aurora

Ao contrário do que seria de esperar, naquele dia, com o nascer da Aurora o mundo apenas entristeceu, num tom baço e frio de cinzento. Um dia Invernoso em plena Primavera, como se até as flores se tapassem com as suas pétalas, para se protegerem do sol que não raiava. De alguma forma todos o percebemos pelo calafrio que nos percorreu a espinha à sua observação. Lembro-me bem desse dia, lembro-me do desconforto que senti logo nos seus primeiros segundos, da inexplicável sensação que senti na pele, como se todo o meu corpo se retraísse ao seu contacto e, ao longo dos anos, enquanto as noticias nos foram chegando confirmei o que de alguma forma soube logo ao fazer-lhe o parto. Chamaram-lhe Aurora, mas tratava-se de um demónio.

maçãs

Faltavam 20 minutos para as 9 da manhã eram horas de fazer as contas aos primeiros trocos. Já devia dar para alguma coisa. Contou. Oito euros e noventa cêntimos, quatro cigarros, dos quais já tinha fumado um, uma maçã e uma banana. A banana comeu-a a caminho do Indiano e a maçã guardou-a para dar ao miúdo que costumava aparecer ao final da tarde. Já não tinha dentes capazes de comer maçãs e a banana era o que chegava. O puto precisava mais do que ele, ainda estava a crescer. Andava curioso, o puto tinha bom ar, que raio faria nesta vida?! Andava curioso, mas não lhe perguntava, tinha aprendido com os anos que há perguntas que simplesmente não se fazem. Dava-lhe sempre umas frutas mais rijas que já não conseguia comer e às vezes, quando os dias corriam bem dava-lhe uns euros. Antes dá-los ao puto que ser roubado durante a noite pela malta de Alcântara, uns janados que apareciam às tantas da madrugada. Foi com esse pensamento que desceu a Rua do Remédios, passou pelo Museu do Fado e chegou à Rua do Terreiro do Trigo onde o Indiano Rasik lhe vendia invariavelmente as primeiras duas cervejas do dia. Às vezes comprava qualquer coisa para comer, outros dias comprava tabaco, mas o que nunca mudava era a cerveja. Duas latas de 33. As que mais ansiava e que bebia de enfiada para lhe davam a primeira invisibilidade do dia. Já se habituara ao frio e ao calor, já tinha a pele curtida e, a fome já se habituara a falar com ela, mas a primeira hora da manhã em que pedia e ainda não tinha bebido era um martírio. Perceber na réstia de lucidez que possuía, a pena, o medo, o nojo com que o olhavam matava-o todos os dias, muito mais que o álcool em que se encharcava. Depois das primeiras cervejas tudo era mais fácil.
Não nascera assim, despido de aprumo e de dignidade. Não. Em tempos, também ele deu trocos e maçãs ao mendigo que pedia nos semáforos que davam para a Av. de Berlim, quando ia caminho da faculdade. Tinha estudado e viajado e amado e partido corações até que um dia alguém lhe partiu o dele. Não a culpava, ela tinha tido razão para ir embora… depois disso foi tudo muito rápido, primeiro perdeu o emprego, depois a casa e depois… foi tão fácil de acontecer, que quando deu por si estava na rua a beber todos os dias para se esquecer de quem tinha sido.
Levou a mão à boca para abafar o arroto que lhe chegou com o último golo de cerveja e de olhar cinzento e corpo encarquilhado encaminhou o Corsa que se debatia com um lugar onde cabia um Astra.

milagres

Hoje preciso de colo, que me digas que vai tudo correr bem e me faças dormir. Preciso que me adivinhes, que percebas em mim as maleitas silenciosas e fatais de que te não falo e que as afugentes. Não quero romance, nem flores, nem chocolates, nem danças, imagina tu que hoje nem sequer quero que me faças rir. Preciso apenas de um passe de mágica e de sono, tranquilo, sem sonho nenhum do qual eu possa acordar. Hoje só preciso de fantasia, de acreditar. Embala-me o sono e faz-me acordar uns bons anos mais nova. Não, não penses que o que me atormenta são as rugas ou os quilos ou o cansaço. Não. Quero apenas poder reencontrar-te num capricho do destino e perder-me de amores. Redescobrir-te os traços e reescrever a história. Hoje só preciso de coisas simples, de milagres, de ti!

migrantes

A MJ falava de foto que chocou o mundo (da criança morta na praia, que eu não vou partilhar), e eu acabei por comentar por lá. Depois de o fazer percebi que mais que um comentário é uma tomada de posição e como tal vou publicá-lo aqui, é assim:

Sim, a imagem choca-me, mas confesso que não mais do que tantas outras que têm chegado até nós, como me choca profundamente o desespero que é preciso para que famílias inteiras se coloquem dentro de barcos de borracha a atravessar o mediterrâneo ou prensados em porões de navios, prensados o suficiente para morrerem esmagados ou asfixiados. Choca-me que esses, os que se fazem à sorte (com uma probabilidade enorme de morrerem na viagem) durante meses em busca da Europa sejam os que de alguma forma tinham alguma coisa, os realmente pobres não tem como pagar aos traficantes que os “encaminham” mar adentro. Chocada estou há muito tempo, não é de ontem.
Mas devo confessar que ainda me choca mais, que dentro de um desses barcos onde supostamente vivem todos o mesmo desespero e fogem todos dos mesmos radicais, existam uns quantos que resolvam atirar outros ao mar porque, imagine-se, são cristãos.
Com toda a franqueza não os quero no meu quintal. Sinto-me numa Europa que está a ser colonizada por muçulmanos. Sinto que os que chegam não querem as nossas regras nem os nossos hábitos mas querem que adoptemos os deles. Sinto-o, e isso, desculpem lá, isso também me choca. Choca-me que muitos acreditem que cristãos devem morrer, tal como homossexuais ou mulheres adulteras (por adulteras entenda-se que foram ao supermercado sozinhas ou ao cinema). Choca-me que muitos sintam orgulho em filhos que se fazem explodir para matar os infiéis (não se esqueçam que os infiéis somos nós).
Quantos radicais estamos a instalar Europa fora? Quantos estamos a financiar e quantos de nós vamos morrer às suas mãos? Estou a ser egoísta e a pensar no meu umbigo? Estou e então?