vidas

Sexta-feira foi dia de terapia. Falei (muito) das minhas novas “amizades”, de como me sinto um peixe fora de água, de como não temos absolutamente nada em comum nas nossas vidas. Esta semana enquanto ouvia uma a falar do marido e da relação de ambos, como se o que ela descrevia fosse a coisa mais desejada do mundo, percebi, finalmente, que pode não ser a mais desejada, mas é com certeza a mais normal, a mais comum. As pessoas estão juntas por hábito, por comodismo, por necessidade… vivem vidas separadas dentro da mesma casa. Elas em função dos filhos, eles em função dos trabalhos. Elas faltam ao emprego, ruim (que não lhes permite largar os trastes), para tratar das criancinhas doentes, eles, tem as criancinhas lavadas e tratadas quando chegam a casa e o jantar na mesa. Elas, trabalham que nem umas mulas em casa e no trabalho, contentam-se com o que a vida lhes deu sem questionar e vão emburrecendo (e muito, valha-me Deus), com o Goucha ao almoço e a casa dos segredos ao jantar. A conversa varia entre as criancinhas e os trastes, os jantares e almoços programados da semana, a necessidade de ir a Lisboa fazer alguma coisa e a coordenação extraordinária que isso implica, já que elas, todas com carta, nunca conduzem em Lisboa, é muita confusão para as suas cabecitas, essa tarefa fica a cargo do macho, uma espécie de favor que ele lhes faz em troca de nunca ter mudado uma fralda, nem ter levantado o cú da cama para ver porque raio a cria estava a chorar e, essa ida a Lisboa, que tanto pode ser uma consulta como alguma necessidade de uma das crias, de repente fica qualquer coisa memorável, um acontecimento conjunto nas suas vidas separadas. Falamos também do tempo, da facilidade de enxugar a roupa e de quantas pessoas se constiparam em casa, estas são as conversas mais estimulantes e aquelas em que posso participar.

“Esta noite esteve tanto vento que de manhã tinha a roupa quase seca.”

“Pois foi.”

Depois do relato detalhado a Psicóloga olhou para mim e perguntou:

“A Marta queria a vida que elas têm?”

“Decididamente não! Acontece que elas dormem todas acompanhadas, eu não… o que faz com que talvez também não queira a minha.”

7 thoughts on “vidas

  1. Quanto à vida das tuas novas amigas, acho que é difícil criticar (quer dizer, criticar é fácil mas…)… nem sempre sabemos o que viveram, o contexto… o antes e o depois! É difícil entendermos, talvez… mas … elas são tão felizes pela ignorância… não são?

  2. Eu acho que poderias aproveitar esta nova fase para aprender um pouco mais… aprender sobre a casa dos segredos, as novelas e sobre a vida dos outros… Existem coisas que desconhecemos e que podem fazer toda a diferença (or not) na nossa cultura!

  3. Minha querida, não as considero ignorantes, considero algumas burras, assustadoramente burras, outras apenas não tiveram as mesmas oportunidades que eu, mas como te dizia ontem, a verdade é que eu com outras oportunidades e outra história de vida, estou ali, ao lado delas… mérito delas não meu.
    Quanto à cultura que posso aprender na casa dos segredos e na vida “dos outros”, deixa lá isso, prefiro fazer coisas mais interessantes!😛

  4. Pois, eu também não quero a delas e não quero a minha. E ainda me questiono sobre o que tenho de errado… (aparentemente, nada, mas continuo a atrair merda, o que me leva a concluir que, provavelmente, sou mosca!)

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