maçãs

Faltavam 20 minutos para as 9 da manhã eram horas de fazer as contas aos primeiros trocos. Já devia dar para alguma coisa. Contou. Oito euros e noventa cêntimos, quatro cigarros, dos quais já tinha fumado um, uma maçã e uma banana. A banana comeu-a a caminho do Indiano e a maçã guardou-a para dar ao miúdo que costumava aparecer ao final da tarde. Já não tinha dentes capazes de comer maçãs e a banana era o que chegava. O puto precisava mais do que ele, ainda estava a crescer. Andava curioso, o puto tinha bom ar, que raio faria nesta vida?! Andava curioso, mas não lhe perguntava, tinha aprendido com os anos que há perguntas que simplesmente não se fazem. Dava-lhe sempre umas frutas mais rijas que já não conseguia comer e às vezes, quando os dias corriam bem dava-lhe uns euros. Antes dá-los ao puto que ser roubado durante a noite pela malta de Alcântara, uns janados que apareciam às tantas da madrugada. Foi com esse pensamento que desceu a Rua do Remédios, passou pelo Museu do Fado e chegou à Rua do Terreiro do Trigo onde o Indiano Rasik lhe vendia invariavelmente as primeiras duas cervejas do dia. Às vezes comprava qualquer coisa para comer, outros dias comprava tabaco, mas o que nunca mudava era a cerveja. Duas latas de 33. As que mais ansiava e que bebia de enfiada para lhe davam a primeira invisibilidade do dia. Já se habituara ao frio e ao calor, já tinha a pele curtida e, a fome já se habituara a falar com ela, mas a primeira hora da manhã em que pedia e ainda não tinha bebido era um martírio. Perceber na réstia de lucidez que possuía, a pena, o medo, o nojo com que o olhavam matava-o todos os dias, muito mais que o álcool em que se encharcava. Depois das primeiras cervejas tudo era mais fácil.
Não nascera assim, despido de aprumo e de dignidade. Não. Em tempos, também ele deu trocos e maçãs ao mendigo que pedia nos semáforos que davam para a Av. de Berlim, quando ia caminho da faculdade. Tinha estudado e viajado e amado e partido corações até que um dia alguém lhe partiu o dele. Não a culpava, ela tinha tido razão para ir embora… depois disso foi tudo muito rápido, primeiro perdeu o emprego, depois a casa e depois… foi tão fácil de acontecer, que quando deu por si estava na rua a beber todos os dias para se esquecer de quem tinha sido.
Levou a mão à boca para abafar o arroto que lhe chegou com o último golo de cerveja e de olhar cinzento e corpo encarquilhado encaminhou o Corsa que se debatia com um lugar onde cabia um Astra.

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4 thoughts on “maçãs

  1. Gosto tanto quando dás essa visibilidade às pessoas por quem passámos todos os dias e olhámos de forma indiferente ou até com desprezo. É o lado da moeda que não queremos ver e que nos pode calhar…

  2. Sim. Acho que tens razão.
    Este texto não nasce propriamente do acaso. Outro dia qd sai do carro senti o cheiro, depois vi a cama em cima de um banco e depois vi-o a ele… alguém escondido num corpo que imagino muito diferente do que foi… lembrei-me do mendigo dos semáforos quando eu ia a caminho do Isel… lembro-me de lhe dar trocos, cigarros e maçãs. Ele dormia debaixo da 2ª circular, quase a chegar ao aeroporto… um dia ele deixou de aparecer, depois desapareceram os semáforos… não sei bem porquê, mas nunca me esqueci dele… talvez por o ter olhado nos olhos…

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