finados

A aldeia amanheceu cinzenta. O Ti Chico abriu a tasca que por um corredor estreito se liga à mercearia, a única num raio de 6 ou 7 km, passava pouco das 6 da manhã. Os únicos clientes são os homens, os que vão para as obras, para longe, que precisam de um café com um cheirinho, para ganharem força para a jornada que se vai prolongar pelo dia fora. Noutros tempos havia a lavoura, acabaram com tudo, agora há meia dúzia de vinhas e um rancho de mulheres dá conta do recado. A Maria das flores também abriu a loja cedinho para receber a carrinha das flores frescas, hoje em maior quantidade, é dia de finados. Não tarda tem as mulheres todas da aldeia a fazerem-lhe fila à porta, para depois irem em romaria até ao pequeno cemitério que fica a uns 2 km. Enquanto o seu Jaquim foi vivo, em dia de finados vendia à porta do cemitério, ele leva as tábuas no dia anterior e montava a banca, mas agora, sozinha, já não tem saúde para isso. Sente-se velha e cansada e o negócio vai um dia finar-se com ela. Mal descarregou as flores guardou dois molhos de crisântemos e uma rosa vermelha. Desde que o seu Jaquim se foi que no final do dia, pouco antes do Filipe couveiro fechar as portas, ela vai visitá-lo e oferecer-lhe um ramo de crisântemos. Vai, mas não vai sozinha, a Júlia da Nora acompanha-a em passo lento, leva também ela um ramo de crisântemos para o Zé da Nora, com quem foi casada por mais de 40 anos e uma rosa, vermelha, que deposita em cima da campa do único homem que algum dia amou, uma rosa singela, que deposita cuidadosamente em cima do mármore gelado na esperança que o vento a leve durante a noite, como um dia lho levou, tão cedo, a ele.
Pelo postigo entreaberto para o largo, a Júlia, viu o Ti Chico fechar a tasca, já depois das 10 e uma a uma as luzes apagarem-se, o fumo das chaminés perder-se nos astros e esperou, acordada, a chegada da chuva, miudinha acompanhada pelo vento que assobiava na chaminé.
A aldeia amanheceu cinzenta, naquele dia de finados, e adormeceu com uma rosa entregue na ventania.

4 thoughts on “finados

  1. Talvez seja isso, um olho permanente atrás de uma cortina de uma janela de aldeia, onde todos se conhecem, todos sabem, todos falam… e os segredos e dores ocultas de cada um, que também todos sabem, mas fingem não saber. Obrigada por teres gostado.🙂

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