10 minutos

Olho mais uma vez para o relógio, ainda faltam vinte e cinco minutos para o intervalo da manhã. Vinte e cinco longos minutos antes de te ver. O ritual vai ser o de todos os dias. Tiramos um café da máquina e saímos do pavilhão para fumar um cigarro. Só podemos fumar junto à porta, debaixo da escada de acesso ao escritório. Normalmente somos muitos, fala-se de tudo e de coisa nenhuma. O tempo, o governo, o futebol, o Sócrates, enfim, o que calha. Nos dias bons fico ao pé de ti. Há dias em que fico convencida de que me olhas de forma diferente, mas na maioria convenço-me de que é só a tua forma de ser, a tua simpatia. O melhor dos meus dias são aqueles dez minutos de intervalo a meio da manhã quando o meu turno se cruza com o teu. Dez minutos por dia. Cinquenta minutos por semana. Cerca de trinta e seis horas e meia por ano. Hoje queria ter coragem para te convidar para um café, lá fora, um café à séria servido numa chávena. Queria descobrir-te para lá do rosto bonito, do sorriso simpático, das conversas de circunstância. Saber como pedes o teu café quando ele te é servido. Contar-te que só fumo um cigarro por dia. Cinco cigarros por semana. Cerca de 220 cigarros por ano. Hoje queria encontrar-te sem hora marcada e perder a noção do tempo.

urgências

Quando chego ao estacionamento ele já está dentro do carro estacionado ao meu lado. Atiro-lhe um boa tarde malicioso. Ele abre um sorriso rasgado. Entro no carro, ligo-o e saímos os dois, ele na frente. Os quilómetros são percorridos em modo toca e foge. Vou atrás dele até o ultrapassar, avanço, depois deixo-me apanhar, sempre na continuação do jogo que fizemos ao longo do dia. Pela minha cabeça vai passando a imagem do fato azul imaculado, a gravata cinza que já não chegará ao quarto, o cabelo cuidadosamente desalinhado de badboy, a barba curta.
Já lhe adivinho a respiração quente no meu pescoço, os lábios húmidos… o cheiro… e com a pulsação desenfreada carrego mais no acelerador.
Entramos na garagem, ele novamente na frente.
No segundo seguinte já o estou a puxar pelo colarinho da camisa branca e provo-lhe o sorriso. Entramos no elevador sinto-lhe a mão quente e ligeiramente trémula a subir pela minha perna do lado de dentro da saia. Lanço-lhe um olhar lascivo e ele desaperta-me a meia de liga.
Do elevador saímos directamente no quarto alugado à hora. A urgência dos corpos não permite que percamos mais tempo, eleva-me nos braços…
Não falamos muito, nunca o fazemos, a conversa é sobrevalorizada. Quero-o apenas sorridente, quente, urgente.
Passados poucos minutos entramos no duche e com a água a percorrer-nos o corpo e os beijos a correm soltos degustamo-nos com toda a calma do mundo.
A meio da tarde avisei o João de que não poderia ir buscar a Filipa à escola, ele sabe que estamos com imenso trabalho…

dias

Do lado de lá do vidro a neblina e o frio intenso do Inverno. Fico muito tempo a olhar por esta janela. Ajeito a madeixa branca de cabelo que insiste em cair-me no rosto e fecho os olhos. Vejo tudo melhor quando os fecho.

Num passe de mágica era primavera, não sei de que ano, sei que estava um dia quente e solarengo. Não dei por te aproximares, senti apenas um leve toque no ombro esquerdo e quando me virei para trás, paraste com um sorriso rasgado e um olhar brilhante. Tinhas uma sweet shirt branca com letras (que diziam não sei o quê, a memória tem destas coisas) e gola num verde azeitona. Nunca ta tinha visto, mas ficava-te bem. O cabelo ligeiramente maior que o habitual, deixava visíveis os caracóis largos castanhos-claros onde eu adorava perder os meus dedos.
Não disseste nada, olhavas para mim e sorrias, como quem diz apenas: “estou aqui”.
Murmurei-te: “desculpa” e segui-o de um “amo-te” os dois num sussurro inaudível para que te concentrasses nos meus lábios jovens.
Respondeste-me um “amo-te” no mesmo tom, enquanto me agarravas pela mão.
Ficámos ali por um bom bocado, sentados ao sol a falar de mãos dadas.

Já não consigo ouvir-nos, a memória já não me permite ter a certeza do tom da tua voz, por isso recordo-te entre sussurros e sorrisos. O tempo levou o som, mas será impossível levar-te o sorriso.
Volto a ajeitar a madeixa branca enquanto me levanto e limpo os olhos ligeiramente humedecidos, é quase hora de almoço. Abro o frigorífico com um sorriso, sinto-me revigorada. A vida às vezes é tão simples!