margarida #11

As labaredas começaram a subir na chaminé, Margarida levantou-se, acendeu um cigarro, dirigiu-se à bancada da cozinha e ligou a máquina de café. Ele observava-a, parecia-lhe novamente a Margarida do primeiro dia, a que ia largando lama das botas ao longo da casa como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Podia não lhe conhecer a identidade, mas sabia que toda aquela cena nada tinha que ver com a Margarida que se aninhava nos seus braços. Com a Margarida dos beijos roubados a meio de uma frase qualquer. Com a Margarida doce e suave que fechava os olhos enquanto a mão dele lhe percorria os traços delicados do rosto… aquela não era a sua Margarida era apenas uma fachada, uma protecção, um refúgio… uma arma.
“Queres um?”
“Sim.”
Tirou os dois cafés em silêncio. Quando lhe entregou o dele as suas mãos tocaram-se. Para Rodrigo foi como que uma descarga eléctrica. Estava magoado, estava até um bocadinho assustado, mas continuava a querer tomá-la nos braços e embalar-lhe o sono.
Pousou a chávena e aproximou-se dela.
“Não é pena Margarida.”
“Isso já não importa.”
Retorquiu. Seca. Antes de continuar.
“Vou-me embora daqui, não devia ter vindo.”
“Para onde?”
Ela sorriu.
“Não acreditas que te vou dizer isso pois não?”
Ele estava absolutamente desconcertado com a frieza dela, com a crueldade com que lhe dirigia cada uma das palavras, com a descontracção com que sorria e o atacava ao mesmo tempo que lhe oferecia um café. Era como se escolhesse cuidadosamente a forma de magoá-lo mais e mais. Tinha vontade de a agarrar e fazê-la entender que sabia que tudo não passava de um escudo. Queria mostrar-lhe num beijo que não precisava de se defender, ele não iria atacar… mas também tinha o seu orgulho bolas, também não podia ser ele a dar todos os passos, ele já tinha ido atrás dela…
“Gostava só de te lembrar que apesar de ter sido eu a aparecer na tua porta, foste tu que me beijaste e foste tu que me levaste para a tua cama, se te assusta assim tanto envolveres-te comigo…”
“Meu querido, isso não tem nada a ver com envolver-me contigo. Lá por estar sozinha continuo a comer e a beber todos os dias.”
As palavras dela tiveram o efeito de um soco no estômago. Para ele chegava. Virou-lhe as costas e encaminhou-se para a porta. Não conseguia percebê-la, decididamente não a entendia.
“Não precisas ir. Eu não volto!”
Ela fechou a porta atrás dele com um pontapé. Encheu mais um copo de whisky e chorou pela primeira vez em 2 anos.

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