híbridos

Viu-o por acaso, não era seu hábito ir ao café, muito menos àquele café. Entrou e sentiu-se paralisar de imediato. Não podia acreditar no que via. O seu filho adolescente que estava ali, sentado numa mesa a beijar outro rapaz. Demorou apenas alguns segundos a processar a informação e a sair rapidamente pelo mesmo caminho.
Não era uma pessoa preconceituosa, ou pelo menos nunca imaginou ser, mas deu por si a sair a grande velocidade do café já com as lágrimas a correrem soltas. É muito fácil ser-se liberal com os de fora, mas era o seu filho, o seu menino, nunca imaginou sequer que esta fosse uma possibilidade. Não fazia a mais pálida ideia de como abordar o assunto, nem com ele nem com o marido.
Ao longo das semanas seguintes manteve-se atordoada e em silêncio. Amava-o e iria apoiá-lo disso estava certa, mas estava triste não podia negar. Chorava até os netos que não iria ter.
Confusa, evitou o assunto quando ele lhe confessou que estava a namorar, só não foi possível ignorar quando numa sexta-feira entrou em casa e os encontrou aos dois na sala.
“Mãe, esta é a Maria, a minha namorada.”

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tentações

“E não nos deixeis cair em tentação” – murmuro, semicerrando os olhos.
Recosto-me e respiro fundo. É mais forte do que eu imaginar-te em mim. Suave, envolvente.
“E não nos deixeis cair em tentação” – repito-me, sem conseguir reprimir o desejo.
Sinto um ligeiro tremor, uma ansiedade crescente, uma inquietação.
“E não nos deixes cair em tentação” – suspiro, incapaz de conter um humedecer de lábios.
Todo o corpo me pede por ti. Consigo, na antecipação, adivinhar-te o sabor.
“Mas livrai-nos do mal” – suplico, enquanto cedo e te trinco.

mais uma

Bonito, cheio de vida e de lérias. Perdi-me de amores logo nas primeiras larachas. Nem consigo pôr em palavras o quanto me envaidecia ele dizer-me ao ouvido:
“Não te pintes, és tão bonita para te esconderes nessas coisas.”
Enchia-me de beijos e de flores e queria-me para ele, só para ele. Que mais podia eu desejar da vida? Tinha o homem dos meus sonhos completamente rendido de amores a meus pés, os dias eram todos em tons rosa e pastel, suaves, suaves.
Não namorámos muito tempo. Para quê?! Como ele sempre me dizia éramos perfeitos um para o outro, não havia porque perder tempo e eu, era tão mais feliz do que imaginava ser possível que casei. Logo. Um casamento de princesa, um vestido cravado de rendas e brilhantes, e a festa foi das maiores que a terra já viu. A família dele não era rica, mas muito bem remediada e os meus pais também não pouparam com a sua única filha. Aliás, os meus pais estava a ganhar um filho, um que eles adoravam. A minha mãe disse-me vezes sem conta para não o deixar fugir, achava-o diferente dos outros namoricos que eu tivera… tinha razão.
A gravidez, a primeira, veio pouco depois, ficámos tão felizes… ele ficou ainda mais dedicado. Acompanhava-me sempre, fosse eu às consultas do médico, ao centro comercial, ao supermercado ou à mercearia. No dia em que fiz a ecografia em que se viu que era uma menina, chorámos os dois de alegria a olhar para o monitor e a ouvir-lhe o coração, rápido, tão rápido. Nesse dia, fizemos um jantar lá em casa para comemorar. Ele esbanjou charme e sorrisos e bebeu uns copos, era dia de festa, o meu coração estava tão cheio de alegria que me parecia querer saltar do peito. Lembro-me como se fosse hoje, quando toda a gente se foi embora ele veio na minha direcção, com um olhar vermelho que não lhe conhecia e num movimento que não pude prever as costas da sua mão acertaram-me em cheio na bochecha direita.
“Não penses que não te vi a olhar para ele minha puta.” – Berrou-me. Parecia possuído. Nunca percebi quem era o ele. Mas também não lhe perguntei. As lágrimas corriam soltas pela minha bochecha marcada, a minha bochecha que latejava como se fosse explodir.
No dia seguinte chorámos juntos, ele pediu-me perdão, explicou-me que me amava tanto que não podia sequer pensar em perder-me, jurou que nunca mais aconteceria e que me iria recompensar. Quando contei à minha mãe, ela chorou comigo e aconselhou-me a ter calma. Ele era sempre tão meu amigo, tão dedicado, tão bom marido… disse-me que eu tinha uma vida boa e que não me podia esquecer que estava a poucos meses de ser mãe. Que seria de mim sem ele? E pronto, assim foi, perdoei-lhe e ele não me voltou a bater, até a Inês nascer.
Depois disso foi o de sempre, bateu-me todas as vezes que lhe apeteceu e eu apanhei. Evitava sair nos dias em que tinha o rosto marcado e sempre que alguém via eu justificava com um qualquer acidente caseiro. Depois ele passou a bater-me só no corpo, gostava de me atirar ao chão e jogar à bola. Eu enrolava-me toda e sentia as costelas a estalar. Mentalmente rezava para que se cansasse num instante e não me levasse para a cama a seguir… nem sempre tinha sorte… foi assim que veio o meu rapaz.
Aguentei tudo e nunca mais contei a ninguém nada do que se passava. Até que um dia, tinha a minha Inês uns cinco anitos, quando ele vem para me empurrar ela meteu-se na frente… partiu-lhe logo um braço. Nesse dia quando voltámos do hospital e depois dele adormecer enchi-me de coragem e liguei pela primeira vez para a APAV…

a ver se a gente se entende

Quando um maluco resolve assassinar 150 pessoas a bordo de um avião, quando alguns malucos resolvem caçar 148 miúdos dentro de uma faculdade, quando um grupo de cobardes apedreja, arrasta por um carro e depois incendeia uma mulher, quando um pai assassina o filho de meses à facada, quando um padrasto espanca uma menina de 2 anos até à morte, não se trata de depressão, não se trata de estarem abalados por a namorada ou a mulher os terem abandonado (essas malandras), não se trata de estarem bêbados ou drogados, não se trata de religião. São assassinos. São ruins. Ponto.