agora não

Sirvo-me de mais uma cerveja e permito ao corpo o contorcer-se, não de dores, que o corpo não me dói, talvez seja a alma, ou simplesmente a maleita que consigo apalpar debaixo dos meus dedos e que não sei onde nasceu. Maligno. Não! Talvez seja apenas o álcool. Um devaneio que me chegou depois do sol se pôr. Talvez seja mesmo o que sinto escondido na pele, debaixo dos meus dedos… talvez seja a luta entre a morte e a vida… posso falar de morte?! E de vida(?!), posso ainda permitir-me sonhar com a vida?! 50 anos – ouço – é tão novo – dizem. Calem-se caralho!, tragam mais uma cerveja e deixem-me o corpo entorpecer. 50 anos. Foda-se! Já?! Logo agora que me apaixonei, que sou um miúdo outra vez… 50 anos… não!!! Tenho 15 e vou a caminho da escola, sem massas malignas no corpo e sem qualquer espécie de mágoa. Agora não, que estou tão novo… Foda-se!!!

um sítio onde eu possa não ser eu

A tarde tem sido passada a ver a Anatomia de Grey, tenho os olhos inchados de tanta choradeira, séries passadas que não vi, porque a minha vida já estava de pernas para o ar e eu ainda não sabia, mas o importante é que algures ouvi uma frase que me fez pensar.

“Precisas de um sítio onde possas não ser tu… esse sítio sou eu…”

Deu-se em mim uma espécie de epifania, o que eu preciso é de um sítio onde eu possa não ser eu, porque ser eu é esgotante e doloroso, procurei a vida inteira por sítios onde possa ser eu… mas eu já o sou, seja eu Marta ou Helena, seja eu a real ou a fantasiada, sou sempre eu, extenuante… o que eu preciso é de um par de braços que sabendo quem sou, me permitam chegar a casa e descansar, não ser eu, porque ser eu é muito mais do que o que eu posso aguentar a tempo inteiro, preciso de descansar de ser eu, preciso de baixar as armas e render-me, na certeza de que passadas umas horas estarei de volta a mim, de onde me será sempre impossível partir, mas que inevitavelmente me fará sempre ter vontade de descansar. Esses braços, são os teus… seja lá onde for que tu estejas, sei que serás perfeito para mim, estou aqui, à espera que chegues, na ânsia de te receber, para que sejas no aconchego de um abraço, tudo o que me faz falta, um sítio onde sem a menor dúvida sobre quem sou eu possa não ser eu…