensamento da manhã. É uma viagem em que me reencontro e me transformo. Todos os nossos amores nos transformam, todos porque são distintos evidenciam diferentes coisas em nós, algumas que nos eram até desconhecidas, descobrimos habilidades, evoluímos e crescemos. Amar para mim sempre foi assim, uma eterna descoberta de mim própria, pedaços de mim em troca do outro. E todos os meus amores foram diferentes e especiais e inigualáveis, entreguei-me sempre a todos, todos foram inesquecíveis… tu serás eterno! Mas com ele, logo com ele que me está a resgatar de mim própria, não partilho nada, tudo em mim se tornou inconfessável e incompreensível. Hoje ele descobriu que fui sua colega na escola primária, hoje ele descobriu que lhe escondi isso, hoje ele descobriu o assassinato dos meus pais… fui incapaz de lhe contar quem sou e quem fui. Fui incapaz de lhe falar de mim, e como é que poderia falar-lhe de mim sem lhe falar de ti? Como poderia explicar-lhe que tu serás sempre O meu amor, mas que isso não é impedimento de o amar a ele… como contar-lhe que me tornei letal para os que amo?! Como confessar-lhe que fui eu a responsável pelo que te aconteceu?!
Perdoa-me, perdoa-me não o facto de eu voltar a amar, mas sim o facto de tu, por causa de mim não o poderes fazer… dá-me um sinal, uma luz…

Quando levantou os olhos das folhas ela estava em pé, à porta, de sobretudo, gorro de orelhas e lanterna na mão.
“Não era suposto leres isso.”
“Desculpa, quando não te vi e encontrei as folhas, tive medo que tivesses feito alguma asneira…”
“E fiz, perdi o telemóvel e tenho andado ao frio a tentar encontrá-lo… já uma asneira dessas a que te referes, se me conhecesses saberias que eu seria incapaz de a fazer.”
“Então ajuda-me a conhecer-te…”

7 thoughts on “margarida #9

  1. Digamos que me arrepiaste e as lágrimas brotaram logo…
    (Não significa que seja mau o que escreveste. Mau é o acontecimento passado da Margarida…)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s