acho que já escrevi isto antes

Hoje falei do Alentejo e lembrei-me do tanto e do tão pouco que tenho escrito sobre a terra que me viu crescer. Fiquei nostálgica e à falta de melhor resolvi recordar um texto antigo, dos que mais me cheira a Alentejo, o Ti Chico da Horta, um velho franzino, curvado pelos anos e encarquilhado pelo sol. Alguém que podia ter escolhido ser amargo e preferiu manter-se doce. É um personagem como tantos outros, mas é talvez dos que eu mais respeitei, consegui ver-lhe os olhos, sentir-lhe o calor da mão calejada, e hoje senti-lhe saudades.

Já sei que vocês, ambas as duas, já o leram, mas aqui fica de qualquer forma…

ti chico da horta

Saía de casa por vezes ainda antes do sol nascer. Eram três quilómetros que palmilhava na ida e outros tantos na vinda. Andava em passo sereno, já não era novo e as pressas eram para os novos. Havia dias em que percorria o caminho na sua pasteleira, mas eram poucos, gostava de andar. Se soubesse o que quer dizer terapia ter-lhe-ia chamado isso, assim, dizia que era o seu tempo de pensar na vida. Era certo que muitos dias lutava com a chuva, com o vento, com o frio que lhe gretava os lábios, mas não era menos verdade que era nesses elementos que se sentia em casa. Começara na lavoura aos sete anos, não conhecia outra vida e aqueles quilómetros eram o seu tesouro.
Invariavelmente levava a marmita na mão esquerda e um assobio nos lábios. Velhas cantigas que ouvira quando jovem, da boca de uma bela mulher de olhos cor de mel.
Lembro-me de sempre o ter visto durante os Verões que passava na herdade, lembro-me que sempre o vi velho.
Para evitar o sermão que chegava pela boca de qualquer um lá em casa, quando me viam atrás do Ti Chico da horta, eu passei a fazer parte do caminho de volta a casa com ele. Acompanhava-o até meio na minha bicicleta e depois voltava para trás por outro atalho. Foi assim desde os meus dez anos. Quando comecei a ter os meus namoricos, passou a ser meu confidente, o meu amigo secreto. Depois de adulta acompanhava-o a pé, por vezes dando-lhe o braço, mas permanecia uma amizade secreta sem que eu soubesse bem porquê.
A sua companheira, conhecera-a numa apanha da azeitona.
“Era moça rija!” – Dizia-me com os olhos brilhantes de admiração.
O casamento sucedeu o curto namoro e logo depois veio a gravidez.
“Eram outros tempos, não havia cá doutores… como o pai da menina.” – Contava com mágoa e resignação, enquanto recordava olhando o vazio da planície os últimos momentos da mulher desgastada pelo esforço do parto.
“Se fosse outra não tinha conseguido parir o rapaz… mas ela era rija… ainda o teve nos braços e tudo…” – Acrescentava com os olhos marejados de lágrimas.
“E nunca pensou em casar outra vez?”
“ Não menina… eu lá ia encontrar outra como ela!” – suspirou em resposta no único dia que lho perguntei.
Do filho não falava, apenas um dia me confidenciou que o entregara para servir na casa de uns senhores, tinha ele acabado a escola primária. Queria que o rapaz estudasse e fosse alguém e eles não eram má gente e não tinham filhos…
“Foi o melhor!” – Afirmou com convicção.
“Não o voltou a ver?”
“Já chega de falar de mim menina, conte-me lá desse moço que eu ando ralado consigo.” – E com isto ele deu o assunto por encerrado e eu não insisti.

Não fosse a velha Balbina há dois anos atrás, mexeriqueira e a ficar senil como só ela, a quem a propósito estou muito grata, e eu nunca saberia quem é realmente o velho Chico da horta e nunca escreveria este conto.
Li-lho na minha casa, onde vive praticamente desde aquele dia, comigo e com o bisneto.

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