que seja rápido

Acordou com o barulho do vinho ao tropeção pela escada. Quando vinha vinho, ela sabia o que a esperava. 02:36h dizia o relógio na mesinha de cabeceira. Fechou os olhos e ficou imóvel debaixo dos lençóis. “Que não seja nada, se for que seja rápido.” Dizia para si, em murmúrios que engolia como calmantes, enquanto o medo se apoderava de si e as entranhas se contraiam. “Que não seja nada, se for que seja rápido.” Repetia, enquanto ele entrava no quarto e lhe arrancava os lençóis de cima. “Que seja rápido.” Ecoava agora pelo seu corpo. Nenhuma palavra, apenas o cheiro azedo a vinho e cigarros, o bafo podre. Apenas puxões e as calças do pijama atiradas para longe. No segundo seguinte sentiu-o pesado e arfante a rasgar-lhe a alma. Não lhe resistiu, já não lutava, ficava apenas ali. “Que seja rápido.” De olhos cerrados, encurralando as lágrimas, nem essas ele merecia. Não lhe daria mais o prazer de lutar, de pedir, de implorar. “Que seja rápido.” Não queria que os gaiatos acordassem. “Que seja rápido.” O suor dele perfurava-lhe o rosto e misturava-se com uma lágrima teimosa que tentava libertar-se. “Que seja rápido.” Mas nunca mais acabava, pisava-lhe a carne ainda dorida de há 3 dias. “Que seja rápido.” Espreitou-o por uma nesga de olho. Porco.
02:54h anunciava o relógio quando finalmente se escapuliu para a casa de banho. “Que morras depressa.” Rezava, enquanto limpava um pequeno fio de sangue com papel higiénico.

tag: descobrindo novos blogs

O Samokal desafiou e eu aceitei. Não tenho um novo blog, mas é quase como se fosse. 🙂

1. Qual o “porquê” do teu blog?

O primeiro blog foi uma terapia, uma forma de contar ao mundo o que não contava aos meus. Com o tempo percebi que as confissões eram cada vez mais raras, mas que gostava de fantasiar, transformar-me noutros e contar essas histórias que não sendo necessariamente minhas tinham algo meu. O conto nasceu assim, com histórias contadas muitas vezes na primeira pessoa, seja lá quem for essa pessoa.

2. Qual a melhor revelação que o teu blog te fez?

As pessoas, as que vieram e ficaram. O CD que encontrei por acaso e que ficou, embora agora na vida e não no blog. A Cátia, a Cris, a Ana, a Carla, tudo gente que encontrei aqui e que fazem parte importante da minha vida.

3. O que fazes para trazer novos conteúdos para o blog?

Nada. Aqui não há novos conteúdos, apenas devaneios, é um blog maioritariamente de ficção e de inspiração ou falta dela.

4. O que gostarias de alcançar com o teu blog?

Não tenho pretensão de alcançar coisa nenhuma e ainda assim, como disse no ponto 2, já recebi muito. O blog é um exercício de abstração e egoísmo, um desafio para escrever pequenas mensagens, confissões, desabafos, críticas, sonhos, desejos, etc., camuflados. O blog são pequenos nadas absolutamente meus, dos muitos bichos que vivem em mim.

5. O que te leva a seguir um blog/página?

O conteúdo, o tipo de escrita e acima de tudo a personagem que leio no blog e com o tempo a pessoa que se começa a perceber para lá do óbvio.

6. Gostas mais de escrever ou de ser lido?

Gosto mais de escrever. Escrevo essencialmente para mim, até porque uma boa parte do que escrevo, além dos problemas gramaticais, deve ser tão obtuso e desajustado que só eu percebo onde quero chegar. O que não invalida que goste de ter quem me leia e de receber comentários.

7. Qual foi a maior surpresa (boa ou má) que a vida adulta te trouxe?

A maior surpresa é mesmo a vida. Gosto de viver, de comer, de beber, de viajar, de amar. Gosto de viver ponto.

8. Qual é a tua maior paixão na vida?

Tenho muitas, sou de muitos amores.

9. Qual o hábito diário de qual não prescindes?

Sou um bicho de hábitos, mas o maior, que é mesmo um vício é o 1º café da manhã. Fico mal fisicamente sem ele.

10. Se pudesses viajar no tempo, escolhias ir para o passado ou para o futuro? Porquê?

Iria ao passado, por dois motivos, gosto da incerteza do futuro, da página em branco onde tanto posso escrever uma obra de arte como a cagáda do costume, mas principalmente, porque tenho no passado muitas palavras por dizer e muitos abraços que nunca mais poderei dar.

reencontros

O telemóvel pessoal depositado em cima da secretária, de forma perfeitamente mecanizada pela manhã, começou a vibrar. Enquanto me preparava para o atender olhei o sorriso emoldurado do Francisco e da Maria, os meus tesouros, a quem amo com todas as minhas forças.
Olhei para o visor, Gonçalo, dizia, Gonçalo sem o Almeida que sei que se segue, mas que não escrevi há vinte anos quando o gravei no cartão. Para quê?! Gonçalo, apenas ele era assim, sem sobrenome e sem aviso, a quem também não precisava propriamente de me anunciar. Estremeci ligeiramente, não nos falávamos há muito tempo.
“Olá minha querida!” – Ouvi de imediato num timbre ainda familiar. – “Vou passar ao lado do teu escritório daqui a pouco. Almoças comigo?”
“Claro!” Respondi sem a menor hesitação. Tinha saudades dele, do amigo que sempre fora.
Almoçámos e conversámos como se nos tivéssemos encontrado na semana anterior, falámos dos filhos e dos respectivos, como se algum dia os tivéssemos visto e nos tratássemos todos por tu. Em nenhum momento falámos do passado, havia tanto a contar do presente, tantas coisas pequeninas do dia a dia que percebíamos tão bem. O tempo voou, como sempre acontece quando o partilhamos com os que amamos.
Já no estacionamento, enquanto nos despedíamos com um abraço apertado, ele deixou os lábios roçarem demoradamente a minha orelha e sussurrou: “… ainda te comia…” Soltei uma gargalhada, saímos cada um no seu carro e seguimos as nossas vidas tão distintas e tão idênticas.