terapia

Deitei-me sobre a água e sem resistência deixei-me submergir. De lado ficaram as batalhas diárias, entregando-me àquela água aquecida pelo sol.
Exposto apenas o rosto. Os olhos abertos a contemplar o céu. Um céu maior, vestido de azul forte salpicado de algodão. O vento sem poder agredir-me o corpo submerso vingava-se rodopiando as nuvens brancas. Primeiro apenas vultos misteriosos, depois, no momento seguinte descodificava um objecto que logo em seguida se esbatia para dar lugar a outro e outro e outro. Numa inconstância que conheço tão bem.
Nos ouvidos afundados apenas o silêncio, a calma inventada no instante e as batidas do meu próprio coração numa vibração cada vez mais espaçada. Tum, tum… tum… tum…   tum…     tum…
E num passe de mágica, a minha natureza turbulenta transbordou para a água e perdeu-se no mundo, talvez arrastada pelo vento, acolhida num farrapo de algodão ou simplesmente afogada na água que entretanto me parecia cada vez menos quente.

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artur

De mãos nos olhos, virada para a parede caiada, gritava com dramatismo a plenos pulmões: “Três… dois… um… cá vou eu.” E saía em corrida a levantar uma nuvem de pó. Apenas os collants que insistiam em escorregar-me pelas pernas dificultavam os movimentos, mas nada que uns puxões, enquanto corria, não resolvessem. Gostava de começar por encontrar os que se escondiam mais longe, que é como quem diz, gostava de encontrar o Artur e de o vencer na corrida de volta à parede branca. Gostava de vencer os meninos e particularmente, gostava de vencer o Artur. Naquele dia encontrei-o encolhido atrás do pequeno muro do campo de futebol. Fitámo-nos e arrancámos velozes como o vento. Íamos ainda no início do percurso quando a grande tragédia se deu. Com o pé direito pisei o atacador do pé esquerdo e, catrapus, em cheio com o joelho numa pedra perdida na terra do caminho. Os collants amarelos deixaram primeiro ver a carne branca para logo em seguida se tingirem de vermelho. E eu, que era do mais rijo que havia na rua, engoli a custo os soluços, valente, mas não contive as lágrimas gordas que rolaram pelas bochechas e se perderam no pó solto do chão. Nesse dia não ganhei a corrida, mas ganhei a mão bondosa do Artur para me ajudar a levantar. Devíamos ter uns 6 ou 7 anos, não sei ao certo, sei que era Verão e que estava calor. Lembro-me dos seus olhos grandes, castanhos, no rosto franzino. Lembro-me do meu primeiro amor, do tempo em que éramos velozes como o vento e felizes.
Ontem, numa espécie de dejá vu, revi o Artur de olhos generosos no seu filho, que corria desenfreado rua abaixo atrás da Beatriz. Há imagens que nos apaziguam a alma.

dúvidas

Não tenho palavras novas, já quase nem velhas me restam quanto mais… tenho apenas dias que se sobrepõem, calcando-se uns aos outros desrespeitosamente e algures aqui na ponta dos dedos tenho ais, lamentos gemidos baixinho, que com o tempo se transformam em gritos faiscantes na pressa de sair. Tenho a folha branca na frente do nariz e o desejo de me projetar nela. Redescobrir-me nos mil tons camuflados em mim. Tenho nos ouvidos a agonia dos outros, alheios à minha e o desprezo perverso com que a recebo.
Tenho ainda, no final de cada dia, na boca o sorriso pronto, de pechisbeque, amarrado à incerteza de saber se esta angústia é realmente minha.

encontros

Onze horas. Agarro no telemóvel para poder entreter as mãos. A Maria Francisca foi para a porta mal me viu levantar do sofá. Ela sabe que é hora de ir à rua. Coloco-lhe a trela já no elevador e sinto um certo acelerar do ritmo cardíaco. Nas últimas semanas tenho saído sempre às onze horas. A ele sei que o vou encontrar entretido com um cigarro logo depois da primeira esquina, enquanto o seu rafeiro passeia sem trela. Todos os dias eu acelero o passo para o alcançar e todos os dias ele se deixa apanhar. Todos os dias acabamos a caminhar lado a lado enquanto o Nico mede a Maria Francisca. Todos os dias. Todos os dias lhe observo o anelar, vazio de trela. Todos os dias o deixo no mesmo local, na volta, acelerando o passo deixando-o para trás enquanto dobro a esquina. Todos os dias avançamos só um bocadinho naquela ida nocturna à rua. Todos os dias o sei casado, não que isso me importe…