artur

De mãos nos olhos, virada para a parede caiada, gritava com dramatismo a plenos pulmões: “Três… dois… um… cá vou eu.” E saía em corrida a levantar uma nuvem de pó. Apenas os collants que insistiam em escorregar-me pelas pernas dificultavam os movimentos, mas nada que uns puxões, enquanto corria, não resolvessem. Gostava de começar por encontrar os que se escondiam mais longe, que é como quem diz, gostava de encontrar o Artur e de o vencer na corrida de volta à parede branca. Gostava de vencer os meninos e particularmente, gostava de vencer o Artur. Naquele dia encontrei-o encolhido atrás do pequeno muro do campo de futebol. Fitámo-nos e arrancámos velozes como o vento. Íamos ainda no início do percurso quando a grande tragédia se deu. Com o pé direito pisei o atacador do pé esquerdo e, catrapus, em cheio com o joelho numa pedra perdida na terra do caminho. Os collants amarelos deixaram primeiro ver a carne branca para logo em seguida se tingirem de vermelho. E eu, que era do mais rijo que havia na rua, engoli a custo os soluços, valente, mas não contive as lágrimas gordas que rolaram pelas bochechas e se perderam no pó solto do chão. Nesse dia não ganhei a corrida, mas ganhei a mão bondosa do Artur para me ajudar a levantar. Devíamos ter uns 6 ou 7 anos, não sei ao certo, sei que era Verão e que estava calor. Lembro-me dos seus olhos grandes, castanhos, no rosto franzino. Lembro-me do meu primeiro amor, do tempo em que éramos velozes como o vento e felizes.
Ontem, numa espécie de dejá vu, revi o Artur de olhos generosos no seu filho, que corria desenfreado rua abaixo atrás da Beatriz. Há imagens que nos apaziguam a alma.

4 thoughts on “artur

  1. 🙂 obrigada. No fundo trata-se apenas de mais do mesmo. Mas todos tivemos um primeiro amor, provavelmente diferente em tudo do que temos hoje, mas o primeiro amor e feito de alegrias e tragédias que devemos celebrar, recordações para apaziguar a alma. Este não foi o meu primeiro amor, esta não e a minha historia, mas deve ser a de alguém… como e a tua? Conta aqui,😉 que ninguém nos ouve, o teu primeiro amor.

  2. “Conhecemo-nos quando tínhamos cerca de três anos. Ele chamava-se Tito. Lembro-me que era moreno de olhos castanhos, com o cabelo um pouco caído. Lembro-me que era giro para os meus padrões da altura. Lembro-me que usava um chapéu à marinheiro. Faria ele o sucesso dos marinheiros e das mil aventuras? Lembro-me que éramos muitos parecidos e isso acabou por nos juntar. E foi assim que passámos a namorados… Alguém acreditará que os namorados dessa altura não se esquecem?!
    Os caminhos separaram-se mas reencontramo-nos num Verão de praia, uns anos mais tarde, ainda em criança. Teríamos os nossos 8 ou 9 anos. Ele continuava a ser o Tito para mim, aquele de há anos atrás, aquele por quem tinha um sentimento diferente, aquele por quem chamava meu…
    Nunca mais o vi desde esses dias, e já se passaram mais de 40 anos… Mas hoje cruzei-me com ele em sonhos. Dentro dos seus 50 anos, não o reconheci. Como poderia?! Mas acordei com a imagem dele, uma imagem que não será real mas que o foi naqueles segundos… Acordei com a imagem daquele homem que me marcou sem saber, daquele primeiro amor que me acompanhou a vida inteira…
    Pergunto-me por ele, como será ou o que fará? Pergunto-me se terá família, amigos ou conhecidos por perto. Pergunto-me se foi feliz como eu não fui… Pergunto-me por ele e se ele se lembrará dos tempos em que era o meu marinheiro. ” (28 julho 2009)

  3. escusado será dizer que voltei ao Ticho e que esse regresso de alguma forma me deixa emocionada. saudades!
    Na altura respondi-te assim:

    “marta29/07/09, 16:53

    Adorei!
    Este teu marinheio é teu, mas também é meu e certamente de quase todos os que passam por aqui. Todos, ou quase todos, teremos um marinheiro algures lá atrás.
    É bom ler-te neste registo. É bom que ninguém esteja morto… será bom um dia destes quando o final se transformar nisto: “Pergunto-me se foi feliz como eu fui…”

    Beijo grande primota e parabéns pelo post!”

    Acho que hoje já estás em condições de reescrever o final. beijoca cheia de saudades tuas e do Ticho!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s