dias de Outono

Estacionei  nos restauradores sem problemas, há dias assim, em que o universo se conjuga e tudo parece saído de um guião onde nada pode correr mal. A luz de Outubro filtrada pelas árvores ainda verdes dão a tudo um tom amarelo esverdeado de fim de dia, ou talvez seja a cor das lentes dos óculos, não é importante, o importante é que ao sair do carro não parei na montra da Rosa Clará, não larguei umas pinguinhas pelos vestidos e até o arrumador me deixou estacionar em paz sem perder tempo. O que interessa é que as ilusões que se foram com a vida e os dias corridos, deram lugar a outras, mais físicas e palpáveis. O que importa é que desci o pouco que faltava da Avenida até ao Rossio e daí subi, sempre em passo acelerado até ao Largo do Carmo. Estava calor. Eu só queria frio e aconchego e… depois, muito suor.

Ela estava sentada numa das esplanadas, a do quiosque, à sua frente um copo de gin. Sorri para mim pelo cliché. Nunca gostei de modas, nem de gin. Abri um sorriso, pedi licença e sentei-me.

“Uma super bock por favor” – pedi passados uns minutos, depois de ter trocado com ela meia dúzia de palavras e a ter catalogado como pouco inteligente. Bonita sim, muito bonita. Pescoço comprido, lábios carnudos, olhos claros. Talvez uns 10 cm mais alta do que eu, curvas generosas, sei que gostas disso… mas sem duvida não seria qualquer tipo de ameaça para mim. Elogiei-a, mordisquei o lábio inferior enquanto a namorisquei e olhei para o relógio no meu pulso direito, estava na hora de sair dali. Tu estarias à nossa espera em menos de uma hora, no quarto cor-de-rosa, chamamos-lhe assim, alugamo-lo por uma noite, mas ficamos apenas umas horas, nunca a noite.

Paguei o gin e a super bock, combinei esperá-la no inicio da Avenida e daí seguimos. Mal arrancámos liguei-te, estava ansiosa por te contar que a minha mão tinha deslizado pelo meio da saia dela. Queria que soubesses que a senti quente…

Estacionei ao lado dela, atrás do teu carro, debaixo da amoreira. Bati três vezes e abriste a porta. Atrás de ti podia ver três copos de vinho. Beijei-te. Amo-te e sei que te terei mais tarde, depois dela ir embora, mas para já sei que a minha e a tua prioridade é a de a…!

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as criancinhas

Abomino criancinhas no geral e os pais das criancinhas em particular, mas confesso aqui (aiii saudades, logo hoje) que algumas me tem roubado o coração.  Confesso também, com bastante vergonha é certo, que para mim, pior que criancinhas é as criancinhas serem ciganas. Como a vida me está a fazer engolir todas as minhas opiniões e conceções do mundo, heis que na semana passada caiu por terra mais um preconceito.

Parte do que faço é acompanhar os almoços das crianças. Falo com elas e convenço-as a comer, com uma moralidade que não existe em mim, porque eu própria em tantos e tantos dias faço asneiras das gordas e salto refeições e…, mas adiante, falava-vos eu do Tomás, um menino cigano, lindo de morrer, pele morena, cabelo claro, olhos verdes. O Tomás é um miúdo problemático, talvez por isso me tenha conquistado no primeiro dia. O Tomás sentou-se na mesa do refeitório e as meninas que estavam naquela ponta da mesa saíram todas com risinhos idiotas, reconheço-os bem, já os tive com a idade delas. Não percebi de imediato o que se passava e perguntei às miúdas, em tom de brincadeira se estavam a ir em romaria a algum lado, uma delas olhou-me e disse-me:

“Olha, não sei o que é isso, mas deve ser!”

Não lhe dei grande importância e dirigi-me ao miúdo solitário na ponta da mesa. Cabeça baixa, olhos lacrimejantes.

“Olá! Como é que te chamas?”

“Tomás.”

“Olá Tomás, eu sou a Marta, porque é que não foste com as tuas amigas?”

“Eu não tenho amigos, têm nojo de mim.”

Senti de imediato um soco no estômago e de lágrimas fáceis como ando, apeteceu-me dar-lhe colo e chorar com ele, naturalmente não o fiz. Pus-me de cócoras ao lado dele, afaguei-lhe o ombro com a minha mão direita e tentei desviar a cabeça, com medo de eventualmente haver piolhos por ali (Roma e Pavia não se fez num dia tá? Preciso de algum tempo para me livrar dos preconceitos 😛 ).

“Oh Tomás, que disparate! É claro que tens amigos!” – Enquanto lhe disse isto, por cima do ombro dele fitei a miúda com quem tinha trocado as palavras. E nesse momento fiquei com fé na raça humana. A miúda levantou-se, agarrou no tabuleiro e veio sentar-se na frente dele. Logo depois voltaram todas e rodearam-no, eu levantei-me, fingi que não dei crédito a nada e disse-lhe que estava de olho nele, queria tudo comido e poucas desculpas. Pouco depois passei pela miúda e disse-lhe baixinho:

“Estou muito orgulhosa de ti querida.”

E pronto, o mundo está mau, os adultos não prestam e são burros no geral e muitos que eu conheço no particular, as criancinhas, embirrantes e barulhentas são educadas por esses adultos, mas talvez, talvez, uma ou outra tenha potencial de se salvar!

Enfim, eu não vou nem quero salvar o mundo, tomara eu salvar-me a mim, mas o Tomás, almoça todos os dias acompanhado e porta-se mal o suficiente, para todos os dias eu ralhar com ele… com um carinho enorme!

parabéns

Hoje farias 41 anos e, eu que me lembro sempre dos teus anos, não te daria os parabéns se pudesse… mas, dou-tos assim, como se isto agora valesse de alguma merda!

Encontramo-nos lá para 2000 e o que for…

 

“No dia 4 de junho de 2086
Talvez possamos sentar nos a falar de que?
…não sei

Do que fizemos da vida
se a vivemos bem ou mal
no dia de 4 de junho de 2000 e 80 e tal

No dia 13 de março de 2000 e o que quiseres
podes ser tua a marcar
podes ser tu a escolher
talvez possamos deitar-nos
a fazer não sei o que
talvez amor com a alma, que o corpo já não se vê

Eu sei já percebi acabou
eu sei é sempre assim mas ficou

Aquilo que te dei
e o que me deste a mim
também o que não dei
foi assim…

Se achares que é tarde demais
pode ser quando poderes
por mim é já está noite
num jardim de mal-me-queres

Ou no meio da avenida
deserta ou com multidão
já pressenti o momento
já quebrei de ilusão

Eu sei já percebi acabou
eu sei é sempre assim, mas ficou

Aquilo que te dei
e o que me deste a mim
também o que não dei
foi assim…

A 29 de agosto de 2000 e o que entenderes
talvez possamos olhar-nos como da primeira vez

contar a historia de novo
mudar-lhe só o final
se não poderes nessa data pode ser noutra, que tal
se não poderes nessa data pode ser noutra, que tal…”

vidas

Sexta-feira foi dia de terapia. Falei (muito) das minhas novas “amizades”, de como me sinto um peixe fora de água, de como não temos absolutamente nada em comum nas nossas vidas. Esta semana enquanto ouvia uma a falar do marido e da relação de ambos, como se o que ela descrevia fosse a coisa mais desejada do mundo, percebi, finalmente, que pode não ser a mais desejada, mas é com certeza a mais normal, a mais comum. As pessoas estão juntas por hábito, por comodismo, por necessidade… vivem vidas separadas dentro da mesma casa. Elas em função dos filhos, eles em função dos trabalhos. Elas faltam ao emprego, ruim (que não lhes permite largar os trastes), para tratar das criancinhas doentes, eles, tem as criancinhas lavadas e tratadas quando chegam a casa e o jantar na mesa. Elas, trabalham que nem umas mulas em casa e no trabalho, contentam-se com o que a vida lhes deu sem questionar e vão emburrecendo (e muito, valha-me Deus), com o Goucha ao almoço e a casa dos segredos ao jantar. A conversa varia entre as criancinhas e os trastes, os jantares e almoços programados da semana, a necessidade de ir a Lisboa fazer alguma coisa e a coordenação extraordinária que isso implica, já que elas, todas com carta, nunca conduzem em Lisboa, é muita confusão para as suas cabecitas, essa tarefa fica a cargo do macho, uma espécie de favor que ele lhes faz em troca de nunca ter mudado uma fralda, nem ter levantado o cú da cama para ver porque raio a cria estava a chorar e, essa ida a Lisboa, que tanto pode ser uma consulta como alguma necessidade de uma das crias, de repente fica qualquer coisa memorável, um acontecimento conjunto nas suas vidas separadas. Falamos também do tempo, da facilidade de enxugar a roupa e de quantas pessoas se constiparam em casa, estas são as conversas mais estimulantes e aquelas em que posso participar.

“Esta noite esteve tanto vento que de manhã tinha a roupa quase seca.”

“Pois foi.”

Depois do relato detalhado a Psicóloga olhou para mim e perguntou:

“A Marta queria a vida que elas têm?”

“Decididamente não! Acontece que elas dormem todas acompanhadas, eu não… o que faz com que talvez também não queira a minha.”