margarida #13

Agarrou a chávena de café fumegante com as duas mãos, tinha frio e a lareira ainda estava apagada e a cinza do serão anterior por limpar.
Sentada na mesa em frente à janela contemplava o cenário de conto de fadas, enquanto aquecia as mãos. O dia claro em que amanheceu contrastava com o da aldeia lá em baixo, envolvida numa nuvem branca de neblina. Via as árvores mais altas espreitarem por cima da nuvem, como que em bicos de pés para espreitar o sol que inundava o cabeço. Queria fazer como elas, camuflar-se na neblina e descobri-lo lá em baixo, a amanhecer no nevoeiro.
Não o tinha voltado a ver. O Inverno estava a chegar ao fim, tinha passado o que lhe parecia uma eternidade e sentia-lhe a falta. Tinha mudado muita coisa. Agora, de vez em quando deixava o Chico da mercearia fazer conversa, já todos sabiam quem era e apesar de uma ou outra pergunta mais indiscreta, todos deixavam o passado no lugar dele, achava mesmo que começava uma amizade discreta com a Ana, a miúda do café, mãe de 3 filhos e com quem não tinha nada em comum. Gostava de a ouvir. Gostava de perceber a alegria com que a Ana encarava a vida, uma vida cheia de trabalho e pouco conforto, mas uma vida cheia, feliz. Gostava de a ouvir, dava-lhe perspectiva. Foi por ela que soube que o Rodrigo não tinha voltado à aldeia.
“Nunca mais cá veio, tenho a certeza, a minha mãe é vizinha dele… a D. Teresa é que lá passou umas vezes, poucas, que ela agora também está longe.” Dissera-lhe um dia e passadas umas semanas aquando de mais uma visita da D. Teresa completara-lhe o relato.
“A D. Teresa diz que o filho anda muito triste. Ele já tinha tido um desgosto grande há uns bons 10 anos, depois disso não se lhe conheceu nenhuma namorada, até a Margarida ter aparecido.” Nesse dia contou-lhe que o Rodrigo tinha tido uma grande paixão por uma miúda que conhecera na faculdade, tinham estado até de casamento marcado, mas depois, sem que se soubesse bem porquê ela tinha acabado com o noivado e tinha-se casado com outro.
Demorou-se ali, à janela, perdida nas lembranças dele. Esqueceu-se do frio e viajou, para lá da neblina, para um dia de chuva, o dia em que lhe provou o beijo, o dia em que tudo mudou.

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