avó Mariana

Não foste o meu primeiro amor, mas estou certa de que serás o último. Enquanto encosto a cabeça no teu ombro, os teus braços me aconchegam o longo vestido branco e me conduzem pela melodia, recordo a avó Mariana e os Verões passados com ela na casa velha.
Depois do pequeno-almoço abria-se a porta pesada de madeira que dava para as escadas de pedra e eu estava livre para me dedicar à caça das osgas que espreitavam o sol nas gretas das pedras. Munida de uma arma complexa, um pau fininho, tentava inutilmente trespassá-las. Quem as devia caçar era o Pantufa, o gato, que eu batizei em homenagem ao cão da Anita, mas o preguiçoso preferia deitar-se ao sol na escada, qual osga, ou fugir de mim. Portanto, só eu podia proteger a avó Mariana do que ela apelidava de “bichos nojentos”.
As tardes eram passadas dentro de portas. O corredor largo que ligava as diversas divisões era o meu preferido. O velho soalho de madeira, ondulado pelos anos, movimentava-se e gemia debaixo dos meus pés e tanto podia correr-lhe em cima, desaforada, como rodopiar, angelical, ao som da música que chegava da sala verde onde a avó Mariana bordava junto à janela. Do avô Ernesto não tinha memória. Morrera pouco depois de eu nascer.
Às vezes ao final da tarde enquanto bebia chá da lúcia lima que vivia no canteiro ao lado da escada e o seu olhar se perdia para lá da janela adornada pelo grosso cortinado verde, vislumbrava-lhe uma pequena lágrima.
“Está triste avó?” – Perguntava-lhe a meio de um rodopio.
“Não Joaninha, estava a ver-te dançar e a lembrar-me do avô.” – Respondia-me enquanto se levantava e vinha dançar comigo. – “Estás a ficar uma mulherzinha. Um dia destes vais apaixonar-te.”
“E vou casar-me e ser muito feliz como os avós?”
“Claro que sim minha filha, o amor é simples, só precisas de escolher alguém com quem gostes sempre de dançar.”

margarida #13

Agarrou a chávena de café fumegante com as duas mãos, tinha frio e a lareira ainda estava apagada e a cinza do serão anterior por limpar.
Sentada na mesa em frente à janela contemplava o cenário de conto de fadas, enquanto aquecia as mãos. O dia claro em que amanheceu contrastava com o da aldeia lá em baixo, envolvida numa nuvem branca de neblina. Via as árvores mais altas espreitarem por cima da nuvem, como que em bicos de pés para espreitar o sol que inundava o cabeço. Queria fazer como elas, camuflar-se na neblina e descobri-lo lá em baixo, a amanhecer no nevoeiro.
Não o tinha voltado a ver. O Inverno estava a chegar ao fim, tinha passado o que lhe parecia uma eternidade e sentia-lhe a falta. Tinha mudado muita coisa. Agora, de vez em quando deixava o Chico da mercearia fazer conversa, já todos sabiam quem era e apesar de uma ou outra pergunta mais indiscreta, todos deixavam o passado no lugar dele, achava mesmo que começava uma amizade discreta com a Ana, a miúda do café, mãe de 3 filhos e com quem não tinha nada em comum. Gostava de a ouvir. Gostava de perceber a alegria com que a Ana encarava a vida, uma vida cheia de trabalho e pouco conforto, mas uma vida cheia, feliz. Gostava de a ouvir, dava-lhe perspectiva. Foi por ela que soube que o Rodrigo não tinha voltado à aldeia.
“Nunca mais cá veio, tenho a certeza, a minha mãe é vizinha dele… a D. Teresa é que lá passou umas vezes, poucas, que ela agora também está longe.” Dissera-lhe um dia e passadas umas semanas aquando de mais uma visita da D. Teresa completara-lhe o relato.
“A D. Teresa diz que o filho anda muito triste. Ele já tinha tido um desgosto grande há uns bons 10 anos, depois disso não se lhe conheceu nenhuma namorada, até a Margarida ter aparecido.” Nesse dia contou-lhe que o Rodrigo tinha tido uma grande paixão por uma miúda que conhecera na faculdade, tinham estado até de casamento marcado, mas depois, sem que se soubesse bem porquê ela tinha acabado com o noivado e tinha-se casado com outro.
Demorou-se ali, à janela, perdida nas lembranças dele. Esqueceu-se do frio e viajou, para lá da neblina, para um dia de chuva, o dia em que lhe provou o beijo, o dia em que tudo mudou.

cagádas

sou um pombo posso voar.jpg

Mais um desafio aceite daqui.

Sou um pombo
De grande valor
Sem carta nem rumo
À procura de amor

Posso voar
E andar por ai
Procuro-te nas praças
Sem saber de ti

Tenho o intestino solto
Como é suposto
Sei arrulhar
Sem me calar
O que faço?
Para te encontrar
Tenho de tudo para te conquistar.