belgique

As fotos têm pouco mais de um ano, mas no nosso quintal (entenda-se Europa) as preocupações eram brutalmente diferentes. Tentávamos não ficar com cara de parvos nas fotos, o que nem sempre era possível. Sentíamo-nos tentados entre o chocolate e a cerveja. Comíamos moules et frites e o importante era escolher um restaurante sem ratos. Depois perdíamo-nos pelas ruas e para nossa surpresa ouvíamos algures, contar na língua de Camões. Passou pouco tempo, mas a nossa sensação de segurança já não existe. Tem sido destruída à bomba. Sim, eu sei que esta já era a realidade de outros sítios, sei que somos todos humanos e vale tanto a vida de um Europeu como a de um Sírio ou Turco ou seja qual for a nacionalidade. Sei que vale tanto a vida de um familiar como a de um desconhecido, acontece que por egoísmo, fico sempre mais triste quando o mal acontece no meu quintal, com os meus…

 

meias

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Tirei um café e sentei-me num recanto da varanda. Abrigada do vento consigo sentir o sol, suave e quente a confortar-me o corpo. Começo a bebericar o café, lentamente, como se precisasse dele para justificar a minha presença aqui. Ao ar. Noutros tempos teria a desculpa do cigarro, actualmente não tenho desculpas, fico apenas aqui, a esticar o café enquanto a passarada canta a primavera que se adivinha no ar, alheios a tudo o resto. Ouço os carros, ao longe, os que percorrem a auto-estrada que me fere a paisagem. Imagino as diferentes histórias que se cruzam, pela velocidade a que passam, adivinho a todos a pressa de chegar a algum lugar ou a alguém. Dou mais um golo no café. Está frio, como eu o quero. Nem o sol o aquece nem a minha mão branca, que o agarra como uma bóia de salvação. Volto a levar a chávena à boca e termino-o. Tenho os pés frios, lembro-me. Deixo para trás o sol, os pássaros e a pressa dos outros, dos que têm urgência de chegar a algum lugar. Eu? Vou para casa, aqui fora há demasiado ar para eu respirar sozinha… vou calçar umas meias.

duplo parvicidio

Sabemos que precisamos de ajuda quando, uma prenha insinua em plena reunião de condomínio que assinámos cheques indevidos enquanto faz ameaças e:

– a peixeira que há em nós toma as rédeas da situação e manda a prenha pro caralho a plenos pulmões à frente de toda a gente;

– o hulk, que tentamos camuflar, nos obriga a levantar da cadeira em direcção às trombas da prenha e só o conseguimos deter no último momento em que ele lhe ia arrancar os óculos das trombas.

Hoje ia cometendo um duplo parvicidio!!!

E pronto, adeus, que eu vou ali tentar internar-me!

margarida #14

Para o Rodrigo a porta batida nas suas costas, foi como se ela lhe enfiasse a mão pela boca e com ela lhe arrancasse o coração, rasgando tudo à sua passagem. Um pedaço seu ficou ali, esmagado naquela porta atirada pela raiva ou pela dor, não percebia.

Havia nela muito que não percebia. Não duvidava do seu amor, isso não, sentira-o tantas vezes no seu olhar pousado em si, no sorriso das coisas pequenas e brutalmente importantes que tinham partilhado… o seu amor reconhecera-o em cada vez que fizeram amor e em cada vez que se devoraram de forma urgente, quase animal. O que ele não podia entender era o porquê, de apesar desse amor do qual ele não duvidava, ela não o querer, o porquê de não estar disposta a aproximar-se dele, a deixá-lo entrar verdadeiramente na sua vida. O que o esmagava era essa incompreensão, quando para ele, bastava um simples gesto, um piscar de olho, uma palavra, um suspiro. O que o matava, a pedaços, era saber que mesmo tendo o seu amor, ainda assim não a teria…

Na verdade antes dela tinha amado apenas uma vez, tudo mais tinham sido vontades e, tinham sido algumas, foi por uma dessas vontades que perdeu a mulher com quem iria casar. Um sacana, era assim que costumava pensar em si e agora, perdido, desconhecia-se naquele registo, naquela dor. Não que os sacanas não sofram, só quem nunca o foi, pode ignorar a dor “dos vilões”, a que não se justifica, a que ninguém entende, a que os anula. Só quem nunca o foi desconhece o vazio e a solidão que os preenche em dias cheios de coisa nenhuma. Não que tivesse sido fácil ter vivido a vida inteira a reconhecer-se, muitas vezes até brutalmente pior do que na realidade o era, não que não tivesse sofrido, mas desconhecia completamente aquela dor castradora que o acompanhava. Precisava de tempo, tempo que lhe permitisse respirar outra vez, acalmar-lhe a mágoa que sentia a esmagar-lhe o peito. Também ele sabia de fugas em frente… talvez as almas se procurem e se reconheçam…

8 de Março

Não gosto particularmente de dias de qualquer coisa, seja o que for o qualquer coisa. Parece-me que não deveríamos ter dias marcados para, todos os dias deveriam ser dias dos que amamos e dias para celebrarmos o que acreditamos. O dia da Mulher não é excepção, de alguma forma considero-o até ofensivo. Que raio, precisar enquanto Mulher de um dia que me celebre, que defenda os meus direitos e a minha diferença (sim diferença, eu não quero ser igual, eu sou única, sou melhor e pior, mas única, em momento algum quis ser igual, eu quero é ter os mesmos direitos, as mesmas oportunidades) para quê?! O dia da Mulher, é um dia que me demonstra não a diferença dentro da justiça, mas a diferença na injustiça, o dia que me recorda o tanto caminho que há ainda por palmilhar até que isso aconteça. O dia que me recorda as Bravas que me antecederam e que tornaram estas minhas palavras, desajeitadas e até ridículas, possíveis. O dia da Mulher é um lembrete de uma afronta, que dificilmente veremos resolvida nos nossos dias, de uma luta longe do fim, de uma guerra feita de muitas batalhas, mas não uma guerra perdida. O dia da Mulher lembra-nos que ainda que possamos morrer sem celebrar vitória, permitiremos num amanhã, que outras vençam e que um dia este 8 de Março seja obsoleto e desprovido de qualquer outra razão que não a histórica.

lágrimas

Não tenho chorado apesar do tanto que tenho para chorar. Não percebo esta secura, talvez tenha simplesmente acabado as lágrimas nos últimos meses, lágrimas que vinham a propósito de tudo e não iam embora por nada, lágrimas que surgiam nas alturas mais impróprias e desvendavam uma vulnerabilidade que sempre tento esconder. Amaldiçoava-as, não lhes sentia valor, mas tinham-no, eram a forma de vazar este mal que me corrompe a alma e que agora, sem elas, me corrói o corpo.

Uma tristeza sem choro é uma terra infértil. Um campo sem flores nem ervas daninhas. Um terreno árido. Um dia poluído sem vento nem chuva.

Senti, enquanto escrevia, uma ligeira sensação de pesar nos olhos, mas não são lágrimas é apenas o cansaço, a saudade silenciosa que sinto dos dias em que chorava…