recomeços

O 29 de Fevereiro é como aquelas notas que encontramos perdidas na carteira entre os talões do multibanco, os números de telefone escritos em papéis sem identificação que não fazemos ideia de quem são, só que são passado, as facturas de trifene 200 e os inúmeros cartões, inúteis, de lojas em que entrámos uma única vez.

O 29 de Fevereiro é a nota resgatada da tralha. É o Bónus.

acho que já escrevi isto antes

o que me preocupa (03 de Março de 2009 – confesso aqui)

 

Olho para a folha em branco, paro, penso, repenso e estilhaço o tanto que tenho por dizer. Intermitente como o cursor, vou piscando o olho a esta ou a outra palavra, escrevo uma frase duas se tanto e, volto ao branco, volto a parar, a pensar… a mudar.
Não serve, não está bom, volto a apagar. Frustrada, repito, apago e desisto. Voltarei amanhã, talvez depois e continuarei assim, nesta batota, nesta busca pelo que não tenho, neste branco vazio, nesta intermitência…
Não é que me preocupe com a escrita em si. Não é que me preocupe com os juízos de valor que possam fazer. Não é que me preocupe em ser perfeita, ou coerente, ou até polémica. Não! Quero lá eu saber disso. O que me preocupa é que as letras que me saltam pela ponta dos dedos não sejam fieis a mim. O que me preocupa é que as tantas palavras que conheço não saibam quem sou. O que me preocupa são estas frases que se seguem umas depois das outras e que desconhecem esta saudade que me esmaga o peito.
Podia falar-vos da dor, mas que sei eu dessa dor entre tantos doutorados no assunto? Podia falar-vos da falta de ar, mas não, não é ar que me falta é esta poluição que me sobra e o tanto mais que não sei explicar. Podia até se quisesse falar-vos que é doença, jurar-vos que sinto um aperto, uma coisa castrante, um monstro terrível que me habita e aterroriza…
Não é que me preocupe se vos minto… não… o que me preocupa é este eco nas ideias escritas. O que me preocupa é esta coisa, esta ignorância infestada de certeza… o que me preocupa é isto tudo que sei de cor, que sinto o cheiro, o sabor e nunca vivi. O que me preocupa sou eu… e tu… e tu… e tu… e tu… o que me preocupa é o eco desprovido de razão… o que me preocupa é não saber das palavras, aquelas que nunca ouvi… o que me preocupa és tu… e tu… e tu… e tu… que vives em mim e que eu não sei verbalizar.

cruzamentos

Com a janela ligeiramente aberta, para permitir a saída do fumo do cigarro que levava por companhia, o ar gelado da noite ia-lhe entrando directamente na alma. Sabia que em poucos quilómetros encontraria o cruzamento que o levaria para longe dela. Enquanto dava mais um trago no cigarro e levantava o pé do acelerador, para adiar o inevitável, lembrava-se da sua voz durante a tarde.
“Queria passar o dia a arrastar-te pelo braço, a amarrar-te na minha pele. Um dia que não seria necessariamente hoje, um dia de um ano ainda por inventar, um dia onde as promessas de amor eterno não se esbateriam nos dias normais em que só viveríamos lado a lado.
Queria-te sem restrição alguma, apenas porque sim, porque amar-te é um privilégio que quero comemorar entre beijos, abraços, copos de vinho e queijos. Queria prender-te entre as pernas e abraçar-te, para acalmar a ventania lá de fora e o temporal que me vai aqui dentro.
Neste dia inventado, tecido em mantas brancas, queria-te só para mim…”
Encontrou o cruzamento e começou a afastar-se, por uma estrada esburacada, desgastada, difícil de percorrer e ao mesmo tempo tão necessária, tão familiar…
Apagou o cigarro, pensou nela mais uma vez, mandou-lhe um beijo pelo vento e tentou convencer-se a si próprio que um dia talvez fizesse outra escolha no cruzamento…

aiiiiiiiiiii

Estou a descongelar o combinado que aí há um ano que era uma bola de gelo. Foda-se, gosto desta minha nova vida de doméstica com’ à merda. Foi pra isto que eu nasci!

Uma alma caridosa, please, aqui (enquanto vos aponto a testa), shoot me now!

Esperem, já vejo o sangue aqui junto ao teclado, não precisavam de levar isto à letra… adeus mundo cruel!

Calma, não(!), ainda não é desta que me vou, foi só um corte na merda do gelo que agora está a sangrar como se não houvesse amanhã.