Hoje, a caminho de casa, distrai-me por segundos e fiquei perdida. Perdida no caminho de todos os dias. Sem saber onde estava e sem me lembrar em que parte do caminho ia, dei por mim a seguir em frente até perceber que estava a voltar para trás. Perdi-me entre duas rotundas afastadas entre si uns 400m. Foram apenas uns segundos. Um minuto no máximo. O suficiente para me assustar… muito!

em mim

Sentada na cama vejo e revejo os filmes que nem sabia, ou talvez tenha só esquecido, que tinha cá por casa. Os teus (nossos?), filmes. Os senhores da Meo deixaram-me outra vez sem serviço e enquanto aguardo as 48h para os matar, fico assim, sentada, envolta em mim. De alguma forma descubro que isto da net portátil lenta e de não saber do mundo não é necessariamente uma coisa má. Paris je t’aime é o grande destaque da tarde. Nunca o tinha visto, talvez porque esta minha vida agitada não me tenha dado tempo, talvez porque eu não amei Paris. Estivemos em Paris no ano em que o Pedro morreu, um ano em que eu não amei nada… mas também um ano em que a tua mão na minha e o teu silêncio me ensinou de novo a amar, a vida, a sorte e a falta dela, e o ano em que reaprendi a amar-te a ti. Pelo silêncio, pelas conversas regadas a vinho, pelas gargalhadas. Nunca, em nenhum momento paraste de me fazer rir. E a vida é assim, cheia de encontros e desencontros, ganhos e perdas, risos e choros, gargalhadas e silêncios. Silêncios profundos onde finalmente um dia nos escutamos, e hoje, sentada na cama, a ver filmes que desconhecia por cá, enquanto o sol se punha à minha direita, filtrado pelo vidro duplo, encontrei-me aos 39 anos, mais perdida do que nunca. Cansada. Absolutamente cansada. Não sei se fico nesta casa, não sei se me mudo para a cabana no Alentejo cultivo uma horta e viro hippie, não sei se mantenho a farsa de que tudo está bem e suporto com quem trabalho, não sei se continuo calmamente a receber o salário e compro aquela piscina que queria para a cabana. Não sei para onde vou, não sei por onde vou, não sei sequer por onde não quero ir. De certezas tenho só uma, quem quero levar comigo, o Tomás, meu inseparável, e quero levar-te a ti… a ti que me permites estes silêncios e estas fugas, este tempo em que sou só eu, algures em mim. Levo-te a ti a quem sou profundamente grata… a ti que te amo de forma calma, a única calma que vive em mim!