prioridades

Adoro este país. Se por um acaso passar numa obra e um dos trolhas me disser: “ o teu pai deve ser construtor, tens um cu que é obra” (uma obra cada vez maior), eu posso mandar prendê-lo por me sentir assediada. Já se o meu marido me ameaçar de morte, eu devo ficar quietinha à espera, para ver se ele afinal estava na brincadeira.
Gosto! Gosto muito deste pais que se excita com o fim do piropo. Gosto destes políticos cheios de boa vontade e ideias melhores ainda. Bardamerda!

natais

O Natal este ano voltou a ser cá em casa. Gosto que o Natal seja aqui, na minha casa com alguns dos que amo. Tenho um coração grande, cabem mais do que estes 11 que aqui estiveram comigo, bem mais, mas nem sempre lhes digo, porque sou má com as palavras e porque sou má com as pessoas, que é muito diferente de ser má pessoa. O Natal foi aqui em casa, uma vez mais foi a correria entre o trabalho, o supermercado, a cozinha e o aspirador. Gosto do Natal. Do meu Natal dos enjeitados. Eu, os meus pais que estão longe da outra filha, os meus tios cuja filha passa o serão com a família do marido, a minha tia viúva, a minha prima solteira, os tios que não o são e que não tem filhos e, este ano o CD e o irmão, porque primeiro tinham perdido a mãe e este ano perderam o pai. Dito assim parece triste, mas não é. Rimos muito, contamos anedotas, comemos que nem uns alarves, bebemos vinho, ganhamos quilos e recuperamos anos de vida, desses que nos vão roubando vilmente ao longo do ano, pelo cansaço, pela maldade e pelo descrédito. Estamos juntos e somos felizes à nossa maneira, na nossa forma particular de ver e viver a vida. E hoje que o Natal já acabou, embora a mesa continue posta e o frigorifico esteja cheio de restos salgados e doces, hoje a casa é só minha, minha e do Tomás, que dorme ao sol enquanto a roupa seca no estendal. Hoje preciso desesperadamente desta solidão para recuperar de toda a alegria e toda a felicidade destes dias. Hoje preciso ser apenas eu aqui, a mastigar este resto rijo e retardado deste ano ruim. Hoje preciso ser apenas eu, a pensar neste ano que ai vem e que eu não faço a mais pálida ideia de como vai ser… e isso tem tanto de assustador como de excitante.

desejos para 2016

Querido Pai Natal,

Espero encontrar-te bem de saúde, a ti e aos teus. Nós por cá bem felizmente.
Sei que não és tu que tratas destas coisas dos desejos, mas como não sei quem é o responsável por esse departamento falo contigo. Eras tu ou o São Pedro, mas ando cá aborrecida com ele por não me mandar chuva, e olha, a modos que calhou-te a ti. Vê lá o que podes fazer.
Vou ser muito franca contigo. Tu vê lá se me curas o Zezinho, ando muito ralada com ele, passa a vida a ir visitar um amigo, diz ele que é por causa de uma rapariga, mas o que eu sei é que o armário dele tá cheio de fotografias do tal amigo e de roupas estranhas. Se não o conseguires curar não deixes o meu Libório descobrir uma coisa destas, por muito menos já o ameaçou de lhe dar com uma garrafa no focinho.
Dá também um jeitinho na minha Mj, a gaiata saiu-me ao pai, anda muito mal do intestino. Como sabes ela está-me pra casar pró ano, eu até tremo só de pensar que ela um dia se descuida e o rapaz ainda desiste e lá me fica encalhada. Já agora, se não a puderes curar não deixes o rapaz descobrir isto antes do casamento.
O patrão do meu Libório este ano não lhe deu subsídio de Natal, deu-lhe uns cupões do supermercado, diz que é a mesma coisa, mas não é, eu tinha destinado comprar um penico de loiça, daqueles que não amarelecem com o tempo, porque o balde que o Libório usa de noite já não está grande espingarda. Já o tentei desencardir com tudo, lixivia, detergente, até tentei usar amaciador, podia ser que amolecesse, mas nada. O cheiro resolve-se com sumo de limão, mas o amarelo… tenta lá arranjar-me um penico dos bons.
E agora olha, vou pedir umas coisitas pra mim, coisa pouca, mas apetecia-me assim uns mimos.
Queria umas cuecas daquelas que sobem até às mamas e as empurram pra cima. Não sei o nome, aquilo parece um fato de banho, tás a ver?! Se o meu Libório me vê metida numa coisa daquelas, assim a imitar o pelo dos animais, ai menino, só de pensar nisso até me dá uns calores.
Também gostava de ter umas botas de cano alto como as que o Zezinho tem no armário e uma coisa daquelas de tapar os olhos. O gaiato às vezes é estranho, mas é indiscutível que tem bom gosto.
Além disto é o que já sabes, dá-nos saúde, algum dinheiro em vez de cupões de supermercado e ilumina lá os do governo para ver se nos devolvem os feriados.

Beijinhos à Graciete e obrigada por tudo,

Clotilde Rosa.

Eh pá, até já me estava a esquecer. Fala lá tu com o São Pedro, a ver se vem a chuva que as couves este ano nem cresceram como deve ser pro Natal.

Inspirado aqui

que se foda

Ouço a tempestade ao longe. Sinto-a aproximar-se e como qualquer herói corro a defender o forte, não espera, tenho uma ideia melhor. Procuro na mala. Hum… Diazepam. Valdispert ou mentos é parecido e o Xanax larguei-o em parte incerta. Seja então, Diazepam. Servia-me também um copo de vinho, mas é mais fácil trazer lamelas de químicos na mala.
Sinto a tempestade cada vez mais perto. Sinto-me tão leve que temo ir na ventania.
Estou cansada, doente desta gente, numa doença que melhora a cada sexta e se torna praticamente letal aos domingos à noite.
Queria poder ser eu outra vez, sem lamelas de ansiolíticos na bolsa dos tampões. Queria ter coragem de me levantar, sorrir e pedir-lhes o favor de se irem foder. Bater a porta e esquecer o caminho.
A tempestade chega. Dormente como estou mantenho o sorriso na direcção do monitor. É um sorriso fingido, falso como tudo ao meu redor. Nem dou o peito às balas, nem imploro clemência, estou tão leve que um dia destes deixo-me ir na ventania. Que se foda.

acho que já escrevi isto antes

entendo?

Não te entendo, quando a troco de nada, que bem pode ser tudo, paras e pensas ou pensas e paras e vais e ficas e voltas e vens. Rodeias-me e calas e paras e pensas e pensas e pensas… e não falas!
Não me entendes, quando a troco de nada, que para mim bem pode ser tudo, estremeço e grito e falo e não penso e não paro e não vejo e não vou e não fico! Enlaço-te, desfaço-te e sigo e não paro e não calo e não penso e não penso e não penso… não consigo!
E só assim nos entendemos, no completar dos movimentos, dos momentos… só assim, porque não paro e não penso e não calo, só assim te sigo e consigo ouvir o que gritas quando calas e falas… só contigo!

(não sei escrever-te, és mais, muito mais… o meu pilar, o meu amigo, o meu amante, uma réstia de sanidade, um porto de abrigo, e eu, tonta, escrevo-te pouco… não consigo)